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Junun, uma boa surpresa na abertura do Soundhearts Festival

Na última sexta-feira o aclamado grupo Radiohead retornou aos palcos brasileiros após nove anos com o Soundhearts Festival, que ainda acontece em São Paulo neste domingo.

Junun #junun #soundheartsfestival

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Pontualmente às 19h30 Junun abriu a promissora noite com uma mistura de ritmos árabes e indianos com composições de Shye Ben Tzur e Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead.

O projeto foi produzido e gravado também por Greenwood junto de Nigel Godrich. O que por sí já atesta a qualidade da sonoridade de Junun.

Um grande show de abertura de uma noite memorável.

Divertido e tolo, ‘La Casa de Papel’ é uma novela travestida de série

La Casa de Papel é de fato uma série ruim. Ponto. Por mais que seja sedutora, especialmente pela maneira desavergonhada com que conta sua história, fica muito claro o quanto seu roteiro é frágil, com furos inacreditáveis e ainda com sérios problemas de desenvolvimento de seus personagens. Um grupo de criminosos é reunido por um misterioso personagem (talvez o melhor da série), chamado Professor (Álvaro Morte), para assaltar a Casa da Moeda da Espanha. Um assalto de bilhões de euros.

Cada um deles tem motivações diferentes para o crime. Mas é mesmo o Professor, com seu engenhoso planejamento que manipula todas as circunstâncias que esse assalto provoca, sobretudo diante de sua relação com a inspetora do caso, Raquel (Itzar Ituño, num papel ingrato desde a sua criação). Fica bem evidente que os personagens são rasos dentro de suas motivações, mais preocupadas em alinhavar tipos que aprofundá-los. Nairóbi (Alba Flores) é uma das que mais sofre desse efeito. A própria narradora da história, Tóquio (Úrsula Corberó), se resume a essa função na narrativa. Sua trama é esquecida e esvaziada entre o princípio e o fim.

Os 18 episódios (divididos em duas partes) não foram suficientes para evitar que a narrativa se equivoque sob o roteiro que subestima claramente nossa inteligência. O excesso de coincidência para justificar as viradas dramáticas; o investimento injustificado em melodramáticos romances para tapar os buracos do excesso de personagens (o maior assalto do país acontecendo e a responsável pelo caso se joga num romance “adolescente” com o responsável pelo crime).

A busca pelas viradas são de uma  inverossimilhança irritante – a cena dos reféns no terraço e o retorno de um dos assaltantes a Casa da Moeda, furando o bloqueio policial, chegam a ser desrespeitoso com nosso tempo, e por aí vai. Isso sem contar os personagens ou “núcleos” que esboçam alguma importância para a trama, mas são sumariamente esquecidos, como a refém, filha do embaixador e o fato do centro de inteligência não precisar ao certo – mesmo com alguns dos reféns libertados horas antes – que havia mais de um túnel de fuga dos assaltantes.

Tecnicamente bem feitinha e dirigida (apesar de nas cenas de tiroteio, a montagem ser bem esquisita), La Casa de Papel não se difere em nada das novelas. Só que as novelas são assumidamente folhetins, o que diz muito sobre a sua estrutura. A série que a Netflix comprou de uma canal espanhol não. Ela até bebe muito da fonte de clássicos filmes de assalto. Mas na verdade, o intuito parece ser só divertir, mesmo que para isso tenha que prescindir de sentido. Ou apenas de inteligência mesmo.

Obs: diferente da TV espanhola, onde surgiu e foi primeiramente exibida, a série fez tanto sucesso e barulho que a Netflix produzirá uma nova temporada. Não saber o que isso significa acaba fazendo parte de sua graça.

‘7 Dias em Entebbe’ não traz o melhor de José Padilha como diretor

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O cineasta José Padilha acostumou mal o público que gosta de um bom cinema. Depois de conquistar os corações cinéfilos com o documentário “Ônibus 174” e os sensacionais “Tropa de Elite” e “Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro”, além de realizar um bom remake de “RoboCop” (que, ainda assim, dividiu opiniões), parecia que todos os seus filmes sempre seriam de bastante impacto e capazes de arrebatar, não só pela parte técnica, como também pelas questões levantadas em suas histórias que levam à reflexão. O problema é que isso não acontece exatamente com seu novo trabalho, “7 Dias em Entebbe” (“Entebbe”, 2018), que procura mostrar o que aconteceu durante o sequestro de um avião em 1976 que causou comoção mundial e que já foi tema de outras produções. Não que seja um filme ruim. Longe disso. Mas falta a ele o diferencial que Padilha imprimiu tão bem em suas produções anteriores: vigor e autenticidade.

Inspirada em fatos reais, a trama conta como foi elaborado o plano liderado por Wilfried Böse (Daniel Brühl) e Brigitte Kuhlmann (Rosamund Pike), extremistas alemães que, junto com dois palestinos, sequestraram um avião da Air France que ia para Paris com 248 passageiros no dia 27 de junho de 1976. Os sequestradores levaram a aeronave para o aeroporto de Entebbe, em Uganda, país que era governado na época pelo ditador Idi Amin (Nonso Anozie), e fazem os passageiros e a tripulação como reféns.

A notícia cai como uma bomba para o primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin (Lior Ashkenazi), que entra em conflito com o seu ministro da Defesa, Shimon Peres (Eddie Marsan), que acredita que ele não deve ceder às exigências dos terroristas, que querem US$ 5 milhões e a libertação de cerca de 50 militantes pró-Palestina presos ao redor do mundo. Para Peres, a solução ideal é a realização de uma ação militar para resgatar os reféns e deter os seus captores.

Com uma história tão instigante quanto essa, Padilha parecia ser o diretor ideal para realizá-la e conferir a energia necessária para torná-la um thriller instigante. No entanto, salvo alguns raros momentos, o que o brasileiro fez não difere muito do que outros realizadores já fizeram, até mesmo em telefilmes que volta e meia passam no “Supercine”, por exemplo. Muito do que é mostrado na tela é bastante burocrático e pouco envolvente, o que é uma pena por não despertar a tensão esperada.

Há várias questões que o filme levanta, como o conflito entre os sequestradores alemães de não serem bem vistos por estarem com judeus em seu poder, o que faria a opinião pública associar a ação a um novo Holocausto, que é interessante, mas é colocado de forma superficial e logo esquecida. Até porque Padilha não parece ter um foco definido para o filme. Talvez porque esse não é um projeto realmente seu e teve que se submeter à vontade dos produtores. Contrariedade que, segundo boatos, ele também teve com “RoboCop”.

Outro problema que o filme apresenta é que, desta vez, Padilha não realizou cenas de ação tão convincentes quanto às que fez nos dois “Tropa de Elite”, deixando o impacto e a verossimilhança de lado para fazer algo mais convencional, o que pode decepcionar muita gente. Além disso, o roteiro assinado por Gregory Burke parece às vezes não saber como desenvolver tantas subtramas com tantos personagens, perdendo o foco de alguns deles durante a história. Um bom exemplo disso é mostrar os protagonistas como pessoas hesitantes sobre o que devem fazer em momentos cruciais. Fica claro a intenção do roteirista em torná-los mais humanos e não simples caricaturas, mas isso pode irritar parte dos espectadores, especialmente se forem judeus. Sem falar na história envolvendo o personagem Zeev, interpretado por Ben Schnetzer, que ganha importância mas nunca chega a empolgar.

O curioso é notar que os pontos positivos do filme não vêm nem da direção nem do roteiro, mas sim da edição e da fotografia, feitas pelos habituais colaboradores de Padilha, Daniel Resende (o diretor de “Bingo: O Rei das Manhãs”) e Lula Carvalho, respectivamente. O principal momento de Resende é uma sequência que mistura um número da Companhia de Dança Batsheva, de Ohad Narahin, com a preparação dos militares para a missão de resgate. Já Carvalho consegue dar um tom certo para dar um clima de aridez que também contribui para aumentar a tensão entre os sequestradores e seus reféns durante o seu cativeiro. Vale destacar também a boa trilha sonora assinada por Rodrigo Amarante, integrante do grupo Los Hermanos e que interpreta a música-tema do seriado “Narcos”, do qual Padilha também esteve à frente.

