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Quatro perguntas para o escritor Ramon Ramos

Ramon Ramos é graduado em Letras/Literatura pela UFRJ e mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Ministra aulas de Literatura. A vulnerabilidade como procedimento é seu terceiro livro. Fizemos quatro perguntas ao escritor, confira a conversa abaixo:

1-) Teu livro para mim funciona como uma atenta escuta do outro. E nessa escuta entra a possibilidade dos gêneros (não só textuais) serem utilizados como ensaio, a poética, a ficção e a memória.  Como chegaste a esta construção híbrida deste texto?

Que outro?

Aquela frase do Oiticica — “a pureza é um mito” desmonta a ideia de originalidade que alguns ainda tentam (em vão) imprimir em suas obras. Então, penso que o texto precisa se permitir contaminar pelo que dele se alimenta e porventura deixar no leitor o rastro desse contágio — isso gera essa mistura de sensações (físicas, sonoras, visuais) provocadas pela palavra.

O que me interessa é a palavra, não penso em termos de gênero. Sei que caminho pelo campo da prosa de ficção, ainda que por vezes haja um olhar de leitor obsessivo (do narrador) para outras obras literárias, principalmente — e isso carrega algum viés ensaístico talvez. Já poética é uma linguagem que sugere e não apregoa — e isso me interessa. É só isso que me interessa. Não me interessa contar histórias. Numa entrevista, Clarice diz que não lê mais ficção, pois não mais se interessava pelos fatos. A ela só interessava a repercussão dos fatos no indivíduo. É isso.

2-) Há diversas referências a pessoas, artistas, e citações a obras consumidas por você como leitor. É como se você funcionasse como produtor, mas com meio também. Lembrei do filme do Peter Greneeway, “O livro de cabeceira” em que a personagem usa o próprio corpo como página, para a escrita, ela ao mesmo tempo produtora e recepção da sua produção textual. Como é isso?

Citar é minha forma de estar sozinho. É meu procedimento de escrita. O estímulo da escrita é sempre a leitura, é de onde as sensações surgem. Aí se escreve com o rescaldo dessas sensações, como um molho culinário que se deixa reduzir para ganhar em sabor. Ter como personagem um narrador/escritor em primeira pessoa não é nenhuma novidade ou ousadia. A ideia d’A vulnerabilidade como procedimento é utilizar esse personagem-escritor agindo não como se fosse fruto daquilo que leu, mas um homem que vive a leitura como vive os dias. O narrador usa referências e citações diretas como se tirasse conclusões, como se pensasse em voz alta a partir daquilo que acabou de ler. O que continua não sendo nenhuma novidade ou ousadia.

3-) Há uma poesis do sensível palmilhando cada centímetro  da  sua ficção, onde a questão do ser vulnerável é muito bem matizada, por você, num texto muito envolvente. Como é focar o masculino numa linha tão contrária ao que o “modelo” conservador ou estereótipo pede? Uma sensibilidade que leve ao “não ser”, à morte? Fale um pouco disso. 

Eu apenas escrevo sem pensar em termos de masculinidade do corpo masculino. Penso no corpo. Por enquanto ele existe. E sangra e dói.

4-)  Na segunda parte você permeia seu personagem numa relação familiar num contexto social mais amplo pegando uma relação imagética com as abelhas , com um contexto social coletivizado. Ali parece que a memória não sufoca o personagem ou o faz apenas se ressignificar…

O fato de serem blocos mnemônicos ilude o leitor a pensar que há gente ao redor deste homem. Não há. Ele continua sozinho. A expressão de um viés coletivo, sugerida pelo título do segundo conto — “Enxame” —, se sustenta apenas como sugestão de um passado meio melancólico, meio adocicado. Apesar de a escrita ser mais calma do que a premência vista no conto anterior — “Latejos” —, a sensação de sufoco e isolamento me parece maior, visto que o narrador agora vive sozinho criando abelhas numa cidade rural.

Talvez a cadência da linguagem sugira essa ressignificação, mas eu vejo a continuidade da angústia e da solidão neste homem de 30 anos, ora urbano ora rural. Não à toa os desfechos são espelhados. Não à toa não fica felicidade alguma. A ideia da distância entre o fato e a memória poderia sugerir uma diminuição da dor. Eu discordo disso, não se trata de aumentar ou reduzir. A distância modifica a dor. A pulsão de morte é mais presente no segundo conto por isso, trata-se de uma dor pensada, uma dor prensada. Daí a ideia do coágulo num livro que é todo cheio de sangue. Todo mundo sabe o que um coágulo faz.

Com “Jogador Nº 1” Spielberg se apoia na nostalgia para recuperar status de Midas

A estreia de “Jogador Nº 1” é uma das mais aguardadas do ano e não é para menos. É o retorno de Steven Spielberg à seara que o consagrou como cineasta. A dos filmes escapistas, do cinema das sensações que ele sedimentou junto com George Lucas. Essas produções redefiniram o que se entende por cultura pop até os dias de hoje, tanto é que ganham referência em um sem número de produções (“Stranger Things” é o melhor exemplo atual). “Ready Player One” (no original) é a adaptação do livro homônimo escrito por Ernest Cline, que virou coqueluche no mundo geek justamente por evocar a atmosfera dos filmes de Spielberg dos velhos tempos.

O cenário é um distópico ano 2045. Assim como quase toda a população da Terra, o jovem Wade Watts (Tye Sheridan) realmente se sente vivo é quando ele escapa para o OASIS, um universo virtual imersivo onde a maioria da humanidade passa seus dias. No OASIS, você pode ir a qualquer lugar, fazer qualquer coisa, ser alguém – os únicos limites são sua própria imaginação. O OASIS foi criado pelo brilhante e excêntrico James Halliday (Mark Rylance), que deixou sua imensa fortuna e controle total do Oasis para o vencedor de um concurso que ele projetou a fim de encontrar um herdeiro digno. Wade entra nessa caça que o leva a descobertas e perigos para salvar o OASIS.

Por mais que Spielberg tenha tido grande reconhecimento por produções sérias como “Ponte dos Espiões” e “The Post”, o que todo mundo quer mesmo ver é sua faceta menino sonhador. Depois de “Jurassic Park: Parque dos Dinossauros”, seus filmes de puro entretenimento tinham resultado irregular e nenhum foi de fato memorável.  O anúncio de que o cineasta estaria à frente da versão cinematográfica do best seller de Cline gerou ansiedade pois essa seria uma plataforma segura para que ele recuperasse seu status de Midas do cinemão. E ele mostra que, apesar de ser um Peter Pan que saiu da Terra do Nunca (mais ou menos como no malfadado “Hook: A Volta do Capitão Gancho”), ele não desaprendeu a arte de nos levar para um outro mundo ao apagar das luzes da sala de exibição.

Com um pouquinho de ferrugem, é verdade. Até pelo fato de a matriz literária não fornecer estofo suficiente para proporcionar um novo “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”, ou um “Jurassic Park”, apesar de ter sido escrita de olho em uma adaptação. O filme é lotado de referências pop, em sua maioria dos anos 80 (é bom adiantar que não é possível captar todas assistindo uma vez só) e Spielberg claramente se diverte com elas. A bem da verdade, a maior graça do filme é coletá-las.

A questão é que, assim como na obra original, essa verdadeira pândega nostálgica é usada em “Jogador Nº 1” como força motriz para impulsionar uma história sem nenhuma surpresa ou impacto. Apartando esse recurso tão irresistível e certeiro, o que fica é uma produção correta, capitaneada por um Spielberg eficiente, mas com apenas alguns lampejos da magia de outrora. O clima é mantido pela trilha sonora de Alan Silvestri, uma espécie de prima-irmã da que compôs para “De Volta para o Futuro” (que ganha inserções).

A transposição do material feita pelo próprio Cline junto com Zak Penn (roteirista de “X-Men 2” e “Os Vingadores”) é bem sucedida em enxugar alguns pontos (embora alguns aspectos do Oasis pudessem ser ao menos pincelados na contextualização). Porém, falha em minimizar alguns aspectos da personalidade do protagonista fundamentais na geração de empatia. Mas Tye Sheridan se esforça em interpretá-lo com simpatia e no tom certo. E Mark Rylance segue em sua parceria com Spielberg. É o terceiro trabalho juntos em três anos. Sua composição do personagem, criador da Oasis, é claramente um amálgama de Steve Jobs com Mark Zuckerberg.

Pode-se dizer que a visita de Spielberg à Terra do Nunca foi proveitosa. Ele já não voa como antigamente, mas mostrou que tem pó de pirlimpimpim suficiente, inclusive para outras que possa vir a fazer no futuro. É nisso que reside o trunfo de “Jogador Nº 1”: na aposta no entretenimento genuíno trazida por quem melhor entende do assunto.

Filme: Jogador Nº 1
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendelsohn
Gênero: Ação/Aventura/Ficção Científica
País: EUA
Ano de produção: 2018
Distribuidora: Warner Bros
Duração: 2h 20 min
Classificação: 12 anos

Entrevista com o escritor Marco Martire

Marco Antonio Martire é carioca, graduado em Comunicação pela UFRJ e pós-graduado em Língua Portuguesa pela UCAM. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar” (premiados em 1999 pela Fundação de Cultura Cidade do Recife), a novela “Cara preta no mato” (ebook), e participou das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III”, “Escritor Profissional – volume 1” e “Clube da Leitura – volume 4”. É membro do coletivo Clube da Leitura.  Escreve para a RUBEM (www.rubem.wordpress.com) quinzenalmente às quartas-feiras. “O gato na árvore” é seu primeiro livro de crônicas. O escritor bateu um papo com a Revista Ambrosia. Confira abaixo.
Ambrosia: Como foi o processo de fazer o livro? As crônicas já tinham sido escritas para a RUBEM e houve só um trabalho de compilar?

