Pode-se acusar Ela Quer Tudo de um excesso de idealização. Mas o diretor Spike Lee, criador do filme original de 1986 e dessa série da Netflix, joga isso a seu favor. Até mais nessa segunda temporada, muito mais segura de seu discurso e bem resolvida em sua própria linguagem. Lee parece dominar bem o universo que criou.

Dessa vez, ele reuniu uma sala de roteiristas mulheres e negras, para assim tornar crível a jornada da protagonista Nola (vivida pela belíssima DeWanda Wise), artista plástica nova-iorquina lidando com as consequências de seu espírito livre, para com seus relacionamentos e para o contexto social da qual vive no microcosmo norte-americano da era Trump. Lee idealiza uma espécie de confronto do seu próprio discurso. Para fazer pensar mesmo.

A série deixa de ser cool para ser cult no que se propõe. Dentro do universo das artes da qual a personagem transita, há discussões sobre o papel dos artistas negros no mainstream (com participações de nomes importantes do meio como Titus Kaphar), uma crítica direta a mercantilização da arte, o peso da gentrificação no Brooklyn e até um episódio bem sensível que englobou o sincretismo africano e a melancolia de um país vívido como Porto Rico pós furacão arrasador – lugar em que a protagonista visita para acabar se reencontrando.

Tudo embalado por uma trilha sonora antológica (expertise certeira do diretor até em seus filmes), e uma substancialidade na forma de refletir seu tempo, com apuro artístico (a cena da roda gigante) e complexidade em seu seu lugar de fala.

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