À frente do ótimo elenco, Rosamund Pike faz o possível para tornar sua Brigitte Kuhlmann uma mulher de várias camadas e, assim, mais interessante. Porém, a atriz não alcança a profundidade necessária e acaba limitando a sua atuação a gritos, ataques de fúria e olhos arregalados que a fazem mais parecer um cosplay do Michael Jackson no fim da sua vida. Nem mesmo num momento crucial da trama, que é praticamente um solo dela, a coisa melhora porque sua performance acaba antecipando o que seria uma surpresa.

Daniel Brühl dá um tom certo de revolta e, ao mesmo tempo, de ingenuidade para Wilfried Böse e, ao contrário de sua parceira de cena, tem pelo menos uma ótima sequência ao ser questionado pelo engenheiro de voo (interpretado por Denis Ménochet, ótimo) sobre a importância de pessoas como ele no mundo. Mas quem rouba a cena mesmo é Eddie Marsan, como um Shimon Peres astuto e disposto a convencer a todos de suas ideias apenas na conversa. Graças a ele, o filme ganha um pouco de vida e é uma pena que isso dure pouco.

No fim das contas, “7 Dias em Entebbe” acaba apenas cumprindo tabela na filmografia de José Padilha, que parece estar cada vez mais disposto a investir em sua carreira internacional. Mas precisa voltar a ter aquela paixão que demonstrou em seus primeiros projetos para ser reconhecido lá fora como um cineasta diferenciado. Do contrário, acabará conduzindo trabalhos pouco memoráveis, o que seria realmente um desperdício.

Filme: 7 Dias em Entebbe (Entebbe)
Direção: José Padilha
Elenco: Rosamund Pike, Daniel Brühl, Eddie Marsan
Gênero: Drama, Suspense
País: Reino Unido
Ano de produção: 2018
Distribuidora: Diamond Filmes
Duração: 1h 47min
Classificação: 12 anos

‘Life in 12 bars’ mostra os demônios de Eric Clapton

Documentário, que foi exibido nos cinemas lá de fora e chega às lojas em junho, emociona até mesmo quem não é fã do guitarrista

Eric Clapton é um dos músicos mais famosos e talentosos do mundo. Já compôs canções que se tornaram clássicos do rock, já ganhou vários prêmios e amou várias mulheres. Porém, teve uma vida cheia de baixos e agora, depois dos 70 anos, decidiu abrir o coração em um documentário no qual, mais que narrar sua carreira, conta sobre suas mágoas, seus vícios (álcool e drogas) e seus traumas. “Life in 12 Bars” (Vida em 12 compassos, em tradução livre) serve como um belo complemento para alguma das inúmeras biografias do músico. E confirma que ele é mesmo um sobrevivente.

O filme, dirigido pela cineasta e produtora vencedora do Oscar, Lili Fini Zanuck, teve como base uma série de entrevistas em que Clapton foi acessível em relação a várias coisas. Por isso, talvez, a música fique em uma espécie de segundo plano, embora o próprio Clapton seja categórico: “A música me salvou”. O foco principal fica mesmo na vida do artista, desde a infância, quando foi abandonado pela mãe, criado pelos avós – ele passou boa parte da infância achando que a irmã era a sua mãe e só foi conhecer a mãe já grandinho -, até o family man dos dias de hoje, passando pelas loucuras dos anos 60 e 70 e pela morte do filho Connor, em 1991.

Vícios

Se os anos 60 foram a época da maconha e do LSD, os anos 70 foram a época – para Clapton – da heroína e do álcool. Embora amplamente divulgado, é diferente ler sobre os efeitos da droga em Clapton e ver e ouvir esses efeitos. Em uma entrevista, com a voz totalmente chapada, ele diz odiar a vida e que não vai ficar por aqui (na Terra) por muito tempo. Mais angustiante ainda é ver cenas de Clapton cheirando cocaína e bêbado no palco e fora dele, em um estado muito mais deplorável do que quando usava heroína. Os absurdos comentários racistas – que o documentário não mostra, apenas apresenta recortes de jornais sobre o assunto – e o comportamento errático do músico esclarecem a razão dessa década ser praticamente ignorada na maioria das biografias. Ele simplesmente não lembra de muita coisa.

Porém, em termos de vício, podemos dizer que tudo começou com uma mulher: Pattie Boyd/Harrison. A então mulher do beatle George Harrison, melhor amigo de Clapton, e dona de algum borogodó poderoso (vale lembrar que ela foi a inspiração para canções como ‘Something’, ‘Layla’, ‘Wonderful Tonight’ e ‘Breathe On Me’) revirou a cabeça do guitarrista, que mergulhou na heroína e acabou produzindo o seu melhor trabalho: “Layla and Other Assorted Love Songs”, um grito desesperado de amor, que acabou não surtindo efeito e só piorou a vida do Deus da Guitarra.

Música

Como citei anteriormente, “Life in 12 Bars” serve como complemento às biografias de Clapton, principalmente no que se refere a sua carreira. Há alguns momentos e outtakes interessantes da sua carreira com o Cream e, principalmente, sobre o processo de criação do primeiro e único álbum do Derek and the Dominos. Todo o resto, inclusive o encontro com Hendrix, é pincelado de maneira reverencial, mas que não dá a devida profundidade que sua música merece. Vários discos são apenas citados e outros totalmente ignorados, o que torna o documentário capenga nesse sentido.

A trilha sonora do documentário, que também será lançada em junho, traz algumas boas novidades, entre elas a versão completa do sucesso ‘I Shot the Sheriff’ e duas mixagens feitas pelo próprio Clapton para canções do seu primeiro disco solo, embora também fique mais restrita aos primeiros anos da carreira de Clapton.

Drama e emoção

Se a carreira musical é usada como uma estada secundária, fica impossível não se emocionar com momentos como o do nascimento do primeiro filho, Connor, de como Clapton nutriu e germinou o espírito paterno e de como a trágica morte do menino afetou para sempre a sua vida e, muito provavelmente, o manteve vivo. O momento no qual Clapton fica em casa lendo cartas de condolências e acaba descobrindo um tesouro do filho, é daqueles que fazem com que qualquer ser humano minimamente normal fique com os olhos cheios d’água. E se a primeira cena do documentário – uma mensagem de vídeo gravada no dia da morte do amigo e ídolo B. B. King – parece fora de contexto, a última cena do documentário faz tudo se encaixar.

“Life in 12 Bars” tem muitas qualidades e defeitos. Pode não ser o documentário definitivo sobre a carreira de um dos maiores nomes do rock e do blues de todos os tempos, mas é definitiva para alguém que precisava exorcizar tudo, exorcizar todos os fantasmas e demônios que tornaram possível se tornar um bom pai, marido e pessoa.

O CD, DVD e Blu-ray tem lançamento programado para o dia 8 de junho – sem previsão de lançamento no Brasil – e (tomara) deve trazer alguns extras que podem enriquecer ainda mais a obra.

Kendrick Lamar e o Pulitzer: quando o rap é grandioso

A entrega do prêmio Pulitzer, no início da semana, ao rapper Kendrick Lamar, primeiro artista fora do jazz e da música clássica a receber a honraria, não me surpreendeu.
Várias vezes o rap é farra e gastação lírica, é verdade.

Outras vezes, no entanto, ele codifica uma poderosa interpretação/invenção poética e crítica da realidade feita por quem não costuma ter acesso privilegiado aos espaços institucionais e estabelecidos, onde se produzem os discursos validados socialmente.

Como um saber oral poderoso em forma de arte, o rap se equivale a estes espaços e torna-se um vetor de produção de exuberantes narrativas sobre a experiência humana, tal como a História, a Filosofia, o Jornalismo e, sobretudo, a Literatura. Mas uma Literatura das ruas.

Como História, o rap narra o movimento vivo das comunidades através do tempo.
Como Filosofia, o rap está distante do cânone grego, e próximo da ancestralidade afrocêntrica em que a narrativa se dá enlaçada ao ritmo. Aqui, o rap investiga o ser das coisas e as possibilidades de ação perante o dinamismo permanente da vida.