Marco Martire: Todas as crônicas do livro foram publicadas originalmente na revista eletrônica RUBEM, entre 2014 e 2017. De início, a ideia era fazer uma seleção dos primeiros três anos (2014/15/16), como uma espécie de celebração, uma edição comemorativa da efeméride. Minha estreia foi em janeiro de 2014. Desde então publico quinzenalmente e sem falta. Somei depois de três anos 72 crônicas publicadas, um número que justificava uma compilação e o livro. O projeto foi apresentado assim para a Editora Moinhos, quando ela abriu chamada para recebimento de originais em 2017.

Uma vez aceito o projeto, selecionei as crônicas que mais gostava e enviei. Começamos a trabalhar, formou-se então a parceria, algumas crônicas foram preteridas, outras, já de 2017, foram acrescentadas, chegando ao total de 48 crônicas neste “O gato na árvore”. Posso dizer que o trabalho transcorreu de forma muito gostosa, uma relação autor-editora bem gratificante, apesar da distância. A Editora Moinhos fica em Belo Horizonte, nossa comunicação foi realizada quase inteiramente por email.

A: Sua linguagem é ao mesmo tempo coloquial e poética. Qual tom você acha mais adequando à crônica? E por quê?

Marco: A crônica costuma exibir essa identidade de conciliar várias características que aparentemente de outra maneira não se mesclariam. Ficaria uma coisa meio água e meio azeite, cada porção na sua parte do recipiente transparente. Felizmente, a crônica consegue uma boa mistura, uma qualidade que eu considero contribuição valiosa para o mundo atual. Basta caminhar pela cidade e conferir o trabalho cotidiano dos cronistas, a sua abordagem ideal, que não é exclusividade minha, todo cronista tem um pé no coloquialismo e um pé na poesia. Uns são mais coloquiais, outros mais poéticos. Por isso também que a crônica vingou na rede, resgatando um formato consagrado que a mídia impressa descartou por completo. Acho que o gênero crônica está em terreno fértil na internet. Não considero que haja um tom adequado, mas a crônica tem um compromisso verdadeiro com a leveza, com o humor e a poesia. É só ler os autores que se dedicaram e se dedicam ao gênero para perceber, não tem como errar.

A: O cronista necessariamente precisa falar sobre temas que não estão dentro do seu núcleo? No caso do seu livro, como foi?  O gênero é um universo que se olha no entorno, fora da sua intimidade?

Marco: Em teoria, o cronista fala do que está mais próximo, do universo que melhor compreende e com o qual se sente mais à vontade. Mas, na prática, preciso dizer: a crônica é um gênero que se deve praticar com constância, o que muito a define é a periodicidade. É através da periodicidade do texto que se cria a ligação fundamental do cronista com a cidade e com o leitor. Não tem de ser semanal, ou quinzenal, ou mensal. Mas alguma periodicidade tem de ter.

A partir do momento em que autor e leitor geram essa periodicidade, certamente em função de uma disciplina que o cronista estabelece consigo, surge a questão do entorno e do núcleo, porque os temas vão surgindo, o cotidiano da cidade vai se impondo como assunto, a sociedade e o corriqueiro, de acordo com o caráter e o talento do escritor, é claro. Não se pode pedir que o autor do olhar sobre as coisas miúdas fale sobre monumentais viagens espaciais. Mas talvez esse mesmo autor consiga imaginar uma vida original e miúda em Marte, quem sabe?

Algo que parte da percepção e da sensibilidade, como sempre. Creio que o cronista não foge disso, sua imaginação é que escapa. Até mais que da própria intimidade. A intimidade do cronista costuma ser reprovável, feita de atos, hesitações e emoções, como a intimidade de um cidadão qualquer entre nós, que se diz talvez feliz.

A: Você fala sobre muitos temas no seu livro. Como você se apropriar deles? Como é esse recorte de falar sobre alguma coisa? É necessário profundidade para falar sobre um tema?

Marco: O tema do cronista varia conforme seu interesse. Cada cronista fala do que prefere, e ao longo do tempo essa relação vai ficando mais clara, até se tornar um fazer que o leitor compreende como um recorte da realidade. Mas há um outro registro: refiro-me principalmente ao aspecto emocional da crônica, que determina em grande parte e no fundo esse recorte. Não é tanto sobre apropriação, porque a crônica não busca esse recorte através do olhar objetivo, tentando estabelecer uma verdade, ou mesmo uma versão, isso seria aproximá-la do jornalismo ou do artigo de opinião, que prevalecem hoje. O cronista se salva dessa posição de pretensa neutralidade jornalística através do que lhe é subjetivo, esta é a sua profundidade. Trata-se de uma posição radical, eu penso. Mas não tem como ser diferente, a subjetividade é a companheira do cronista. Sem ela, o cronista não faz crônica, corre o sério risco de dizer a verdade, cria artigo. Nada contra o artigo, mas o assunto aqui é a crônica.

A: Fale-me um pouco de como está sendo a divulgação do livro e já tem data marcada para o lançamento.

Marco: O lançamento será no dia 05 de abril, uma quinta-feira, na Livraria da Travessa de Botafogo, a partir das 19 horas. O trabalho de divulgação é conjunto: trabalhamos nisso eu, a Editora Moinhos e a Oasys Cultural. É claro que sou a parte fraca, café com leite, eu mais aprendo do que outra coisa, porém procuro colaborar na forma do autor que apresenta seu trabalho à comunidade da melhor maneira possível. Quero fazer o que puder e for necessário para divulgar esse meu trabalho, e a Oasys Cultural tem me ajudado muito, em várias frentes, desde o uso correto das redes sociais, até assessoria de imprensa e orientação do planejamento. Tem sido um grande aprendizado.

“O Mecanismo” se quebra por abordar polêmica com fragilidade narrativa

Tentando se fortalecer com produções nacionais, a Netflix traz a série “O Mecanismo”, que se inspira no livro do Juiz Sérgio Moro sobre os bastidores das investigações da Operação Lava Jato, utilizando nomes fortes com Selton Mello e o do cineasta José Padilha no comando da direção.

Na trama, que não se utiliza em nenhum momento nomes reais, nem de pessoas ou instituições (até a Polícia Federal teve que virar Polícia Federativa – aliás cheguei um momento a pensar que até trocariam a bandeira do Brasil por uma genérica), mostra os esforços de dois delegados da Polícia do Paraná Marco Ruffo (Selton Mello) e Verena Cardoni (Caroline Abras) que estavam à caça de um doleiro local, Roberto Ibrahim (Enrique Diaz – que é o que mais entrega em atuação na série), cujas ações incidem na vida pessoal da dupla e chegam aos altos escalões do Governo Federal.

Por se inspirar em pessoas reais que são altamente identificáveis – sobretudo os políticos – a série se complica por botar frases de efeitos famosas nos personagens errados (ainda mais pelas implicações políticas que acarretam ainda hoje, no momento vivido pelo país). Embora seja passível de se dizer que existem críticas ao partido de oposição da época, elas são tão pequenos e sutis que se você piscar é capaz de nem perceber.

Além da polêmica do tema, “O Mecanismo” sofre do maior mal que tem acometido algumas produções nacionais: o roteiro. São muitas cenas expositivas que se repetem exaustivamente, frases e situações de puro clichê. Em diversos momentos, é possível antecipar a fala dos personagens de tão óbvias. Além de serem cafona a utilização de metáforas visuais para as falas dos personagens, principalmente quando Ruffo diz que o podre a corrupção estava bem debaixo do nariz dele e ocorre um estouro de esgoto na casa dele.

O uso da narração em off ficou mal executada devido ao tom e voz escolhido por Selton Mello pro papel, pois em momentos são difíceis de saber sua fala com clareza. Numa produção com diretores como Daniel Rezende e o próprio Padilha, são poucos inspiradas as cenas.

A série se salva devido a algumas boas atuações, principalmente de Caroline Abras e de Enrique Diaz. Ela não se torna cansativa devido ao número de episódios (8 ao total) e ao tempo de duração (não passando de 40 minutos cada). Se na próxima temporada a série for mais ousada, evitar seu maniqueísmo e melhorar a construção narrativa, ela até pode se tornar algo mais interessante, ainda mais considerando-se o que próprio Padilha tem feito com um assunto parecido como a série da própria Netflix, Narcos.

Série: O Mecanismo
Criação: José Padilha
Elenco: Selton Mello, Caroline Abras, Enrique Diaz
Gênero: Thriller/Drama/Criminal
País: Brasil
Data de lançamento: 23 de março de 2018
Emissora: Netflix
Duração: 40 min

“Círculo de Fogo – A Revolta” troca a diversão pela chatice

Superestimado, o filme Círculo de Fogo (2013) era uma aventura assinada pelo agora oscarizado Guillermo del Toro, em que ele parecia claramente querer se divertir fazendo. Óbvio que o diretor mexicano é comprovadamente talentoso e o resultado, se não é essa maravilha toda que ficam vendendo (não é!), pelo menos revelou-se um entretenimento dos mais honestos. Sua continuação demorou, mas veio. E sem del Toro. O que afetou violentamente seu resultado. Círculo de Fogo – A Revolta se passa dez anos após os acontecimentos do filme anterior, ou seja, quando os humanos venceram os Kaijus fechando uma tal fenda interdimensional por onde esses monstros invadiam a Terra.

O carismático John Boyega vive o filho do personagem de Idris Elba, que no filme passado se sacrificou para essa vitória. Mesmo muito diferente do pai e avesso a rompantes heroicos, após um apelo da meia irmã Mako (Rinko Kikushi), acaba retornando ao quartel-general (Pacific Rim) para treinar novos pilotos, entre eles a órfã Amara (Cailee Spaeny). Exatamente quando a tal fenda é desobstruída… sim… comprometendo o destino da humanidade.

