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‘Boa noite, professor’ apresenta ótimo texto no Tablado

Na peça ‘Boa Noite, Professor’, parceria inédita entre pai e filha na escrita e na direção, Julia Stockler e Lionel Fischer colocam em cena um professor universitário experiente e uma aluna que o procura para que a oriente em sua pesquisa sobre os psicopatas. Esse é o elo intelectivo que os une, a princípio.

Ela vai à sua casa, onde ele a espera lendo em um sofá. Sua espera constitui o início do espetáculo, cujo cenário, assinado por José Dias, se compõe de uma poltrona rodeada por livros, uma mesinha de vidro na diagonal oposta, onde se encontram algumas bebidas, e um conjunto de caixas de papelão, em outro vértice do quadrado, com alguns outros livros, em menor quantidade, sobre elas.

A relação entre os personagens evolui de um constrangimento inicial de quem parece se conhecer há pouco tempo a provocações que são, a princípio, dotadas de humor e ironia para algo mais pesado e perigoso, o que se pode acompanhar pelo texto de qualidade que embasa a dramaturgia.

O encontro é uma primeira aproximação entre os dois personagens que compõem a trama, em que o professor quer entender mais de perto o que a candidata a orientanda tem a propor. Ele está tateando, mostra-se prudente, vislumbrando as possibilidades do encontro e os desdobramentos que podem daí surgir, ao passo que a aluna se dirige a ele voraz, demonstrando admiração e vontade de seguir pelos meandros da investigação sobre um tema que, ela diz, há muito tempo quer estudar e sobre o qual há muito tempo reflete.

Sua curiosidade e sua coragem, que poderiam ser confundidas, inicialmente, com aspectos inerentes à juventude, contrastam com a reserva do professor, que, por seu turno, poderia ser identificada com características mais próprias a uma dada noção de maturidade.

As investidas que a aluna faz sobre o professor o deixam, inicialmente, reticente, e esse é um quadro superficial que se apresenta no início do espetáculo, para ser sutilmente desconstruído. Há algo mais profundo que subjaz a essa paisagem relacional, quando, aos poucos, recordações antigas vão sendo desveladas em um diálogo que vai se tornando cada vez mais tenso e que permite que a análise mais corriqueira possa ser desmantelada: há mais do que um objetivo intelectual puro e simples nesse encontro, há mais do que o ímpeto juvenil que impulsiona a personagem da aluna a se precipitar sobre o que o professor reticente teria a oferecer. A trilha sonora assinada por Tato Taborda ajuda a construir a tensão que permeia a atmosfera do espetáculo.

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Nina Reis e Ricardo Kosovski dão vida a esses personagens que têm mais a esconder do que parece à primeira vista. Kosovski está excelente no papel, dotado de uma naturalidade impressionante. Seu personagem não sabe como agir diante do interesse evidente e irrefreável daquela aluna, e há muito ele não recebe ninguém em seu apartamento.

Na conversa teórica que inicialmente mantém com ela, dá importância ao controle, e seu personagem é, de fato, construído todo com base nesse aspecto do autocontrole. Ele vai, cioso de sua cautela, encontrando e construindo um lugar possível naquela interação, abrindo um espaço íntimo que há muito tempo se mantinha fechado. Aos poucos vai se situando, interessando-se pelo que a jovem estudante tem a dizer, instado a se reinserir em suas certezas intelectuais, mas não apenas isso: ele tem de se reinserir em sua própria história.

Nina, por sua vez, constrói uma personagem que preza o descontrole, embora isso só fique evidente aos poucos. O que se percebe, desde o início, é uma ansiedade mal e mal disfarçada, a princípio creditada a motivos de insegurança acadêmica, e que a atriz busca explorar através de pequenos tiques em sua expressão facial.

O interesse da aluna pelo “desvio”, como ela mesma diz, vai se deslocando do discurso para ação, uma ação impulsiva, mas fica a questão se algumas das cenas que incorporam o desvio e o descontrole (e que não serão aqui especificadas para não estragar a surpresa) se tornam um pouco inverossímeis em uma dramaturgia que parece buscar o realismo de uma trama psicológica que comporta a fantasia, a incerteza e a neurose.

O interessante do jogo relacional que o espetáculo nos apresenta é que, ao final, já não sabemos mais a quem pertence o desvio e o descontrole, o que é real naquilo que os personagens falam de si e de suas vivências passadas, o que tem a ver com culpa, intenção deliberada e acidente, e como as características de agir de cada um deles são marcadas (e em que medida) pelos fatos, recordações e construções (nesse último caso, no sentido psicanalítico do termo, que se refere a algo que o trabalho de análise deve criar para inserir em lacunas da memória, dando sentido e alguma completude à história relatada no divã) que constituem cada um dos personagens.

FICHA TÉCNICA

Texto e Direção: Lionel Fischer e Julia Stockler

Elenco: Ricardo Kosovski e Nina Reis

Cenário: José Dias

Figurino: Ana Carolina Lopes

Trilha Sonora: Tato Taborda

Iluminação: Aurélio de Simoni

Direção de movimento: Renato Linhares

Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti

Fotos divulgação: Guga Melgar

Produção Executiva: João Sant’Anna

Direção de Produção: Fernando do Val

Realização: Teatro O TABLADO

 

SERVIÇO

Estreia: 06 de agosto (sábado), às 21h

Temporada: de 06 de agosto a 25 de setembro

Local: Teatro O Tablado (Av. Lineu de Paula Machado, 795 – Lagoa)

Telefone: (21) 2294-7847

Horário: Sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 20h

Ingressos: R$30,00

Capacidade: 50 espectadores

Gênero: Drama

Duração: 60 minutos

Bilheteria: sexta a domingo, 2h antes do espetáculo. Na segunda, dia 08/08, a bilheteria abrirá às 18h30

Vendas antecipadas: www.ingresso.com

Classificação: recomendada para pessoas a partir de 14 anos

Vivian Pizzinga

Publicado por Vivian Pizzinga

Vivian é escritora e psicanalista. Lançou dois livros de contos (A primavera entra pelos pés, 2015; Dias roucos e vontades absurdas, 2013), ambos pela Editora Oito e Meio.