Como um jornalismo encarnado feito por quem vive os casos que relata, o rap é um grande cronista do cotidiano.

E tudo isso funciona a partir de um alegre encontro entre pensamento e arte, onde a palavra é recurso estético, o fazer literário é valor supremo e a rima é rainha majestosa.

O resultado deste encontro é transmitido através da potência expressiva da música, que comunica à razão e aos sentidos, e chega a milhões de pessoas que podem pensar sobre o mundo, conhecer a si mesmos, se emocionar junto com outros, se sensibilizar com as sutilezas da vida e se educar para a autotransformação enquanto dançam!

Por isso, não estranho a premiação de Kendrick Lamar, um dos que leva o rap a este patamar.

E há outros.

Como dizer que Mano Brown não é um intelectual e um poeta competente?

Como dizer que Black Alien não é um homem de letras?

Quem fez melhor do que Sabotagem a crônica da vida na metrópole contemporânea?

Como dizer que Rincón Sapiência e Emicida não são jovens escritores que estão pensando o Brasil e sua negritude?

Como dizer que Jay-Z ou Hakim não têm densidade poética e filosófica?

Como não admitir que a música e o rap podem ser tão sublimes quanto os melhores momentos da literatura e da filosofia?

As histórias mais marcantes do Superman

Há exatos 80 anos surgia o Superman. Nascido na Action Comics #1, em 18 de abril de 1938, a criação de Joe Schultz e Jerry Siegel inaugurava a era dos super-heróis. Essa mitologia moderna que foi ganhando novos elementos e contornos ao longo das décadas. Passado todo esse tempo, o filho de Krypton já passou por todo tipo de reformulação. Ganhou um ponto fraco, pois achava-se que estava muito invulnerável. Já desapareceu, já morreu. Parte da árdua luta para se manter relevante. Frente a fenômenos mais jovens como o Homem-Aranha e os X-Men, o Super acabou sendo considerado um personagem defasado. Os jovens se identificavam muito mais com a humanidade dos heróis da Marvel, e até mesmo com seu companheiro de Liga da Justiça, Batman.

A associação feita de sua imagem aos ideais da sociedade americana do pós-guerra também mancharam um pouco sua reputação. Mas não há como negar: quando pensamos em super-herói, o primeiro que vem à cabeça é ele, o primeiro. O maior herói da Terra. E, sejamos justos, apesar de muitos menosprezarem a qualidade da maioria de suas histórias, o Superman ganhou arcos memoráveis, justamente quando já era considerado um personagem ultrapassado.

Como não lembrar de O que aconteceu ao Homem de Aço?”, aquela coisa fina escrita por Alan Moore, desenhada por Curt Swan e arte-finalizada por George Pérez e Kurt Schaffenberger? Outra grande história inesquecível é “Para o Homem que Tinha Tudo”, também de Alan Moore com o Homem de Aço. De abordagem profunda e inédita, é vista como uma obra representativa na “Era de Bronze” dos quadrinhos – histórias publicadas entre 1970 e 1986.

Não podemos nos esquecer de “Grandes Astros”. Fazia parte de uma série mensal de histórias em quadrinhos, cuja proposta da série era colocar um time de bambas dos quadrinhos americanos revisitando o passado dos personagens. Super-Homem foi para Grant Morrison, com desenhos de Frank Quitely.

Se o Super é tão associado ao americano way, é irresistível imaginar o que aconteceria se, ao invés de uma cidadezinha da América profunda, Karl El tivesse ido parar na União Soviética. Foi o que Mark Millar concebeu em “Entre a Foice e o Martelo”. Ali, em vez de lutar por “… verdade, justiça e o American Way”, Superman passa a ser “… o Campeão do trabalhador comum que luta uma batalha interminável por Stalin, o socialismo e o expansão internacional do Pacto de Varsóvia “.

Sua identidade secreta, na verdade, é um segredo de Estado. E por falar em identidade secreta, outro arco que vale ser lembrado é o criado por Kurt Busiek. “Superman: Identidade Secreta” inverte os fatores, colocando Clark Kent como um terráqueo que descobre ter os mesmos poderes de seu xará famoso.

Em homenagem aos 80 anos do Homem de Aço, cinco autores da Revista Ambrosia elaboraram, cada um, seu ranking das cinco melhores histórias do célebre aniversariante. Confira:

Alexandre Giuberti
  1. Entre a Foice e o Martelo
  2. O Que Aconteceu ao Homem de Aço?
  3. As Quatro Estações
  4. O Homem de Aço
  5. A Morte do Superman
Bernardo Cury
  1. Grandes Astros
  2. Para o Homem que Tinha Tudo
  3. Identidade Secreta
  4. É Um Pássaro!
  5. Entre a Foice e o Martelo
Cadorno Teles
  1. O Último Filho de Krypton
  2. O Homem de Aço
  3. Entre a Foice e o Martelo
  4. À Prova de Balas
  5. Endgame
Célio Silva
  1. O Que Aconteceu ao Homem de Aço?
  2. Para o Homem que Tinha Tudo
  3. Entre a Foice e o Martelo
  4. As Quatro Estações
  5. A Morte do Superman
Cesar Monteiro
  1. O Que Aconteceu ao Homem de Aço?
  2. Grandes Astros
  3. Entre a Foice e o Martelo
  4. Paz na Terra
  5. O Homem de Aço

Perdidos no Espaço renova as ideias e entrega um bom produto

A Netflix além de trazer conteúdos originais, tem feito revivals de alguns séries antigas. Desta vez, ela traz a atualização do clássico da TV dos anos 60 “Perdidos no Espaço” (Lost in Space), criada por um dos gênios da indústria da época Irwin Allen (de Terra de Gigantes, Viagem ao Fundo do Mar). A série já havia sido adaptada para o cinema em 1998, naquele filme com William Hurt, Matt Le Blanc e Gary Oldman. Um longa bem fraco e esquecível.

Nessa nova série, temos uma atualização do seu conceito, que deixa um pouco de lado o clima de aventura divertida para trazer um senso de urgência, no qual os conceitos de ficção científica são bem explorados. E também mais melancólico na dinâmica familiar e visão do futuro. Aqui, a Família Robinson lida com o problema de relacionamento entre os pais e com o sofrimento do pai pela ausência dos filhos.

A família está a bordo da Júpiter 12, que junto com outros colonos está deixando a Terra e indo até Alfa Centauro, mas a nave-mãe que os levava é atacada pelo robô que acaba se aliando ao filho mais novo, Will Robinson (Maxwell Jenkins). E, o ponto que poderia haver mais polêmica, a troca de gênero do Dr.Smith, acaba se resolvendo na primeira cena, que consegue justificar a troca e faz o fã mais hardcore se acalmar nas trocas de características da personagem.

Aliás, o grande destaque é a atuação Parker Posey como a nova Dra.Smith, que tem a personagem mais interessante cuja repaginação na série é bem construída além de sua interpretação se destacar em relação aos demais. O espectador sente no olhar dela seu desespero e como ela maquina seus planos, que a torna interessantíssima.

Outra mudança que ocorre de personagens é de Don West (Ignazio Serriicchio), que na série, original era um Major, piloto da nave, se torna um engenheiro cabeça dura, mas continua como o interesse romântico de Judy (Taylor Russell), desta vez filha do primeiro casamento de Maureen (Molly Parker), daí a mudança de etnia.

O sentindo de urgência na série a torna bem dinâmica e satisfatória. Os desafios postos à prova da Família Robinson são interessantes e cada membro tem seu espaço de ser tanto o herói do dia, como o que causou a confusão que desencadeia o conflito. Existe problemas de consistência no roteiro e até na continuidade (os pais saem de uma situação de perigo vestindo apenas de roupas de baixo no meio do nada e na cena seguinte, já estão com trajes e equipamentos). A série tem mais méritos que defeitos e vale a pena ser conferida por quem gosta do gênero.

Filmes baseados em games no Outcast!