O filme é dirigido pelo novato Steven S. DeKnight (vindo de séries como Smallville e Demolidor) e parece que suas referências estavam mais centradas na irritante franquia Transformers do que no filme original em si. A trama vira uma guerra de robôs gigantescos que não possuem qualquer fiapo de personalidade, o que afeta muito a afeição do espectador, que rapidamente se cansa de tanta barulheira e efeitos visuais. Para piorar, o roteiro distribui personagens em “núcleos” sem a menor preocupação em desenvolvê-los ou simplesmente dar alguma função à história em si.

Se a franquia inciada por del Toro, com suas referências e habilidades, conseguia garantir ao menos um entretenimento digno, essa continuação se torna quase um suplício de se assistir, principalmente por regredir a marca a condição de ser apenas genérica.

Rock In Rio vs Lollapalooza – diferenças e semelhanças entre os dois grandes festivais

Os dois maiores festivais de música do Brasil têm diferenças e semelhanças. Aqui nesse artigo nós iremos elencar as características do Lollapalooza e do Rock In Rio. Vejamos então quais são os pontos em comum ou distintos.

Origem

O Lollapalooza é um festival estrangeiro. Sua origem está nos EUA, onde começou em 1991 como festival indie itinerante (hoje fixo em Chicago). Foi criado por Perry Farrell, vocalista do Jane’s Addiction (saiba da história aqui). Em 2012 ele resolveu expandir as fronteiras e criou as filiais na América Latina (Chile, Brasil e Argentina). Já o Rock In Rio, apesar de ter como ponto alto as atrações internacionais, é genuinamente nacional. Começou a partir do sonho de Roberto Medina de criar um Woodstock tropical. Depois de muita luta conseguiu trazer os maiores nomes da música internacional em uma época em que o Brasil não recebia as grandes turnês. Hoje, o RIR é uma marca poderosa e tem bem sucedidas edições em Portugal e Espanha.

Perfil do line up

Enquanto o Lolla foca seu line up nas novidades e na vanguarda, o RIR aposta nos medalhões das grandes gravadoras. Normalmente são artistas com pelo menos vinte anos de atividade. Contudo, algumas atrações passearam pelos dois festivais como Florence + the Machine, Queens of the Stone Age, Muse, Metallica e Red Hot Chilli Peppers. Vale observar também um certo envelhecimento no Lolla. Se na primeira edição brasileira, em 2012, os headliners Foo Fighters e Artic Monkeys tinham respectivamente 17 e 6 anos de estrada, na desse ano você tem Chilli Peppers com 35, Pearl Jam com 28 e The Killers com 15. Outro ponto é que muito se fala da repetições das atrações do RIR. Com exceção do RHCP, os outros dois headliners já fecharam noite em edição passada (2013).

Palcos

No Rock In Rio são basicamente dois: o Sunset, que funciona para as atrações de vanguarda, geralmente promovendo encontros de artistas com estilos ou gerações distintas, e o Mundo, onde se apresentam os nomes mais aguardados. No Lollapalooza são quatro. O Budweiser para os mais aguardados, o Onix para a vanguarda, o Axe para os independentes e o Perry’s by Doritos destinado à música eletrônica. A diferença é que os palcos do Lolla vão se alternando do início ao fim do dia. No RIR, os shows do Sunset ocorrem à tarde, enquanto os trabalhos do Mundo começam à noite. E a distância entre um e outro não é grande. Assim no festival carioca é mais fácil acompanhar todos os shows.

Periodicidade

O Lollapalooza acontece anualmente. Já o Rock In Rio, em sua atual configuração, é bienal. O primeiro ocorre em um final de semana. 2012, 2014, 2015, 2016 e 2017 aconteceram em um sábado e domingo. 2013 e a presente foram de sexta a domingo. O RIR começou com onze dias consecutivos. Na segunda edição foram dez dias (com a segunda-feira de intervalo). Desde 2001 adota-se o formato de sete dias. De sexta a domingo na primeira semana e de quinta a domingo na segunda.

Capacidade de mobilização

Tanto o RIR quanto o Lolla mobilizam as cidades onde ocorrem e outras localidades do país que enviam turistas. São grupos de locais e viajantes que migram para as cidades (Rio e São Paulo, respectivamente) movimentando a economia, já que movimentam a rede hoteleira e também restaurantes e lojas.

Hype

São igualmente hypados. Ingressos se esgotam com antecedência e durante a transmissão na TV se tornam trending topics nas redes sociais.

“Pedro Coelho” encanta com seu humor infantil e ótimos efeitos visuais

Obra mais conhecida de Beatrix Potter, “A História do Pedro Coelho” foi lançada em 1902 e até hoje entretém crianças e (por que não?) adultos com sua história singela sobre as desventuras de um coelho fofinho que vive a atazanar um velho fazendeiro no interior da Inglaterra. O livro também chamou atenção pelas belas imagens criadas por Potter, que se tonaram referência para muitos ilustradores, que se inspiraram nos desenhos para criar seus próprios trabalhos. Portanto, nada mais natural de que o universo idealizado há 116 anos acabasse se transferindo para outro tipo de mídia, no caso o cinema.

Só que, para conseguir manter algumas de suas características e, ao mesmo tempo, ter um ar mais “moderno” que se comunicasse com o público atual, era necessário se valer de recursos tecnológicos que não eram possíveis há (pelo menos) duas décadas atrás. Felizmente, “Peter Coelho” (“Peter Rabbit”, 2018) é bem sucedido em ser um filme que chama a atenção dos pequenos, mas não entedia os mais velhos com uma divertida e cativante comédia que traz os elementos criados por Potter, aliados a uma ótima animação criada por convincentes efeitos visuais que proporcionam uma boa interação entre atores reais e animais virtuais.

Assim como no livro, a trama mostra os planos de Pedro Coelho para invadir o jardim do rabugento Sr. McGregor (Sam Neill) e pegar os vegetais que são cultivados em sua horta, junto de suas irmãs Flopsy, Mopsy e Cotton-Tail, além de seus outros amigos do campo. Sempre que se metem em confusão, Pedro e sua turma são protegidos por Bea (Rose Byrne), vizinha do Sr. McGregor que adora os animais. Tudo ia bem até o dia em que surge Thomas (Domhnall Gleason), o sobrinho de McGregor que resolve assumir a propriedade, após um colapso causado por um incidente em seu trabalho em Londres.

Meticuloso e obcecado por limpeza, Thomas complica ainda mais a vida de Pedro e seus companheiros, ao mesmo tempo em que começa a se envolver com Bea. A aproximação de sua protetora com o seu novo inimigo deixa o coelho morto de ciúmes e ele decide se livrar de seu oponente usando todos os meios necessários, começando uma verdadeira guerra campal.

O que chama a atenção em “Pedro Coelho” é que o filme, mesmo com todas as suas cenas cômicas, mantém a mensagem de amor à natureza e à vida simples, que existe nos livros de Potter, algo que deve ser visto como algo positivo a ser passado para o seu público, especialmente ao infantil. Esse mérito é obtido pelo diretor Will Gluck – que tem em seu currículo produções como “Amizade Colorida” e “Annie” – e lança mão de um humor mais inocente e que não apela (tanto) para piadas de baixo calão, embora crie sequências nitidamente inspiradas em outras comédias, especialmente “Esqueceram de Mim” e “Vizinhos”, mas nunca esquecendo de que precisa ser um “filme para toda a família”.

Além disso, Gluck (também autor do roteiro, ao lado de Rob Lieber) não se esquece de parte do público também é adulto e oferece alguns elementos que deixam “Pedro Coelho” também saboroso para este tipo de espectador, como metalinguagem, quebra da quarta parece (os personagens falam direto para a câmera em alguns momentos), além de brincar com alguns clichês cinematográficos.

Os roteiristas também acertam em mostrar Peter como um protagonista imperfeito, que comete diversos erros durante a trama e toma medidas, no mínimo, questionáveis. Os personagens coadjuvantes também são ótimos, como o galo irritado e que demonstra toda a sua insatisfação em ter que “cantar” toda vez que o sol nasce (e lhe traz consequências nem sempre agradáveis, segundo ele), e o porquinho guloso que tenta convencer a todos de que está fazendo dieta. Essa humanização dos animais também conta para criar uma cumplicidade entre o público e o que está sendo mostrado na telona.

O outro grande trunfo de “Pedro Coelho” está no alto nível do uso de CGI. O trabalho apresentado pela equipe da Sony Pictures Animation oferece uma qualidade comparável à realizada para o recente “As Aventuras de Paddington 2”, embora seja ainda mais complexo por lidar diversas espécies ao mesmo tempo em cena muitas vezes. Assim, é possível ver de forma bastante realista até mesmo os pelos de Pedro e de seus familiares. O único porém está que eles realizam alguns movimentos acrobáticos que não são possíveis pela falta de peso que lhes é aferida. Mas isso é um mero detalhe.

Como a sessão do filme para a imprensa foi com uma versão dublada, fica difícil avaliar a atuação do elenco que fez as vozes dos animais. Mas dois detalhes chamam bastante a atenção. Um deles está na caracterização de Sam Neill e de Domhnall Gleason. Enquanto o astro de “Jurassic Park: Parque dos Dinossauros” aparece quase irreconhecível por trás de uma barba longa e grisalha, o General Hux dos novos filmes da saga “Star Wars”, mostra que gosta de ser um verdadeiro camaleão e surge completamente diferente dos outros personagens que já fez recentemente, além de se mostrar ótimo na comédia física. O outro detalhe é ver Rose Byrne num papel bem mais ingênuo do que costuma fazer e a atriz se esforça para que sua inocência seja crível durante a história.