Está no ar mais um episódio do Outcast! Nesse programa, o tema são as adaptações de games para o cinema. O assunto vem no embalo do lançamento de Rampage: Destruição Total, do recente reboot de Tomb Raider, e, de certa forma, Jogador Nº 1, que não deixa de estar relacionado aos games. Confira nosso debate elencando as melhores (minoria) e piores (maioria) transposições dos bits para as telonas, e explicando o porquê de muitas vezes a coisa não dar certo.

E para você? Qual a adaptação de game mais satisfatória? O Outcast é um canal totalmente aberto à sua participação no debate. Deixe suas opiniões, dúvidas, etc nos comentários.

Outcast é o videocast apresentado pelo site Ambrosia, que trará novidades, dicas, e debates sobre cinema, séries e Cultura Pop num clima descontraído de uma rodinha de amigos. Curta, compartilhe e assine o canal!

Rotas do Ódio: entretenimento de qualidade sobre assunto sério

Não há um único dia entediante na única delegacia que investiga crimes de ódio e intolerância na cidade de São Paulo, a Decradi (Delegacia de Repressão aos Crimes Raciais e Delitos de Intolerância). Quem sabe bem disso são a delegada Carolina (Mayana Neiva) e o chefe de operações Júlio (Antonio Saboia). Quem também trabalha com eles é o novato Teodoro (Marat Descartes), que precisará enfrentar preconceitos internalizados se quiser seguir no trabalho.

O mais recente caso que eles investigam aparentemente não tem nada de novo: o grupo de skinheads Falange Branca se envolveu novamente em uma confusão com os punks. Mas outras situações interligadas começam a surgir. Quem sai bastante ferido da briga é Dime (Michel Joelsas), o mais novo integrante da Falange, que provavelmente procurou se unir à gangue para suprir uma necessidade de atenção e pertencimento.

Na tentativa de proteger Dime e ao mesmo tempo conseguir provas para de fato processar os skinheads, Carolina sugere que Dime se torne um informante da polícia infiltrado na Falange. A organização não anda bem das pernas, pois vive um cisma, com um dos skinheads, Capitão, desejando tomar o poder que atualmente pertence a Jason (André Bankoff).

Isso no primeiro episódio. No segundo já somos apresentados ao caso do assassinato misterioso de Jaqueline Peçanha (Pathy Dejesus). A partir dali, os dois casos passam não apenas a ser investigados ao mesmo tempo, mas se entrelaçam – e a série finalmente começa a fluir.

A Decradi é uma delegacia verdadeira, por enquanto a única no Brasil com a função de investigar crimes de intolerância, e sua existência, na ficção e na realidade, é sempre ameaçada. O próprio chefe de Carolina, em mais de uma ocasião, fala em fechar a delegacia para cortar gastos, dá prazos pequenos para solucionar crimes e sempre lembra seus subalternos que não podem mexer com os figurões da cidade, que detém poder econômico ou político.

E a Decradi é mais do que necessária. Assim como também é necessária a representação da masculinidade tóxica cultivada e celebrada dentro da gangue Falange Branca. De figuras soturnas e ignoradas, os skinheads passam a ser vistos como pessoas com seus motivos para estar lá, que acreditam que aquele grupo é uma família, que “o ser humano está perdido” e que eles serão os responsáveis por trazer de volta a ordem e os bons costumes. Isso te lembra de alguém?

A história começa a engrenar de fato com o segundo episódio, e até no quinto e último da primeira temporada vão sendo introduzidos conflitos novos. Algumas situações são bem previsíveis, mas isso não atrapalha nem é uma ofensa à inteligência do espectador.

Susanna Lira, conhecida documentarista, é a mulher por trás de “Rotas do Ódio”. Há quatro anos ela vem desenvolvendo a série, e nesse meio tempo a intolerância só cresceu. Ela conta, entretanto, que muitos que acompanharam o desenvolvimento do roteiro acharam as situações inverossímeis, quando na realidade elas estão acontecendo ali, na nossa frente. É sabido que o pior cego é aquele que não quer ver, e parece que o brasileiro continua insistindo em sua cegueira social.

Rotas do Ódio

Mayana Neiva é o destaque como a delegada workaholic sem medo. No elenco também está a transexual Renata Peron, que na vida real foi atacada por um grupo de skinheads e perdeu um rim por conta deste ato de violência. Sua participação é pequena, e com certeza merece mais destaque.

Assim como “La Casa de Papel”, “Rotas do Ódio” acaba sua primeira parte sem conclusão. A série volta para a segunda parte – chamada de segunda temporada – em setembro. A terceira e a quarta temporada já foram confirmadas pelo canal Universal. Nada mais propício para o momento que estamos vivendo.

Janelle Monáe retorna com Dirty Computer; confira as primeiras músicas de seu novo disco!

Nas últimas semanas Janelle Monáe não perdeu tempo na divulgação seu álbum novo, Dirty Computer, que será lançado dia 27 de abril, e soltou quatro músicas , a última o clipe de “PYNK”, além dos singles “I Like That”, ‘Django Jane’ e ‘Make Me Feel’.

Pelo que Janelle mostrou até agora o disco segue uma sonoridade bastante atual, misturando hip hop com trap e pitadas de indie eletrônico. Um ‘pop’ inteligente e contemporâneo que segundo a própria cantora reflete o momento social e político dos Estados Unidos, com Forrest Gump ao avesso no cargo da presidência.

“Foram muitos os momentos em que eu queria parar de gravar e só estar brava e profundamente incomodada. Viver na América e sentir que as pessoas que eu amo estão sendo empurradas para as margens da sociedade pelo líder de um mundo livre e seu regime.”

Seguimos no aguardo de novas músicas Janelle!

Noite de Trevas: Uma historia real de Batman, ou melhor, a tragédia de Paul Dini

A Panini lançou recentemente Noite de Trevas: Uma historia real de Batman (Dark Night A True Batman Story), uma obra publicada em 2016 pela DC Comics sob o selo Vertigo, e que conta com boas críticas na imprensa dos EUA. Vamos analisar e responder se é para tanto? Aviso logo que sim.

A sinopse já mostra o que encontraremos: Batman vai ajudar um homem desencorajado a recuperar de um ataque brutal que o deixou incapaz de enfrentar o mundo. Nos anos 90, o premiado escritor Paul Dini estava no auge da sua carreira com a popular série Batman: The Animated Series. Uma noite, a caminho de casa, foi assaltado e fortemente espancado, ficando às portas da morte. A recuperação foi lenta e complicada, e Dini imaginou que o Batman sempre esteve ao seu lado, mesmos nos momentos mais difíceis.

Antes de começar esta análise, é bom lembrar que, apesar do título, Noite de Trevas não é uma história de Batman. É uma história autobiográfica de uma tortuosa e complicada fase da vida de Paul Dini, que conhecemos por seu trabalho pelas diferentes séries animada de Batman dos anos 1990, por escrever os games Batman Arkham Asylum e Arkham City, por ser o cocriador de Harley Quinn com Bruce Timm, e por quadrinhos como Amor Louco (premiada com o Eisner) , entre outras muitas obras. E se alguém procura uma história sobre o homem morcego guiado pela capa belíssima e o título, fique ciente que tem em mãos uma obra muito diferente em todos os sentidos.

Sobre o argumento, podemos dizer que a narrativa é uma meta-história, com um Paul Dini no presente apresentando sua infância de forma muito breve, e dando um salto para a época da Warner Bros Animation nos anos 1990, quando já era um roteirista conhecido por seu trabalho em Tiny Toons e na série animada do Batman, ganhando vários Emmy. Foi então que Paul recebeu uma tremenda surra na rua por dois caras que literalmente quebraram seu rosto em dois, tendo que passar por uma cirurgia reconstrutiva facial complexa. Um momento muito traumático para Dini e que vinte anos depois se atreveu a narrar, encorajado e apoiado por Kevin Smith e outros colegas através de um trabalho que não é nada mais e nada menos do que uma viagem para a psique mais profunda de um gênio que tinha tudo na vida: prestígio, reconhecimento, dinheiro e o trabalho que ele sempre sonhou, e ainda assim ele não poderia ser feliz.

Contava com a ajuda dos personagens mais populares do batverso como a Hera Venenosa, o Coringa, o Duas-Caras, o Espantalho, sua Harley Quinn, e, claro, o Batman, para analisar as complicadas situações pessoais pelas quais passava naquele estágio de sua vida. Um exemplo, Batman será a consciência tentando trazer de volta a vida e a autoestima de Paul, e o Coringa o oposto, tentando causar o caos. Tudo escrito de uma forma que não perca a personalidade do cenário, apesar da uma narrativa tão complexa.

Todos os fantasmas e demônios de Dini são abordados nesta história de momentos tão tristes e quanto cômicos. Essencial para conectar com seu drama pessoal, mas que inevitavelmente não ser para alguns leitores que esperavam uma história de super-heróis, por ser construída nessa forma. É uma narrativa muito agradável, fácil e simples (talvez exceto o epílogo, que possui certa complexidade, em referência a metalinguagem), a conexão emocional das 120 páginas desenvolvida é incrível.

A arte está integralmente feita pelo artista argentino Eduardo Risso, conhecido por seu trabalho em 100 balas, obra-prima do selo Vertigo, ao lado da grande Brian Azzarello.  Risso mais uma vez não decepciona, fazendo um trabalho brilhante, começando pela capa. Um dos aspectos mais notáveis ​​é o design dos personagens, e quando se trata de pessoas reais como Dini ou seus colegas de trabalho, com desenhos mais realista. Já quando os personagens da DC Comics aparecem, acompanhando Dini em sua vida complicada, os traços são mais caricaturais ou lembrando a série animada. O contraste desenvolvido se une a outros aspectos, como a cor extraordinária, que desempenha um papel importante na narrativa, diferenciando-se quando se trata dos quadros que tratam da infância, da narrativa presente, ou do corpus central da história, isto é, quando o ataque ocorre. Em suma, um trabalho impecável da parte de Risso.

Por fim, podemos classificar Noite de Trevas: Uma historia real de Batman como um dos bons lançamentos da Panini, ao trazer um fragmento da biografia de um artista brilhante, um gênio que tinha tudo e não era feliz. Uma história de superação, de queda e renascimento. Triste, engraçada, emotiva e bonita, tanto narrativa quanto esteticamente, graças a outro grande gênio como Eduardo Risso. Recomendo a leitura.

Livro “O abraço dos cegos” eterniza o instante do que se é contado

A poética pode ou deve ter um caráter de reflexão? O poema apenas exala imagens por ligação entre si? A curiosidade deve ser um pré-requisito de um texto memorialístico? Ou apenas guardar dados arquivados pela memória? O que é uma sugestão em um conto que o fim é aberto?

Há um deslocamento em um texto onde a vida pode ser sua passageira numa viagem sentimental. Na qual se revisite nuances de passagens da vida. Fatos biográficos mexidos pelo teor amarelado do futuro.

Viraram névoa da lembrança ou adquiriram novos contornos, sendo novos agentes do presente que se escreve. A crônica é passageira? No seu sentido de tempo? Se ela própria descreve o tempo dentro da roupa que tem o corpo do que é narrado. Ou seria ela a própria uma metanarração? Falar do seu próprio feitio de tornar afetivos discursos  da memória, do batimento do instante que cabe em si e na eternidade. Sei que o bom texto de crônica cabe num copo mais ou menos cheio. E que ao bom bebedor não sabemos o que toma, já que chegamos atrasados ao encontro. Só sabemos do depois, quando sentamos à mesa e vemos ele nos contar com olhos calmos, um determinado causo ou toada que dá uma bela montaria.

O livro de textos de crônicas de Chico Lopes, O abraço do cegos, editado pela editora Penalux, carrega este chegar na hora do copo já usado. O leitor não sabe o teor do líquido até se interessar pela prosa do narrador-bebedor. Há uma parte submersa que é talvez o início do texto, um certo liame sentimental pelo qual o poeta começa a deslindar. Chico inicia com algum tema, um filme como Cinema Paradiso, ou um verso de um poeta admirado. A coisa transcorre calma, sem sobressaltos. Há um fio constitutivo que parece que liga a conversa a trilhos durante o percurso do papo ou do texto.

Não há que ter premissas muito reflexivas, já que o tom da conversa não pode ter hiatos  (não há que parar para pensar sobre o que outro diz) – fica chato. A bebida está sendo tomada aos poucos, aos goles como se diz, com um sorriso entre os lábios. Chico sabe com dosar uma prosa, seu tom é narrativo com pedaços de poética metidos no meio do conteúdo. O tema aparece pelo meio num leve adendo assim como uma anedota pode surgir de uma conversa meio séria. Ele passa pela cidade Novo Horizonte; revê casas por onde cresceu, encontros com amigos que não via há tempos.

Passar pelos temas talvez não seja tão  passageiro. Há que se ficar pra eternizá-los pela fixidez da escrita. A crônica fixa de um jeito insolente? Ela não deixa vestígios de crime algum, ou deixa? Como o copo que agora depois que termino esta resenha não há mais em que(m) contar. Ele está vazio. E dos assentos eu só vejo o etéreo/resiliente.

Entrevista com o escritor Gringo Carioca

Gringo Carioca é uma figura ambivalente, intermediária e transcultural da América do Norte ao Sul. Radica(liza)do na metrópole pre-pós-moderna do Rio de Janeiro, ex-capital do Brasil, é autor dos livros Manifestos e manifestações (Patuá, 2018) e Reflexos & reflexões (Oito e Meio, 2014). Tem poemas publicados nas antologias Voces del vino (Books&Smith, 2017), Escriptonita: pop/oesia, mitologia-remix e super-heróis de gibi (Patuá, 2016) e Novos talentos da literatura brasileira – Poesia, contos e crônicas (Confraria de Autores, 2014), e em revistas como Plástico Bolha, Mallarmargens, Subversa, Et Cetera e Otoliths. É também o alter-ego do americano nativo e brasileiro nato Marco Alexandre de Oliveira, Doutor em Literatura Comparada e Mestre em Línguas e Literaturas Neolatinas pela University of North Carolina (EUA), Bacharel em Ciência da Religião pela University of South Carolina (EUA). Confira a entrevista dada pelo escritor à Revista Ambrosia.

Ambrosia: Seus poemas tem um belo jogo de apropriação que acho que deve ter um pouco na lida da tradução de uma língua à outra. Como um exercício de deslocar-se pela linguagem e pelas palavras, também tentando bagunçá-las ou arrumá-las. Uma deslocação. Como é isso?

Gringo Carioca: Acho que a “apropriação” é um termo apropriado! De fato, gosto de me apropriar até mais do que criar ou inventar, propriamente dito. Eu seria um “bricoleur” nas concepções pós-estruturalistas de Derrida e de Deleuze e Guattari, que por sua vez apropriaram o termo do estruturalista Lévi-Strauss. Essa “bricolagem” também é procedimento vanguardista, desde as colagens cubistas às montagens dadaístas e surrealistas, modernistas que se apropriaram dos primitivos (vide a antropofagia) e que depois foram apropriados pelos chamados neo vanguardas ou pós-vanguardas. Como disse o antropólogo supracitado: somos todos canibais!

Quanto à tradução, que também pode ser uma forma de apropriação, por ser “gringo” eu naturalmente e de algum modo “traduzo” de uma língua ou cultura para outra. Como a língua portuguesa não é a minha língua nativa, sempre gerou um encanto ou fascínio pela materialidade da palavra, pela textura da linguagem. Depois aprendi com os concretistas e tropicalistas como jogar ou até brincar com as palavras. Mas a regra do jogo vem da minha experiência própria com a língua. Como diz o Caetano Veloso: “a língua é minha pátria/ Eu não tenho pátria: tenho mátria”.

A partir daí se chega a questão central da “deslocação” ou deslocamento, que no meu caso seria antes um modo de ser do que uma forma de escrever. Costumo dizer que o Gringo Carioca é uma figura ambivalente, intermediário e transcultural. Escrevo, portanto, desde um entre-lugar: entre línguas, entre culturas, entre linguagens. Este (entre)lugar é transformativo, transforma as formas e as fórmulas form(ul)adas. Onde há ordem haverá também desordem, e vice versa.