“Pedro Coelho” consegue, no fim das contas, cativar com a sua visão simples e “fofa” do mundo, servindo como ótimo passatempo descompromissado, que, se não é memorável, tem o mérito de render uma diversão genuína, que vai agradar principalmente às crianças, que podem até se interessar mais pelo universo criado por Beatrix Potter e procurar pelos seus livros. Vale lembrar que na versão dublada algumas das canções são interpretadas pelo grupo Rouge, que voltou à ativa recentemente.

Filme: Pedro Coelho
Direção: Will Gluck
Elenco: Rose Byrne, Domhnall Gleeson, Sam Neill
Gênero: Comédia/Animação
País: Reino Unido/EUA
Ano de produção: 2018
Distribuidora: Sony Pictures
Duração: 1h 35 min
Classificação: Livre

“American Crime Story: Versace” traz a origem e o irônico fim de um serial killer

O estilista Gianni Versace foi assassinado no portão de sua casa em julho de 1997. O assassino era o serial killer Andrew Cunanan. Esta é a história dele – e, também, de suas vítimas e dos defeitos de sua época.

Gianni Versace é interpretado por Edgar Ramírez. Penélope Cruz vive Donatella Versace e Darren Criss interpreta Andrew Cunanan. Outras vítimas de Cunanan foram Jeff Trail (Finn Wittrock) David Madson (Cody Fern) e Lee Miglin, aqui interpretado por Mike Farrell. Isso – ou talvez bem menos do que isso – é tudo que você deve saber antes de mergulhar na história de American Crime Story: Versace.

Se a primeira temporada da série optou por focar no que acontece depois de um crime – o julgamento e as estratégias de ambas as partes – a segunda temporada preferiu contar a história de origem de um serial killer em flashback. O que leve alguém a cometer uma série de crimes? O que foi influenciado pela vida familiar, e o que é pura psicopatia? E como se sente um criminoso acuado pela polícia, após seu grande crime? Estas são perguntas que você provavelmente nunca se fez, mas que percebeu que faziam sentido e que você precisava das respostas para elas.

Ryan Murphy disse que queria fazer um retrato da cena homossexual dos anos 90, e o fez com maestria. Obviamente, temos muitas doses de preconceito, inclusive sequências com exemplos na Marinha americana e na Igreja Católica, que são dolorosas porque são reais.

Em outra ocasião, um personagem conta como os homossexuais são sempre culpados por tudo de ruim que possa vir a acontecer com eles. Por isso, crimes contra homossexuais eram ignorados e a polícia pouco se esforçava para investigá-los – algo semelhante foi visto no telefilme The Normal Heart (2014), também de Ryan, sobre os primeiros anos da epidemia da AIDS. Se Andrew não tivesse matado um estilista mundialmente conhecido, provavelmente seguiria fazendo mais vítimas sem que houvesse comoção. Será que algo realmente mudou desde então?

Ryan moldou a série, mas fez isso enquanto produtor executivo. Ele não roteirizou nenhum episódio, e dirigiu apenas o primeiro da temporada. Foi como se desse o pontapé inicial para um jogo emocionante. Tom Robin Smith coescreveu todos os nove episódios com diferentes colaboradores, e três outros diretores se revezaram, entre eles a colaboradora constante de Ryan, Gwyneth Horder-Payton, e o ator Matt Bomer, fazendo sua estreia na direção justamente no episódio mais esclarecedor.

Já sabíamos, desde Glee, que Darren Criss é um ator carismático e talentoso. American Crime Story: Versace só veio para solidificá-lo como um dos grandes talentos da trupe de Ryan Murphy.

Um dos grandes destaques da série é a escolha sempre certeira e a caracterização minuciosa para que os atores se pareçam muito com as pessoas que estão interpretando. Uma das melhores performances vem de Joanna Adler, interpretando a mãe de Andrew, Mary Ann, que pode até ser ignorada na próxima temporada de premiações, mas que com certeza merecia ao menos uma indicação como a brilhante coadjuvante que interpreta.

Há sempre uma oposição entre as realidades de Andrew Cunanan e Gianni Versace. Gianni aprendeu, ainda pequeno, que era preciso trabalhar duro para ter seu talento reconhecido. Andrew, quando criança, aprendeu que era especial e por isso merecia tudo de bom e do melhor. Esta, explorado no episódio 8, é a mais óbvia das oposições. Outras são metafóricas, criadas pelas escolhas da direção de arte, do figurino e da fotografia. A vida de Gianni é opulenta, cercada de luxo. A de Andrew é crua, apesar de também contar com riquezas. O diretor de fotografia destaca o amarelo-ouro das coisas de Gianni, e o amarelo-pálido da vida de Andrew.

Muitas pessoas reclamaram de que a série, por se chamar The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story, tratava muito pouco sobre o estilista e o impacto que sua morte teve na marca, que passou então a ser administrada por sua irmã, Donatella. Para a escolha do título, há duas explicações.

A primeira é óbvia, mercadológica: trata-se de um nome conhecido. É mais fácil atrair o público para ver a segunda temporada associando-a a Versace. Mesmo quem não se lembra do crime já ouviu falar do estilista.

A outra explicação é deliciosamente sádica: Andrew Cunanan cometeu crimes para que seu nome fosse lembrado. Vinte anos depois, é feita uma série de TV sobre o assassino e seu modus operandi – e, mesmo assim, seu nome não aparece no título. Não é digno de aparecer no título. É como se Ryan Murphy se vingasse, em nome de toda a comunidade homossexual dos anos 90, e falasse para Andrew que seu nome não merece ser lembrado. Brilhante, não?

“Canção de Ninar” mostra as diferenças de classes e a maternidade dentro do seio familiar

Quando você entra em um quarto ou até mesmo numa sala, você tende a perder a noção do aberto, de uma zona franca do olhar que é retida por paredes que bloqueiam a visão, mas trazem uma certa presença íntima das coisas. Até para o mais surpreso personagem ao se ver preso entre paredes, muda o foco e o discurso em que este foco tem seu tripé. Estou só, libero minhas guardas? Penso com mais liberdade?

Penso que ao escolher um jeito de narrar, o autor escolhe certa intimidade com que vai lidar, com a escolha da sua história. Como se fará o olhar do narrador perante curso ou o rio da ação? Espontâneo como uma leve correnteza, sem amarras ou correntes que prendam os ditames e percursos dos personagens na ação. Será que o autor tem certo medo de uma liberdade irrestrita, de soltar totalmente a imaginação em trilhas sujas por onde o inominado reine solo e solto sem freios? O escritor tem medo dos seus leitores.

Ao escolher uma narração em terceira pessoa com certo peso na distância fria ou calculada do percurso narrado, a escritora franco-marroquina Leila Slimani em seu Canção de Ninar (pelo selo Tusquets da editora Planeta), que levou o prêmio Goncourt recentemente  opta por uma certa isenção de tomada. Como certa câmera que é deixada ali num espaço onde se filma sem a mão de um cinegrafista que possa ter o controle do que filma, mas sim, também ser um filtro do que é captação de imagens ou não.  A autora irá sim, de forma sutilíssima tomar possível opção em detrimento de uma posição em esmiuçar a história sem pré-julgar.

Cabe salientar que a narração começa com um crime, um infanticídio de irmãos que uma babá olha. Ela própria a comete. O casal que tem um jornada extensiva durante todo o dia, e devido às ótimas recomendações de terceiros contrata Louise para olhar os filhos do casal. Note, leitor, que não usei a palavra cuidar nem pagear. Embora Louise faça exatamente isso durante toda ação transcursiva da narração. Sua noção de comprimento do seu trabalho é quase ou é milimetricamente eficiente. As crianças a adoram.

É interessante notar como é bem delineado os perfis do progenitores. Paul (Pai) e Myriam (Mãe) são pessoas responsáveis em seus atributos profissionais, Myriam acaba de se tornar um grande advogada. E Paul  tem certo controle artístico numa produtora de música onde mexe com artistas dos mais variados naipes. Há uma certa distância mais especificamente da mãe com relação a fomentar uma maternidade de forma mais afetiva ou afetante. É com se ali houvesse um certo deslize… uma fenda que algo ocupe…

Leila traça toda narrativa como um movimento de maré quando ela vai traçando o afeto da babá pelos dois, formas de ocupar o espaço ou a fenda. Ela realmente está conectada com as crianças. Mas há algo fugaz talvez em sua idealizações ou aspirações, como se o real para Louise fosse um castelo de cartas que ao menor vento desmoronasse…

E a maré vai caudalando o espaço, coisas acontecem entre patrão e babá que rui certa confiança entre eles. Os bens materiais ou os alimentos são peças de desgaste (distinções sociais), visões antagônicas  entre o desperdício dos patrões e o bom uso e proveito de Louise das peças de casa.  As derrissões são sempre na periferia do habitat, Paul e Myriam nunca desconfiariam de maus tratos com as crianças.

Louise projeta viver ali dentro deste núcleo familiar. Trocar o lugar que mora, um subúrbio da cidade, pelo viés do  pertencimento familiar. Há toda uma carga que lhe pesa as costas: O ex marido morto aproveitador e que lhe deixou dívidas, a filha que é expulsa da escola. É muito interessante notar que o efeito do livro parta de uma assassina que cometeu o crime, mas que em todo processo de narração a autora não a desumanize, que deslize nesta conjuntura, possíveis respostas para um ato inominável nas disfunções sociais entre classes.

“15h17 – Trem para Paris” é o pior filme de Clint Eastwood

De cara, já podemos afirmar que 15h17 – Trem para Paris é o pior filme de toda a carreira de Clint Eastwood. E eu incluiria aqui também os seus trabalhos como ator. Chega a ser impressionante como o mesmo diretor de obras-primas como Os Imperdoáveis e Sobre Meninos e Lobos entrega um filme tão ruim. Não faltam razões para justificar isso, mas a mais nociva e que vem corroendo o trabalho do veterano, tem muito a ver com suas conhecidas inclinações políticas, que respinga numa obsessão pelo heroísmo cívico sem muito auto juízo de valor. Tanto que seus últimos filmes ora celebravam uma questionável face da cultura belicista ianque (Sniper Americano), ora procuravam desesperadamente uma “jornada do herói” diante de um óbvio herói sem grandes jornadas (Sully).

15h17 – Trem para Paris dá continuidade a esse paradigma, mas com o agravante de que Clint dessa vez parece não estar muito preocupado em arregimentar seu discurso com sua boa base cinematográfica de sempre. Acompanhamos a história real dos três amigos americanos que, em uma viagem pela Europa, impedem um terrorista de fazer uma carnificina dentro de um trem na França.

Esse é o ponto inicial. Partindo daí, só veio escolhas equivocadas: 1. Clint resolveu chamar os próprios – Alek Skarlatos, Spencer Stone e Anthony Sadler – para darem vida a si mesmos. E o resultado é bem ruim, próximo do constrangedor. As inexperiências gritam devido a tantas exigências dramáticas de um roteiro que procura o tempo inteiro justificá-los; 2. O foco da narrativa é surreal. Clint resolve se debruçar sobre a relação de um deles com as forças armadas numa metáfora boba sobre a integridade de seus heróis. E depois a trama “evolui” para um verdadeiro programa turístico deles pelas cidades europeias e suas banalidades.

Quando chega o fato em si, o filme, que nem é grande, parece já ter mais de três horas de duração de tão cansativo e esvaziado que é. Isso é tão sintomático (no sentido mesmo de descartável), que quando Clint se debruça sobre o episódio da bravura em si, deixa vislumbrar seu costumeiro vigor fílmico, dirigindo com tensão e precisão o fato. Mas tudo começa e termina naqueles poucos minutos. Todo o resto é desperdiçado num filme tão caduco quanto as pretensões republicanas de seu cinema ultimamente.

Pearl Jam sacia os fãs cariocas com show vigoroso

O cenário não era nem um pouco diferente do de dois anos e três meses atrás. Maracanã cheio (mas não com lotação esgotada), com milhares de fãs ávidos para ver (ou rever) o maior nome do grunge de Seattle em atividade. Diferente mesmo só o dia da semana (uma quarta-feira). Para quem gosta de estatística, é a primeira vez que o Pearl Jam não toca no Rio em um domingo. Assim como das duas primeiras vezes (2005 e 2011) não tinha disco novo para divulgar. Então Eddie Vedder & Cia ficaram à la vonté para desfilar hits, lados b e covers. Isso ao longo de vigorosas  2 horas de 45 de rock. Os dois primeiros discos (“Ten”, de 1991 e “Vs”, de 1993) e “Yeld” (de 1998) predominaram no repertório. Do último trabalho, “Lightning Bolt”, entraram apenas duas.

O PJ entrou com um certo atraso. Eram 21h24 quando se ouviu ‘Metamorphosis Two’, de Phillip Glass, no sistema de som. O show estava programado para as 21h. Às 21h28 a banda entra no palco e inicia a apresentação com ‘Release’, a última faixa do primeiro (e melhor) disco. De uns tempos para cá tem sido escolhida uma música mais “calminha” para abrir os trabalhos. Só que dessa vez mantiveram o clima intimista nas seguintes, ‘Low Light’ e ‘Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town’.a primeira do “Vs” na noite. Quando o público começou a estranhar a falta de guitarra alta, vieram os petardos ‘Go’, ‘All Night’ (da compilação de faixas inéditas “Lost Dogs”) e ‘Animal’.

Em seguida, Vedder empunhou sua fiel garrafa de vinho (bebida preferida do vocalista), para delírio dos fãs. Disse o quão feliz estava em voltar ao Brasil e o quanto estava com saudade. Foi a deixa para outra da lista de favoritas do público, ‘Given to Fly’, do “Yield”, que foi seguida de outra faixa desse álbum, ‘In Hiding’. Essa última entrou no lugar de ‘Faithful’.

A aparição de ‘Jeremy’ no terço inicial do show foi uma surpresa. O clássico costuma vir sempre ali pelo final. Nesse momento, Vedder desceu ao pit para um contato bem próximo com o gargarejo. A música formou uma trinca matadora com ‘Corduroy’ e ‘Even Flow’. Para diminuir um pouquinho e deixar o público respirar, entrou ‘Immortality’. A seguinte, a bela ‘Wishlist’ , foi dedicada aos amigos do Red Hot Chilli Peppers, que estarão com o PJ no Lollapalooza em São Pulo nesse final de semana.

Daí, um espaço para as duas únicas músicas de “Lightning Bolt”, ‘Mind Your Manners’ e a faixa título. Após ‘Garden’, mais uma do “Ten”, Chad Smith, baterista do Red Hot Chilli Peppers, que tinham sido lembrados a pouco, subiu ao palco para uma participação especialíssima. Em um kit básico de percussão, ele participou de ‘Can’t Deny Me’, nova faixa que o Pearl Jam lançou a poucos dias. A primeira parte do show se encerrou com mais uma do primeiro álbum, ‘Porch’.

A segunda parte do show foi aberta por ‘Sleeping With Myself’, do trabalho solo de Eddie Vedder. Em seguida, a primeira execução de ‘Inside Job’ nessa turnê. Voltando aos clássicos, o script foi seguido à risca. A balada ‘Daughter’ como sempre teve uma recepção entusiasmada e ‘Do the Evolution’ fez o público pular muito. ‘Black’ foi o momento em que as luzes dos celulares nas arquibancadas deram show fazendo o efeito constelação. O cover de Edward Holland Jr. ‘Leaving Here’ foi dedicado às mulheres e aos homens fortes o bastante para ajudá-las na luta por igualdade. Isso dito no português macarrônico de Vedder já com a fala ligeiramente embolada pelo efeito do vinho. É curioso como ele consegue terminar o show com tanto vinho nas ideias.

A vigorosa ‘Blood’ precedeu a última balada da noite, ‘Betterman’. Com direito a snipets de ‘I Wanna be your Boyfriend’ do Ramones e ‘Save it for Later’ do The Beats. O clássico absoluto (e obrigatório) ‘Alive’ trouxe outro membro dos Chilli Peppers ao palco, dessa vez o guitarrista Josh Klinghoffer. Ficou a cargo dele o solo de guitarra do final da música. E se saiu bem! A essa altura as luzes da casa se acenderam. Certamente programadas para o horário estimado de término do show. Só que ainda vinha mais música. ‘Rocking With the Free World’ – cover de Neil Young tão atrelado ao Pearl Jam quanto ‘Knocking on Heaven’s Door’ de Bob Dylan ao Guns n’ Roses – contou com um histórico crossover da banda de Seattle com metade do RHCP. Josh continuou no palco e Chad assumiu a bateria principal no maior clima de farra.

‘Yellow Ledbetter’ fechou a noite que, como das vezes anteriores, deixou os fãs exaustos após à maratona, porém saciados e já ansiando pela próxima vez. Foram 29 músicas e poderiam ser 30 (‘Reviewmirror’ estava no setlist mas não foi tocada). Depois de 27 anos, sem muitas alterações na formação, era de se esperar esse perfeito entrosamento entre Stone Gossard (guitarra de base), Mike McCready (afiadíssimo na guitarra líder), e a eficiente cozinha de Jeff Ament (baixo) e Matt Cameron (bateria).

Eddie Vedder continua com o vozeirão intacto e defendendo o título de maior vocalista do rock em atividade. Por ter sido um show só deles e não dentro de um festival, houve um clima de descontração que o tornou memorável. Mesmo sem muitas novidades ou surpresas no repertório (quase todas as músicas já haviam sido apresentadas ao vivo aqui outras vezes) teve sim um frescor como se fosse o primeiro.

Sensível, “A Melhor Escolha” se dilui em digressões

Os doze anos de envolvimento na construção de sua obra-prima Boyhood, parecem ter afetado o resultado artístico dos trabalhos recentes de Richard Linklater. Depois do frágil Jovens, Loucos e Mais Rebeldes (uma derivação mais do que uma continuação em si), o diretor retorna ao seu universo confessional quase ordinário em A Melhor Escolha.

Baseado no livro de Darryl Ponicsán, Last Flag Flying (nome original), que vem a ser a continuação do livro The Last Detail (ou simplesmente A Última Missão, como sua adaptação para o cinema de 1973 se chamou), o filme mostra três veteranos das forças armadas americanas – Bryan Cranston, Steve Carrell e Laurence Fishburne – que se reencontram trinta anos depois para o enterro do filho do personagem de Carrell, fuzileiro na Marinha, morto na Guerra do Iraque.

O longa é todo moldado nesse reencontro e no que ele vai representando para cada um deles. Basicamente um filme de personagens em suas densidades dramáticas, que resvala no discurso antibelicista vigente na América ianque atual. Cranston rouba a cena num elenco sem irregularidades.

O roteiro também foi escrito pelo autor do livro, o que talvez explique o veemente investimento no discurso para Ilustrar o olhar do diretor sobre seus personagem. O ritmo lento é até uma marca de Linklater, mas aqui por mais que tenha um elenco que corresponda com destreza a economia do roteiro, a química entre os atores/amigos fica bem visível e é o grande ponto alto de tudo.

Mas com diálogos repetitivos e esvaziamento dramático, A Melhor Escolha soa apenas pretensioso e lugar comum. Em outros filmes, o diretor dosou melhor sua linguagem lacônica. Aqui, confiou demais em sua expertise sem elabora-la. Irregular, A Melhor Escolha vale pelo aspecto humano, mesmo que sua diluição o deixe no limite da chatice.