A: Acho que a política é um ato de mudança. E sua escrita também o é. Seu sentido do que você escreve nunca está parado. Você mexe com a língua de um jeito próximo  com que as vanguardas fizeram, dentro de seus movimentos. Como você estrutura tanto um poema ou um conto partindo desta noção de jogo com a linguagem?

Gringo:  Relação entre a política e a poética é problemática. Eu sempre procurava não misturar as duas por questões “estéticas”, mas recentemente mudei de opinião por causa de mudanças interiores e exteriores a mim. Ao me mudar definitivamente para o Rio de Janeiro, acabei tendo contato direto com movimentos culturais e de rua, que inspiram o engajamento individual e coletivo. Evidentemente, mudanças no cenário político brasileiro e mundial também demandaram alguma resposta poética, preferencialmente de revolta se não revolucionária.

De certo modo, as vanguardas foram bem revolucionárias, tanto na poética quanto na política, enquanto buscavam (con)fundir a arte e a vida. Sempre me identifiquei com esse ideal para o real, primeiramente com o zen budismo, que ensina a arte do viver, depois com as diversas vanguardas, que mostram que a arte pode ser ou se tornar uma forma de vida. E as vanguardas, por serem modernistas ou por serem modernos, se caracterizam pela mudança perpétua através da inovação, renovação, invenção etc. Por isso, os sucessivos movimentos acabam até ficando repetitivos, pois a mudança vira um constante!

No meu caso, cada poema ou texto é uma invenção, apesar da evidente repetição de certos procedimentos poéticos. Concordo com a formula de Kandinsky, de que a forma é a expressão (exterior) do conteúdo (interior), embora eu também diria o contrário, de que o conteúdo é a impressão da forma. Ao compor um poema, eu trabalho quase que obsessivamente na forma do conteúdo que surge através de alguma fonte de inspiração tão espiritual quanto material, que vem do além ou de dentro de mim. Os meus poemas assim viram jogos de palavras que são re(di)gidas por alguma determinada regra do jogo que parece a priori mas na verdade é quase sempre após o fato.

A: A arte visual também é muito presente nos seus livros. Há sempre uma veia visual tanto nos poemas mais concisos tanto nos poemas mais encorpados. Acho que também obedecem à tipo de corte cinematográfico como um plano de costura do cinema. Você gosta de cinema? E como você vê esta possível influência?

Gringo: Após ler poetas modernistas clássicos de língua inglesa como T.S. Eliot, Ezra Pound, Wallace Stevens, W. B. Yeats, William Carlos Williams e E. E. Cummings, e de língua portuguesa como Fernando Pessoa, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Carlos Drummond, Manuel Bandeira e Cecília Meireles, a grande descoberta para mim foi a poesia concreta de Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos e o neoconcretismo de Ferreira Gullar. Curiosamente, compus o meu primeiro poema “concreto” antes de ver/ler/ouvir dizer ou falar do concretismo, que virou a dominar boa parte dos meus estudos de pós-graduação.

Esse “corte cinematográfico” a qual você se refere deve se relacionar, portanto, com o conceito do ideograma utilizado tanto na poesia concreta quanto no cinema através da técnica de montagem, que por sua vez, na sua forma “intelectual” ou “dialética” desenvolvida por Eisenstein, se baseia no procedimento do haicai japonês, cuja estrutura corresponde ao modo de escrita da língua japonesa e chinesa: a ideografia.

O meu interesse pela escrita ou escritura visual, ou pela visualidade da escrita, me levou a estudar e pesquisar a relação complexa entre a palavra e imagem durante o modernismo, que é presente em escritores como Marcel Proust, James Joyce e Virgínia Woolf, e em pintores como Pablo Picasso, Georges Braque, Paul Klee e René Magritte, entre outros. Ao buscar os fundamentos de uma escrita ou linguagem visual e moderna, tive a revelação de que tanto a fotografia quanto a cinematografia constituíam formas ou modos de escrita também. Comecei a ver e ler essa escrita “gráfica” em fotógrafos como Man Ray e Robert Bresson e em cineastas como Sergei Eisenstein, Jean-Luc Godard e Glauber Rocha. Inclusive, diversos teóricos do cinema, como Eisenstein, Alexandre Astruc, André Bazin, Jean Mitry e Cristian Metz, pensam o cinema como uma forma ou um modo de escrita. Possivelmente fui influenciado por toda essa conjuntura de estudos, ou simplesmente porque cresci vendo filmes e videoclipes de música!

A: Você mexe com os ismos da nossa esfera cotidiana. Assuntos que são pautas tanto de uma mídia da TV ou jornal quanto pautas nas redes sociais. Como a poesia entra nestas pautas, depois de tanta polarização e debate sobre estes assuntos midiatizados? 

Gringo: Apesar da minha intelectualidade pretensiosa, valorizo o mundano e o cotidiano. O que vale a teoria sem a prática se todo ideal não é nada real? Penso que pensa-se pouco o mundano e o cotidiano, e os que o pensam, pensam de maneira parecida.

As mídias contemporâneas debatem vários pontos de vista de forma exclusiva embora agregadora. As redes sociais compartilham diversas perspectivas de modo inclusivo embora segregador. Por um lado, uma mídia hegemônica e homogeneizante. Por outro, uma mídia popular e tribalizante. Em ambos falta a crítica de si mesmo e o diálogo com o outro, e sobra o discurso superficial e parcial. Sem comentar que as grandes mídias são veículos imperialistas ou colonizadores do capitalismo atual. Qual é a diferença fundamental, afinal, entre a Globo e o Facebook?

A poesia deveria ou poderia ser um outro modo de pensar: uma forma de interpretar criticamente, de ver nitidamente, de refletir profundamente com ideias mas sem ideologias. A poesia “entra” para interagir com o mundo presente, se tornando um outro meio de comunicação ou expressão. O que está em pauta? A poética da vida, a poesia do dia-a-dia!

A: Fale-me um pouco de seu trabalho de tradutor. Como é sua prática?

Gringo: O meu trabalho como tradutor é paralelo à minha vocação de poeta. Comecei a me interessar pela tradução por causa da teoria e prática da transcriação dos irmãos Campos, e depois conheci o poeta e tradutor Rodrigo Garcia Lopes, que me fez ver a importância da tradução para a formação de um poeta.

Logo saíram as minhas primeiras tentativas amadoras de traduzir alguns poetas prediletos da literatura brasileira, como António Cícero, Arnaldo Antunes, Augusto de Campos, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Décio Pignatari, Ferreira Gullar, Haroldo de Campos, José Lino Grünewald, Oswald de Andrade, Paulo Leminski e o próprio Rodrigo Garcia Lopes. Depois comecei a publicar algumas dessas traduções, agora revisadas e aprimoradas, além de tentar novos desafios como poemas “maquinais” de Alexandre Guarnieri e obras seletas de Carlos Nejar. Também acabo de publicar traduções de poetas norte-americanos como Allen Ginsberg, Langston Hughes e William Carlos Williams, além de latino-americanos como o mexicano Octavio Paz e a dominicana María Palitachi.

Durante esse processo, aprendi e entendi que a tradução pode ser uma forma de reescrever ou até recriar o poema em outra língua ou linguagem. Assim, ao traduzir um poema como “traduzir-se”, de Ferreira Gullar, eu me sinto como se eu estivesse me transformando no poeta ou autor do poema. É como se eu incorporasse o chamado “eu lírico”, a voz da poesia em questão. No caso da prosa, já comparei esse processo à mediunidade: é como “baixar o santo”, que é o narrador. E como na antropofagia, a cada vez que traduzo um poema eu incorporo as suas qualidades, domino a sua técnica, me aproprio da sua linguagem. Eis a minha teoria e prática da tradução.

Radiohead abre tour 2018 no Chile, confira o show completo e setlist

No pré-aquecimento para os shows do Radiohead no Brasil publicamos recentemente uma playlist de grandes momentos do Thom Yorke, mas entre três décadas de produção musical muita coisa mudou (para melhor) pois há muito o Radiohead transcendeu as barreiras do rock e de gêneros musicais, como incansávelmente Miles Davis percorreu por toda sua vida.