Filme: A Melhor Escolha (Last Flag Flying)
Direção: Richard Linklater
Elenco: Bryan Cranston, Lawrence Fishburne, Steve Carrell
Gênero: Drama/Comédia
País: EUA
Ano de produção: 2017
Distribuidora: Imagem Filmes
Duração: 2h 04 min
Classificação: 12 anos

Jessica Jones retorna na Netflix ampliando seus dramas

O retorno de Jessica Jones traz a protagonista interpretado mais uma vez magnificamente por Krysten Ritter, às voltas com as consequências da temporada anterior. Já os reflexos de “Os Defensores” nem são percebidos, fora a pequena participação de Foggy Nelson.

Jones se torna ainda mais amarga por se sentir culpada pela morte e Killgrave. Enquanto isso, Trish Walker (Rachael Taylor) tenta convencer a irmã a investigar a empresa IGH, que está por trás daquilo que lhe conferiu suas habilidades. Além disso, Malcom Ducasse (Eka Darville), que está reabilitado do vício das drogas, se torna parceiro de Jessica no Alias Investigation. Já a advogada Jeri Hogarth (Carrie-Ann Moss) passa por um drama pessoal e outro profissional.

O mote da temporada é como lidamos com o nosso passado e como se pode exorciza-lo, além de se questionar se os laços sanguíneos são mais importantes que aqueles que temos com os amigos mais próximos e confidentes.  Vemos nessa temporada como era a Jessica Jones antes de ser abusada por Killgrave e como apesar de ser uma outra pessoa, muitas de suas características mais fortes já estavam prestes a ocorrer e que foram apenas exacerbados após o domínio feito personagem de David Tennant.

Embora seja uma boa temporada, ela ainda peca pela excesso de episódios (13 novamente), que poderiam ter sido condensados em pelo menos oito. O vilão é interessante, mas seus dilemas acabam ficando repetitivos, o que nos tira muito da sua empatia, além de ficar anos luz de diferença em relação a Killgrave. Os arcos dos personagens secundários funcionam bem e seus finais chegam a ser surpreendentes, o que podem dá uma nova dinâmica para a próxima temporada.

Os grandes episódios da temporada são o sétimo, no qual temos um longo flashback na história de Jessica e Trish, mostrando inclusive os abusos da mãe e do vício da apresentadora. E o décimo primeiro, no qual Jessica passa por um dilema moral muito intenso.

Junto com a série do “Demolidor”, Jessica Jones permanece com uma dos grandes acertos da parceria Marvel/Netflix dos heróis urbanos, pecando apenas no número de episódios por temporada.

Série: Jessica Jones
Criação: Melissa Rosenberg
Elenco: Kristen Ritter, Rachael Taylor, Eka Darville
Gênero: Ação/Drama/Criminal
País: EUA
Data de lançamento: 08 de março de 2018
Emissora: Netflix
Duração: 56 min

“Círculo de Fogo: A Revolta” fica aquém do antecessor, mas diverte

Eterno apaixonado por monstros, entre eles os gigantes que adoravam destruir o Japão nos anos 50 e 60, Guillermo del Toro pôde exacerbar este amor quando assumiu o projeto de “Circulo de Fogo”, no qual realizou uma obra que, se não era perfeita, conquistou uma legião de fãs graças ao seu excelente trabalho para tornar as lutas entre os Kaijus (como os japoneses chamam as gigantescas criaturas) e os Jaegers, robôs criados pelos humanos para combater essa ameaça. Apesar de deixar muita gente com um sorriso no rosto, o filme não foi um grande sucesso de bilheteria e a possibilidade de uma sequência parecia ser remota.

Mas, para a felicidade geral dos amantes do gênero, o cineasta (que ganhou este ano os quatro Oscars, incluindo os de Melhor Filme e Direção, por “A Forma da Água”) anunciou em 2014 que havia recebido um sinal verde para que fosse em frente para uma continuação.

O tempo passou e algumas coisas aconteceram. A produtora do filme, a Legendary Pictures, deixou a Warner Bros. e mudou-se para a Universal Pictures, o que fez com que alguns projetos ficassem suspensos por um tempo. Com isso, del Toro acabou deixando a direção, ficando apenas como produtor e consultor da sequência, que foi repassada para uma outra equipe criativa. Assim, um pouco depois da consagração do realizador de “A Forma da Água”, chega aos cinemas “Círculo de Fogo: A Revolta” (“Pacific Rim: Uprising”, EUA/2018), que apesar de trazer de volta vários elementos que marcaram o filme original, não chega ao mesmo nível alcançado na primeira parte e acaba se tornando um mero passatempo descartável, ainda que divertido na medida do possível.

Ambientada dez anos após os eventos do filme anterior, a trama acompanha Jake Pentecost (John Boyega), filho do lendário Stacker Pentecost (Idris Elba), que abandonou a Academia e vive de encontrar peças de Jaegers para comercializar no mercado negro de Los Angeles. Durante uma operação, ele acaba esbarrando na jovem Amara (Cailee Spaeny), um gênio precoce da mecânica, e os dois acabam se metendo em uma confusão com as autoridades. Para não ser preso, Jake aceita o pedido da meia-irmã, Mako Mori (Rinko Kikuchi) – agora uma oficial do alto escalão – e vai para o Moyulan Shatterdome, na China, para treinar uma nova geração de pilotos de Jaegers, chamados de cadetes, incluindo Amara.

Para isso, ele terá que conviver com seu ex-parceiro Nate Lambert (Scott Eastwood), e lidar com algumas mágoas desencadeadas por eventos do passado. Ao mesmo tempo, uma nova geração de robôs gigantes controlados por drones, criados por Liwen Shao (Jing Tian) e sua empresa, prometem revolucionar o combate aos Kaijus. Mas uma nova e inesperada ameaça surge e coloca Jake, Nate e os cadetes num conflito inesperado que pode decidir o futuro do planeta.

Embora ofereça uma dose generosa de cenas de ação, que certamente cairão no gosto de quem gosta de ver combates que não deixam (literalmente) pedra sobre pedra, “Círculo de Fogo: A Revolta” nunca chega a causar o impacto esperado. Talvez porque o diretor escolhido para essa sequência, Steven S. DeKinght (da série “Demolidor”, da Netflix), não consegue criar nenhum momento realmente marcante, limitando-se a fazer o que del Toro tinha feito antes (e melhor) no primeiro filme. Pelo menos, ele tornou as sequências de combate entre os Jaegers e os Kaijus bem claras e não são confusas, como Michael Bay adora fazer com seus filmes da franquia “Transformers”, que dão mais dor de cabeça do que satisfação ao assisti-las. Aqui, dá para entender tudo o que está acontecendo. Só faltou mais originalidade.

Outro problema do filme está no roteiro, escrito pelo diretor, ao lado de Emily Carmichael, Kira Snyder e T.S. Nowling. O texto é recheado de clichês e frases feitas, com situações chupadas de outros filmes, como as questões envolvendo os cadetes que lembram muito as mostradas em “Ender’s Game: O Jogo do Exterminador”. Além disso, faz com que personagens mudem de personalidade de uma hora para outra sem a menor cerimônia, especialmente a interpretada por Jing Tian, que se transforma radicalmente após uma simples alteração em seu penteado. Pelo menos, as reviravoltas na trama são interessantes e fazem sentido para que a história caminhe de maneira coerente.

Depois de se tornar mais conhecido como o Finn dos novos filmes da saga “Star Wars”, John Boyega até que não se sai mal como Jake e convence em relação aos conflitos que vive por se sentir à sombra do pai, assim como nos momentos em que precisa entrar em ação e mostra um bom entendimento com a novata Cailee Spaeny, que também parece ter um bom futuro no cinema. Já Scott Eastwood não consegue deixar de lado a sua canastrice e não soa convincente em nenhuma das cenas do filme, provando que vai ter que suar muito a camisa para ter um talento equivalente do pai, Clint Eastwood.

Adria Arjona, que interpreta a mecânica Jules, pouco tem a fazer e mais parece estar emulando a Letty de Michelle Rodriguez da série “Velozes e Furiosos”. Burn Gorman, que volta ao papel do Dr. Hermann Gottlieb, assim como Charlie Day, retornando como o Dr. Newton Geiszler, ainda sofrem com um humor pouco eficaz (um problema que já acontecia no primeiro filme). Mas pelo menos têm bons momentos quando ocorrem os combates entre os monstros e os robôs gigantes.

Com efeitos especiais irregulares, que ora tornam as cenas de batalha eficientes, ora deixam-nas mais artificiais do que deveriam, e uma trilha sonora não tão boa quanto à do filme original, “Círculo de Fogo: A Revolta” serve como entretenimento pouco memorável e só deve agradar mesmo ao público menos exigente ou aos fãs que preferem ver qualquer coisa deste universo do que não ver nada. Se houver uma terceira parte, quem sabe Guillermo del Toro não volta e põe ordem na casa? Até os Kaijus devem ficar felizes com o seu possível retorno.

Filme: Círculo de Fogo: A Revolta (Pacific Rim Uprising)
Direção: Steven S. DeKnight
Elenco: John Boyega, Scott Eastwood, Cailee Spaeny
Gênero: Ação e Aventura
País: EUA
Ano de produção: 2018
Distribuidora: Universal Pictures
Duração: 1h 51 min
Classificação: 12 anos

A desobediência poética de Gringo Carioca numa elegíaca depuração de sentido

O que  a palavra tem? massa, corpo, densidade, peso, a palavra pode ser leve, ter lisura, querer comer ou ter fissura, a palavra vem por onde? Da parte fonativa da laringe, ela tem fonética e, por que não, cinética? Afinal ela anda desanca autoriza desautoriza. Palavra não anda sozinha vem em grupo em movimentos sociais na pajelança vem em curso das coisas e em seus discursos. Ela pode ser só ou em oração ela pode ser rimada ou ritmada na canção. 