Assim vamos ao que interessa, Radiohead 2018 tour já pode ser conferido em vídeo após o primeiro show desta turnê que começou esta semana em Santiago, no Chile. Quem assistiu considera a apresentação monumental, com o grupo revisitando as músicas ‘clássicas’ de maneira completamente diferente. A sonoridade de ‘A Moon Shaped Pool’ se faz presente em toda performance, mostrando que mais que tocar seus hits a preocupação estética do Radiohead é manter-se atualizado – quando não ditando tendências.

Setlist

Daydreaming (com “Treefingers” como introdução)
Ful Stop
Airbag
Myxomatosis
Where I End and You Begin
All I Need
Pyramid Song
Everything in Its Right Place
Let Down
Street Spirit (Fade Out)
Bloom
Identikit
Weird Fishes/Arpeggi
The Numbers
2 + 2 = 5
Bodysnatchers
Idioteque
Fake Plastic Trees
The Bends
Feral
Lotus Flower
Exit Music (for a Film)
Reckoner
Nude
Paranoid Android
Karma Police

Além do show completo do Radiohead, abaixo alguns dos muitos vídeos que estão no Youtube no momento.

Soundhearts Festival

Quem é do Rio vale lembrar que o Soundhearts Festival, com Radiohead, foi transferido para a Jeunesse Arena, no mesmo complexo do Parque Olímpico (Av. Embaixador Abelardo Bueno, 3401 – Barra da Tijuca). A data do show continua 20 de abril (sexta-feira) e quem tem ingresso não precisa se preocupar em trocar, basta apresentar o ingresso já comprado no acesso ao evento.

O tiro pela culatra que é “O Mecanismo” dentro do que representa

No último episódio da controversa série O Mecanismo (case de marketing interessante para os dividendos da Netflix), enquanto vemos uma imagem plainando pelas locações da Justiça heroicizada, um off do protagonista Marco Ruffo (interpretação frágil e de aparente desconforto de Selton Mello) diz: “… mas no Brasil, a definição de justiça no dicionário não inclui as palavras equilíbrio e imparcialidade”. A frase e seu contexto são sintomáticas para o que a série representa nessa guerra ideológica que virou o cenário político nacional.

O diretor José Padilha, conhecido por fazer de seus trabalhos comentários sociais polêmicos e ruidosos, fez uma série de discurso claramente panfletário ao que acredita. Só que os meandros da Lava-Jato não se explicam por lateralidade ideológica. E aí que o diretor e sua série perdem a oportunidade de aprofundar uma questão muito menos simplória do que faz parecer.

Artisticamente, a série demonstra a costumeira competência técnica de Padilha, sobretudo na montagem e na fotografia sempre muito cuidadosas, assim como a trilha sonora buscando a urgência de um típico thriller político. Entretanto, a narrativa em primeira pessoa (marca do diretor) ajuda a borrar a linha tênue entre anseio artístico e político de Padilha. É aí que tudo desanda, para além de lados políticos. O roteiro comete o erro imperdoável de tratar a questão como uma balança de mocinhos e bandidos, inclusive com a caricatura que isso significa. O delegado é o herói incontestável. O doleiro é o vilão de HQ. O juiz é vaidoso, mas imprescindível. E por aí vai. Para piorar, os diálogos são pretensiosos, com frases de efeito pedestres e reiterações políticas.

Mas o pior é mesmo usar personagens baseados na fauna política vigente, mas invertendo diálogos – atribuir a Lula a fala de Romero Jucá, justamente a fala sobre “o grande acordo nacional para estancar a sangria” é desonesto e arranha a credibilidade do diretor e de sua obra. Padilha não precisava disso e desperdiçou a oportunidade de usar a potente máquina chamada Netflix para relativizar o sistema que tanto citou em suas “Tropas de Elite”, e não fazer parte dela.

Muito se falou em boicote e cancelamento de assinaturas. Não é para tanto. Se para quem defende essa contrapartida é preciso lucidez, para Zé Padilha falta responsabilidade. Por isso aquela frase lá do último episódio é tão cínica quanto o próprio título da série. É O Mecanismo fazendo parte do próprio mecanismo que aparentemente parece criticar. A complexidade do que está acontecendo hoje no Brasil prescinde de lados, e só quem compreende e faz uma reflexão aguda sobre isso consegue ter o distanciamento necessário para analisar a nação para além do que gravita o próprio umbigo.

“Rampage” diverte, mas é esquecível

Filme advindo de um jogo de arcade dos anos 80, “Rampage: Destruição Total” traz a história do gorila George (Jason Liles em captura de movimento), habitante de um Santuário em San Diego que possui uma forte vínculo com o primatólogo Davies Okoye (Dwayne The Rock Johnson), que prefere a companhia dos animais à dos humanos.  A vida de George muda quando caem três pedaços de um experimento genético, criado pela companhia Energye. Essa experiência modifica estruturalmente o animal, tornando-o maior e mais agressivo. Além dele são modificados um lobo e um crocodilo, criando duas grandes ameaças.

Por se basear em um game no qual o background da história é exíguo (em que o jogador assume a persona de um gorila que sai destruindo prédios prédios), a liberdade para o diretor Brad Payton criar o universo que ele quisesse era grande. Mas apostou numa história mais simples e que fosse divertida para toda a família. Ele se aproveita do enorme carisma de The Rock para desenvolver sua narrativa (se fosse outro ator, dificilmente alguém compraria essa amizade entre os personagens). O diretor e o ator dão continuidade à parceria que vem desde “Viagem 2: A Ilha Misteriosa”. Haviam feito recentemente “Terremoto: A Falha de San Andreas”. Existe até uma pequena brincadeira entre esse filme anterior e o atual. No primeiro, The Rock era piloto de helicóptero, e nesse, quando seu personagem rouba um, ele diz que está “reacostumando com os comandos”. Diretor e astro parecem se entender bem um com o outro e funcionam trabalhando juntos.

As criaturas em CGI são bem feitas, apesar de George se tornar apenas maior enquanto os outros animais ganham formas bizarras e mais perigosas. E a sequência final é bem executada, mas fica a impressão que falta pouco para The Rock se tornar algum membro do clã dos Ultra gigante e começar a combater os monstrengos.

O resto do elenco acaba sendo mal utilizado, o personagem de Joe Manganiello pouco aparece (e sente-se falta de um embate físico dele com The Rock). Claire (Malin Âkerman) e a Dra Kate (Naomie Harris) são personagens rasas e fracas. O único que se destaca é Harvey Russell, vivido por Jeffrey Dean Morgan (o Negan de “The Walking Dead”), cujo arco sofre uma virada até interessante.

“Rampage: Destruição Total” ainda não é o filme que vai mudar a história das adaptações de games para o cinema. Contudo não chega a ser uma grande bomba. É apenas um entretenimento capaz de segurar o espectador na cadeira, tornando-se esquecível logo após sua exibição.

Filme: Rampage: Destruição Total (Rampage)
Direção: Brad Peyton
Elenco: Dwayne Johnson, Naomi Harris, Malin Âkerman
Gênero: Ação, Aventura
País: EUA
Ano de produção: 2018
Distribuidora: Warner Bros
Duração: 1h 47min
Classificação: 12 anos

Protesto dá o tom do Festivália

O quinto dia da Rio 2C teve como atração principal o Festivália. No último sábado (07/04), A feira de negócios do audiovisual abriu suas portas ao público e, além de painéis, game zone e concorridíssimas estações de realidade virtual, a música tomou conta da Cidade das Artes. O Festivália é uma amostra de diversos festivais do Brasil, representados por algumas atrações desses. Nesse dia, o ex-presidente Lula foi preso, e não faltou protesto no palco.

Chamou atenção a nova cena pernambucana. Vindos do festival de Garanhuns, diversos artistas mostraram o que há de melhor na atual produção musical do estado nordestino. Dentre os artistas, chamou bastante atenção Almério, cantor e ator radicado em Caruaru que veio embalado pela ótima repercussão de seu segundo álbum, “Desempena”. Já passou por palcos como o do Rock In Rio 2017, no qual se apresentou ao lado de Johnny Hooker e Liniker. Ele já tinha feito um pocket show no encerramento da primeira etapa do evento (os negócios propriamente ditos) na sexta-feira. E no sábado mais uma vez empolgou a plateia com sua performance magnética, sobretudo com a faixa ‘Queria Ter Pra Te dar’.

Amaro Freitas também cativou os presentes, assim como a hipnótica performance de Aninha Martins. Também participaram do coletivo Isaar, Isadora Melo, Flaira Ferro e Martins. No final, todos juntos no palco fizeram um cover de ‘Sol e Chuva’, de Alceu Valença. O encerramento se deu com cartazes onde se lia “Lula Livre” e “Marielle Presente”.

Em seguida, foi a vez da apresentação de Francisco, el Hombre, representando o festival Psicodália. A banda formada  pelos irmãos mexicanos naturalizados brasileiros Sebastián e Mateo Piracés-Ugarte (com outros três brasileiros de nascença) entregou o mesmo show empolgante visto no Lollapalooza no final de março. E brindou o público com sua alquimia sonora que mistura música brasileira com ritmos latinos e indie rock e letras de assertiva crítica social. A faixa ‘Calor da Rua’ abriu os trabalhos, seguida de ‘Bolso Nada’ e ‘Tá Com Dólar, Tá Com Deus’. Ao chamar as pessoas que trabalham no evento para mais próximo ao palco e convocar a abertura de uma roda, inseriram um snipet de ‘Meu Sangue Ferve Por Você’.

‘Triste Louca e Má’ foi dedicada às mulheres em especial a Marielle Franco. A latinidade de ‘Como Una Flor’ manteve o clima quente da apresentação, ainda mais quando Mateo pediu para que o público agachasse para, a seu comando, emergir, surtindo o “efeito pipoca”. E funcionou. Depois da epifania, pausa para reflexão. O telão mostrou a frase “Há casos em que a sentença já está escrita antes do crime”. Sebastián fez um discurso de indignação com a prisão de Lula e dedicou à resistência do Rio uma reprise de ‘Calor da Rua’. Parecia o fim do show, mas, sob pedidos de bis, a banda voltou com seu novo single, ‘Loucura’.

Emicida fechou a noite e não podia deixar o protesto de lado. O rapper paulistano que se apresentou no festival Samba Rap em janeiro, voltou representando o Mimo com seu último show da turnê do álbum  “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa”. Abriu com ‘Boa Esperança’ e prosseguiu com ‘Bang’ e ‘Gueto’. Engrossando o coro dos artistas que passaram anteriormente pelo palco da Cidade das Artes, ele definiu aquele como um dia curioso na História do Brasil. “O que aconteceu hoje significa muitas coisas. Uma delas é que vai ser difícil para caralho calar nóis.” Também lembrou de quando ouvia piadas de cunho racista no ateliê em que trabalhava. “A gente ouvia piada racista o tempo inteiro mas tinha que fingir que não era com nóis porque precisava do dinheiro.”

Emicida também fez a conexão da eleição de Lula a um fato do passado. “A primeira vez que houve possibilidade real de Lula ser presidente, meu patrão chegou dando risada da Dona Marisa falando que ela ia ter o maior trampo limpando as janelas do Planalto. Minha mãe trampava de limpar janelas. Eu nunca vou estar do lado de quem ri de quem limpa janela.” E foi efusivamente aplaudido. O repertório foi basicamente o mesmo do Circo Voador e teve como novidade ‘Pantera Negra’, música inspirada no herói da Marvel. As obrigatórias ‘Hoje Cedo’, ‘Baiana’ e ‘Passarinhos’ estavam lá.

“Com Amor, Simon”: uma “Sessão da Tarde” bem necessária…

Arrisco dizer que Com Amor, Simon é um dos filmes mais importantes para a disseminação das ações afirmativas através do cinema. Ações afirmativas essas que nada mais são do que a normalização social de toda e qualquer forma de relação amorosa, independendo do sexo, raça ou credo. Assim, é de se festejar que uma major como a Fox invista numa comédia romântica para o grande público com temática gay adolescente.

É a primeira vez que um grande estúdio hollywoodiano promove um filme assim nesses termos. Antes, a temática se restringia aos democráticos nichos de longas oscarizáveis. Dito isso, Com Amor, Simon é uma legítima comédia romântica “high school” norte-americana. Baseado no romance da psicóloga Becky AlbertalliSimon vs A Agenda Homo Sapiens”, a trama acompanha o protagonista de 17 anos, enfrentando o despertar da sua homossexualidade diante de sua família e de toda a sua escola.

Simon Spier (Nick Robinson, carismático e sensível) leva uma vida totalmente normal. Porém, esconde o segredo de sua sexualidade. Ninguém sabe sobre isso. Até que começa a trocar mensagens com uma pessoa que se identifica como Blue e que também é gay. Não se sabe muito bem que é, apenas supõe-se que estuda na mesma escola. Cria-se assim, uma relação de confiança e descoberta entre os dois, mesmo sem nunca terem se visto. Entretanto, é dessa sintonia que emerge todos os aparentemente problemas de Simon.

O conflito interno é bem trabalhado pelo roteiro e ilustrado pela direção esperta e correta de Greg Berlanti (mas conhecido pelo trabalho em séries teens). Há sim uma certa leveza na abordagem, mas é coerente com universo do livro, que busca uma bem vinda descentralização da maneira como protagoniza a orientação sexual de seu protagonista. O filme fala sobre outras facetas, como a juventude em suas contradições, pressões e relacionamentos, indo muito além de ser apenas (mais) uma historinha gay.

Tudo é complementar. A vida pessoal e social de Simon. Até a reverberação na família acompanha esse caminho (a mãe de Simon – Jennifer Garner, que faz falta no cinema – é psicóloga, assim como a autora do livro, o que explica a maneira assertiva como a família encara o filho). Então não é apenas a leveza da abordagem, mas também a leveza da questão em si. Por isso o filme é tão fluído e despretensioso. A relação epistolar que Simon mantém com Blue, um admirador secreto vai desabrochando sua identidade, a delicadeza do filme e nossa simpatia. Como o próprio filme defende, “todo mundo merece uma grande história de amor”, Com Amor, Simon, reitera o quão simples é a propriedade disso.

Filme: Com Amor, Simon (Love, Simon)
Direção: Greg Berlanti
Elenco: Nick Robinson, Jennifer Garner, Josh Duhamel
Gênero: Drama, Comédia
País: EUA
Ano de produção: 2018
Distribuidora: Fox Film do Brasil
Duração: 1h 49min
Classificação: 12 anos

Ouça sem demora: Sex & Food, de Unknown Mortal Orchestra

Unknown Mortal Orchestra é daqueles projetos musicais que você conhece para nunca mais esquecer. A banda neozelandesa comandada por Ruban Nielson lançou recentemente seu quarto album, que intitulado “Sex & Food” é verdadeiramente um ataque–epilético–disco–funk, trazendo uma evolução sonora consistente com os discos anteriores e que não surpreende somente pelas qualidades artisticas de Nielson, já mais do que indiscutíveis.

Sex & Food é um disco bacana, daqueles que você pode escutar tanto que até o que no começo é esquisito começa a soar fascinante com o tempo, uma prova que Ruban Nielson não brincou quando em 2010 anunciou que estava buscando uma nova dimensão musical com Unknown Mortal Orchestra.

Ouça sem demora Sex & Food.

Oscar Oiwa cria imersão em 360 graus com desenho que levou 120 canetas hidrográficas

O artista Oscar Oiwa criou um cenário ilustrado imersivo que todos espaço a volta com desenhos em preto e branco, utilizando para a tarefa nada menos que 120 canetas hidrográficas e cinco assistentes. O resultado pode ser visto dentro de balão de vinil inflável, onde o artista convida o público a visitar sua obra intitulada ‘Oscar Oiwa in Paradise – Drawing the Ephemeral’.

Agora você pensa “que pena mais um puta trabalho que perco pois deve estar exposto no hemisfério norte”, não é verdade? Não desta vez, a JAPAN HOUSE São Paulo trouxe o trabalho para a capital cultural do nosso país até dia 3 de junho de 2018.

Imperdível, mesmo!

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