Mas quando botam palavras na boca de gente? Xi, Aí depende!

Palavras hoje obedecem à juízes e não juízos. Palavras viram ruas, à direita ou à esquerda. Palavras sinalizam com slogans eu estou ou sou esta posição.

Mas quero dizer que tudo pode ser seu avesso, a arte da política para arte de nomeação ou classificação, ou difamação. Política e poesia podem se manifestar juntas?

O que uma pode dizer à outra?  São ao mesmo tempo arte do encontro e da expressão?

Vi agora virando sem direção nem à esquerda nem à direita um livro desgovernado indo no sentido único da liberdade desvairada da fantasia da imaginação por que só ela pode delirar ou fazer a lira dos musos e das musas  atravancar o caminho das pedras ou deixa-las pelo caminho quem sabe carregá-las para uma fronte da morada.

Gringo Carioca não bota palavras em pedras, nem muito menos sua poética é feita d’água. Há em seus poemas muitas misturas entre o aquoso e o sólido, não dá para medir sua temperatura, se tá quente ou frio, Seus poemas de variados tamanhos, concentrados ou distraídos, obedecem a fórmula do descompromisso com a certeza ou com a verdade dos fatos. Sim, ele subverte tanto a lógica do mundo e seus valores quanto uma lógica formal do poema, cria nonsenses lindos pelo corpo poético encarnando um mestre desilusionista.

Seu Manifestos e Manifestações ( Editora Patuá) é um livro de poemas com lacunas que as repostas e também as perguntas entram pelo cano. O  que chama a atenção é a desobediência entre atrelar a pergunta à resposta. Taí a bagunça de sentido em fazer algum eixo certo/bonito em seus poemas, que são por sinal faísca dialética, contém sua síntese e antítese.

Relendo Coraline de Neil Gaiman

Numa tarde de um feriado, assistindo o filme da animação de Henry Selick com minha filha e vendo o quão ela gostou da história. A vontade de reler o livro de um dos maiores criador de histórias da atualidade, Coraline de Neil Gaiman (Sandman, Neverwhere, Stardust. Peguei minha edição de 2003 da Rocco e comecei a ler para minha padawan esse conto de fadas às avessas que reconhece a subestimada e, por vezes esquecida, maturidade da maioria dos leitores menores.

Em Coraline, Gaiman encara pela primeira vez o desafio de escrever uma fantasia assustadora para as crianças e vai além dos tradicionais dragões, príncipes encantados, frágeis princesas ou gigantes padronizados que habitam esse universo, criando uma personagem com a qual as crianças podem facilmente se identificar. Uma história destilada entre a fantasia e o terror, mesmo que tenha sido desenvolvida a um nicho de leitores, é de uma leitura aberta a qualquer idade, que mostra a facilidade com que Gaiman é capaz de idealizar pequenos mundos combinando aspectos da realidade mais cotidiana com inquietantes ambientes imaginários. Não era a primeira vez que o autor britânico se envolvia com esse público. O Dia em que Troquei Meu Pai por Dois Peixinhos era bem mais infantil, enquanto em Coraline adotou uma perspectiva da infância que claramente se aproxima da visão dos adultos.

Assim, aproxima o leitor às dúvidas, aos medos, à incompreensão e as perguntas próprias da protagonista que luta para superar os temores, sem esquecer das ocupações e dos hábitos do que se chama crescer e que padecemos a medida que tornamos adultos. Pela maneira de equilibrar esse plano de leitura, já merece qualquer recomendação, especialmente para aqueles pais com filhos nessa fase de de descobertas do todo e da curiosa forma de raciocinar como a vivaz Coraline se encontra na história.

Em pouco mais de 150 páginas, estruturadas em treze capítulos, Gaiman nos introduz na história de uma mocinha que se muda com seus pais a um enorme casarão dividido em vários apartamentos e compartilhado por outros vizinhos: as peculiares senhoras Spink e Forcible do primeiro piso, com seus cachorros e o velho excêntrico que mora no ático. Durante os últimos dias de verão, enquanto espera o início das aulas, Coraline encontra na casa e no seu enorme jardim todo um novo marco de oportunidades que dará renda a suas fábulas.

O tédio e a falta de dedicação de seus pais, sempre ocupados em suas rotinas, despertou na garota um caráter curioso e explorador, o que leva a vasculhar todo aquele ambiente novo.  Porém alguns dias de chuvas seguidos atrapalham aquele entretenimento, levando a focar sua ânsia exploradora para dentro do casarão.  E assim, encontra uma estranha porta fechada, numa parte vazia da propriedade e ao descobrir que uma estranha chave encontra um reverso de sua casa, a surpresa maior há também uma versão de seus pais, idênticos, exceto pelo detalhe “mínimo” de ter botões pretos no lugar dos olhos. Uma vez ali, onde seus lanches favoritos são melhores, as brincadeiras parecem mais divertidas e ninguém se aborrece com ela, Coraline se pergunta se o comportamento daquele lugar não responde a algum interesse sinistro.

A esta garota de nome original se associam referências e homenagens a Alice no País das Maravilhas de Lewis Carrol; como também um relutante gato -sem botas- incluído, como uma versão moderna do conto clássico. Usando a relação paterno-filial, no caso da mãe, uma figura protetora por excelência é o elemento condutor do medo converte Coraline em uma narrativa claustrofóbica com poucos ingredientes como cenário e sem estender em páginas desnecessárias, Gaiman constrói uma história tétrica como distorção da realidade, ajudado neste sentido pelas ilustrações deformadas de Dave McKean, colaborador já habitual em suas obras.

A produção animada de Selick e a adaptação em quadrinhos, realizada por P. Craig Russell, que a Rocco publicou também por aqui, além dos jogos eletrônicos para distintas plataformas e consoles, fizeram a narrativa ficar mais conhecida. Premiada com o Hugo e o Nebula Award de melhor novela de 2003 e o Bram Stoker Award de melhor trabalho de novos escritores em 2002, Coraline, sem dúvida, é uma narrativa bastante eficaz para o público infanto-juvenil. Minha filha de 8 anos, trouxe o encanto da leitura desse já clássico conto. Uma história para aqueles que perderam durante o caminho da maturidade, uma certa capacidade de imaginação e como é bom ter a capacidade de apreciar este momento com sua filha. Recomendo a leitura, a releitura e a leitura compartilhada.

Escute sem pressa: Metá Metá

Metá Metá é o projeto musical mais incrível dos anos 10 no Brasil, uma explosão de energia musical que tomou de assalto o cenário nacional e já é referência no mundo todo da nova música brasileira e para muitos novos e ricos projetos que estão nascendo influênciados pela estética do grupo.

Quê demais têm esse tal Metá Metá? Nada simples! Sua música é uma combinação de mpb, rock, samba, fusion, baião, candomblé e muito mais, e se ainda não escutou o show abaixo fala por sí próprio. Trata-se de uma apresentação do Metá Metá em 2013 no Festival Batuque, no SESC Santo André, São Paulo.

Metá Metá pode ser entendido como “três em um” em iorubá e no cerne do projeto estão Juçara Marçal (voz), Kiko Dinucci (cordas) e Thiago França (metais), um trio alquimíco, parafraseando Jorge Ben, onde cada elemento acrescenta e se completa com novas associações. Apesar de se apresentar geralmente com banda completa e convidados no palco, os discos são produzidos com uma enorme riqueza de detalhes que provoca encanto instantâneo e comprava a qualidade do grupo.

Confira abaixo nossa playlist “Escute sem pressa: Metá Metá” e para se aprofundar ainda mais recomendo escutar “Metá Metá”, disco–obra–prima lançada em 2011 que, buscando estéticas do jazz fusion às cantigas de tradição africanas, incorporou tudo como uma paulada poética. Sucedido por “MetaL MetaL” no ano seguinte, que longe de estagnar seu som, trouxe mais força na pegada e a promessa de um novo momento para a música brasileira, estagnada na “nova MPB”.

Depois de transitar por outros projetos, o terceiro disco do Metá Metá foi lançado em 2016 com o título de “MM3” e novamente com sua música buscando rumos, mostrando uma nova maturidade musical.

Quem gostou pode ir ainda mais longe escutando também os EPs, a trilha sonora “Gira”, do Espetáculo Grupo Corpo, ou ainda os trabalhos de carreira solo de cada metá, há muito o que explorar no website oficial do grupo, no spotify, no youtube…

Álbum “Open Drive”, do projeto Baião de Spokens, entrecruza discursos sonoros, narrativos e críticos

A cidade é tão imensa. Vê só, Itamar cantou. Aqui não há saídas, só ruas, viadutos e avenidas. Cada carro, ônibus em sua faixa. Até o BRT tem a sua exclusiva com os terminais de passageiros de carga e descarga. Só pare nos sinais e atravesse na faixa do pedestre. Lembrei-me do vinil e suas faixas numéricas onde os sulcos são a via de mão única da audição da bolacha. O vinil já virou coisa de colecionador, até de bolsa ele serve, já viram? A bolsa de vinil com crochê.

Mas de uns tempos para cá a coisa está digital. Não se compra mais CD, temos os arquivos sonoros. E se você quer andar pela cidade na sua faixa de pedestre ou no ônibus, temos o pen drive um dispositivo para armazenamento de áudio e também imagens.

Segmentou? (entendeu?)

A interessante proposta do músico e poeta Caco Pontes é falar e usar estes dispositivos  como a famosa frase: o meio é a mensagem. Aqui o pen drive são as faixas do antigo álbum, palavra que também conota uma coleção de fotos, reunidas, de uma vida de alguém. Interessante notar que a música sempre pareceu ser um recorte ou mosaico de recordações assim como gravar em inglês é record. Usar o pen drive para armazenar. Não à toa, musicar um momento de alguém é embalar com uma canção, uma relação de afeto importante entre duas pessoas.

Baião de Spokens é o nome do projeto do poeta, algo extremamente viceral pela proposta de mexer com linguagens diferentes como a intervenção, performance poética, o hibridismo que a tecnologia possibilita na mistura de ritmos e estilos brasileiros a até estrangeiros. São doze faixas do álbum “Open Drive”, que Caco chamou uma grande gama de artista de ponta da MPB brasileira, incluindo poetas. Cada faixa fica capitaneada por um “cantautor” que dá voz e vida a tipos de canções que são narrativas com enredo e um discurso na maioria das vezes com um humor muito referencial aos quadrinhos.

 

Ele abre com Melô do pen drive’. Numa deliciosa sátira aos vendedores ambulantes que soltam o gogó nas vias-faixas da cidade. Quem? nunca os usou para comprar seus pens quando precisa. A faixa três, Sophia Lacosta’, brinca ao mesmo tempo com a famosa marca de camisa e homenageia carinhosamente uma personagem da clássica MPB paulista onde Arrigo Barnabé imortalizou na canção ‘Clara Crocodilo’. Assim como a faixa 7 também usa esta espécie da fábulário animal, neste caso, falando de uma mariposa suicida numa letra engraçadíssima.

Sim, a tecnologia, aqui no caso, não apenas auxilia na gravação-armazenamento. Ela bagunça discursos, ela faz pontes de traçados sobre o hábito e o costume do homem na cidade. Tão democrático porque facilita o acesso as vias de informação. Cruzar uma rua entre um cruzamento é tão importante quanto cruzar fatos, ideias biografias, referências  entre consumidores, entre aqueles que se dispõe a não facistizar o meio social.

As participações no disco são de Alice Ruiz, Alzira Espíndola, Arrigo Barnabé, Cabelo e Galo (Trupe Chá de Boldo), Dani Nega, Daniel Gralha (Bixiga 70), Daniel Viana, DJ Tano (Z’África Brasil), Iara Rennó, João Sobral, Kiko Dinucci, Lirinha, Peri Pane, Rafael Cordeiro, Samba Sam, Sandra-X e Suzana Salles. Você pode ouvir  álbum completo aqui.

“Isso vai funcionar de alguma forma” funciona

Em Isso vai funcionar de alguma forma, temos uma dramaturgia coletiva, plural, feita por mulheres, interpretada por mulheres, dirigida por mulheres, construída de modo coletivo por mulheres, e cuja estreia se deu na semana do 8 de março.

Amanda Mirásci, Dominique Arantes, Mariana Nunes, Larissa Siqueira e Vilma Melo, sob a direção de Cristina Moura, Denise Stutz, Inez Viana e Rúbia Rodrigues e idealização e coordenação artística de Dominique Arantes e Rúbia Rodrigues, dividem o palco para trabalhar cenicamente questões atuais relativas a pertencer socialmente ao gênero mulher. O que é essa construção? Em que resulta sua desconstrução?

A cena de três mulheres sentadas à mesa, servindo e compartilhando uma refeição, é emblemática nesse sentido, pois remonta, de algum modo, àquilo que se diz delas (de nós) ou que se espera delas (de nós) ou, conforme a cena se desenvolve, do que não se quer esperar delas, de nós, as mulheres. As três, envolvidas na refeição, começam a se perguntar, em um looping aparentemente infinito, em um tom que vai do sussurro quase inaudível, difícil de desvendar inicialmente, ao brado brilhantemente desgovernado, o que aconteceria se elas gritassem. Esse é um dos elementos interessantes da peça, que, aliás, começa no mais absoluto silêncio embora prenhe de movimentos, até que a primeira frase se dê, em um discurso que coloca em questão tudo aquilo que é comportamento esperado e naturalizado por parte da mulher.

E, aliás, o silêncio tem muito lugar na dramaturgia proposta, mas também o grito, que, quando calha de acontecer, de mãos dadas com outras condutas supostamente loucas, é aquilo que pode fazer algum sentido e promover alguma libertação em meio a um turbilhão de silenciamentos e violências repetidas e banalizadas. Jogar o macarrão pro alto e rolar no chão será sempre considerado como mais maluco do que aquilo que se impõe cotidianamente à mulher, sem que ela queira, goste ou aprove.

Mas, ao propor formas de pensar o mundo em meio à complexidade de histórias que se interligam e que formam e informam cada pessoa, ao problematizar a conexão entre todos na construção do prédio em que o teatro está e onde a peça acontece, os materiais usados para que seus alicerces o mantenham de pé e todos os elementos presentes em cada existência, a dramaturgia de Isso vai funcionar de alguma forma aponta para mais além do gênero em questão. A peça trata, então, de vida. E de tudo o que a compõe, de forma interdependente.

Não se trata, o espetáculo, de uma dramaturgia linear e tradicional, mas de uma costura de cenas e discursos que sacodem o espectador, que requerem um esforço para que compreendam o que é dito através de leitura labial, que se espantem com a eloquência de uma comunicação que prima pelo não-verbal, que usa terra no cenário para provocar a reflexão sobre o protagonismo de cada um de nós naquilo que plantamos e no que podemos colher. Que traz impacto e consegue arrancar alguns risos. E que, sim, funciona de alguma forma.

FICHA TÉCNICA

Idealização e Coordenação artística: Dominique Arantes e Rúbia Rodrigues – Grupo BARKA
A partir das dramaturgias: “Licença” de Renata Mizhari; “Movimento Plantar” de Dominique Arantes; “Silência” de Keli Freitas e “Você tem medo de quê?/Não pode” de Daniele Ávila Small
Direção Cristina Moura, Denise Stutz, Inez Viana e Rúbia Rodrigues
Elenco: Amanda Mirásci, Dominique Arantes, Mariana Nunes, Larissa Siqueira e Vilma Melo
Direção de trilha sonora: Letícia Novaes
Iluminação: Daniela Sanchez
Figurino: Luiza Fardin
Cenografia: Mina Quental – Ateliê na Gloria
Assistente de Figurino: Julie Mateus
Assistente de cenografia: Ana Clara Albuquerque
Assistente de fotografia: Daniela Paoliello
Direção de Palco: Ana Paula Gomes e Mariah Valerias
Operação e técnico de Luz: Rodrigo Lopes
Operação de Som: Camila Costa
Cenotécnico: André Salles
Tradução em libras: JDL Traduções
Programação Visual: Elisa Riemer
Fotos e registros videográficos: Elisa Mendes
Assessoria de Imprensa: Bianca Senna – Astrolábio Comunicação
Mídias Sociais: Rafael Teixeira
Direção de Produção: Davi de Carvalho – Travessia Produções.
Produção executiva: Ártemis Amarantha, Jefferson Almeida e Tamires Nascimento – Tem Dendê! Produções
Assistente de Produção: Lucas Lins
Coordenação Administrativa: Davi de Carvalho
Assessoria Contábil: Jorge Chenkel – CVR Contabilidade
Assessoria Jurídica: Colen Advogados e Assistentes
Patrocínio: OI, Governo do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura e Lei de Incentivo à Cultura
Produção: Travessia Produções
Realização: Grupo Barka e Travessia Produções
Apoio Cultural: Oi Futuro

SERVIÇO

Espetáculo: Isso Vai Funcionar de Alguma Forma
Estreia para convidados: 8 de março de 2018
Temporada: 9 de março a 29 de abril de 2018
Local: Oi Futuro (R. Dois de Dezembro, 63 – Flamengo)
Informações: (21) 3131-3060
Dias e horários: quinta a domingo, às 20h.
Capacidade: 62 lugares
Duração: 70 minutos
Classificação indicativa: 16 anos
Gênero: Drama
Ingressos: R$15 (meia) e R$30 (inteira)
Horários da bilheteria:
De terça a sexta, das 14h às 20h.
Sábados, domingos e feriados, das 13h às 20h
Ingressos à venda: www.ticketplanet.com.br ou pelo telefone 2576-0300.

“O Insulto” reverbera a urgência de seu contexto político e humano

A complexa questão da presença Palestina no Oriente Médio (quase) sempre rende filmes bons. O Insulto entra para a estatística sob um recorte mais sociologicamente delicado. No Líbano, incomodado pela presença Palestina na vizinhança, o mecânico cristão de extrema-direita, admirador fervoroso do líder nacionalista Bashir Gemayel, Tony Hanna (Adel Karam) reage agressivamente a um reparo feito pelo mestre de obras palestino Yasser (Kamel el Basha).

Um dia, regando suas plantas, a água vaza pela calha com defeito e molha Yasser, que vai até o apartamento, se oferece para consertar o cano e é repelido. Tenta fazer o conserto pelo lado de fora da sacada e Tony rebenta o cano novo com uma marreta. Um ofende o outro de maneira veemente e a exigência de Tony por um pedido de desculpas ganha contornos maiores, envolvendo a opinião pública e até as autoridades do país.

O diretor Ziad Doueiri, que além de libanês, é muçulmano, portanto conhece bem a engenhosidade político-religiosa-social da região, constrói sua alegoria sobre a razão insuflando os argumentos dos dois lados. Para tal, desenvolveu uma dramaturgia de filme de tribunal, ao mesmo tempo em que desvia de esquematismos com personagens densos. Os dois extremos desse conflito são movidos por controvérsias que dizem muito sobre suas ações.

O roteiro – do diretor com sua ex-mulher, não por acaso, de origem cristã –  anda certo (a garantia do gênero) por linhas tortas (dada a humanidade que há em seus conflitos), mas é como disse no início do texto, a complexidade da questão não se dá apenas em sua amostragem, mas também na estrutura em que ela é feita e pensada. O Insulto, que foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, fala sobre a razão em um mundo tão inábil para lidar com as nuances por trás dela.

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