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Stênio Garcia celebra 60 anos de carreira no ótimo “O último lutador”

Não sei se todas, mas eu e algumas mulheres têm constantemente a impressão de que quando os rapazes, marmanjos, meninos, homens enfim, se engalfinham em brincadeiras que parecem ser meio violentas, pelo menos do ponto-de-vista de cá, eles estão, através da “lutinha” que promovem entre si, fazendo nada mais do que um exercício de amor, a atualização da afetividade. Uma brincadeira carinhosa cujo instrumento são uns soquinhos aqui e ali. Mulheres não brincam de luta entre si para exercer a afeição, mas talvez os homens sim, em alguns contextos, em alguns casos.

O último lutador, peça em cartaz no Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea, até 14 de março, parece tratar exatamente disso. Passa-se em 1992, época do confisco da caderneta de poupança no governo Collor, e retrata uma família que tem integrantes que mal se falam, com situações mal resolvidas, e que agora novamente se reúne em torno de uma luta, tradição que parece unir os homens do clã. Stênio Garcia, o chefe da família, celebra 60 anos de carreira com a peça e está formidável no papel de Caleb.

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Caleb, patriarca da família que sempre ganhou dinheiro com lutas e agora se sustenta com rinhas de galos, consegue resgatar o neto Titinho (Marcos Nauer), que havia sido levado pela mãe, quando tinha seis anos de idade, e se afastado de todos, com destino desconhecido, por causa do alcoolismo e da agressividade de seu pai, Tito (Antonio Gonzalez), hoje procurando redimir-se como pastor. Caleb organiza uma luta em que colocará no ringue o neto perdido, que a princípio não reconhece sua família, e seu irmão Daniel (Daniel Villas), cuja esposa, Débora (Mari Saade), está desesperada com as dívidas do apartamento e é quem o sustenta. Daniel será treinado pelo outro filho de Caleb, Enosh (Glauco Gomes), e a luta é promovida por Madalena (Carol Loback), jornalista e apresentadora. Permeando as relações, pontuando os diálogos, cuidando de Caleb, está Diná (Stela Freitas), espécie de figura materna e companheira  que a tudo acompanha e que tem sempre uma observação a fazer.

São cerca de 120 minutos de peça que nem se notam passar. A história prende do início ao fim, pois trata de conflitos familiares e emocionais expressando-se através das intrigas da competição. Parece que o que está em jogo é o dinheiro e o sucesso, mas nas entrelinhas das falas, dos gestos, das escolhas, tudo o que verdadeiramente importa é a atualização dos afetos perdidos e engessados na família, é exatamente o exercício da afeição, que parece precisar de caminhos secundários para se escoar. Assim, reencontros, acertos de contas, redenções, confissões vão encontrando lugar na trama, muito bem representada por todos os atores, que estão como que em casa, à vontade no palco e nos papéis. Stênio Garcia está excelente, com seu jeito turrão e espirituoso, mas nenhum dos demais integrantes do elenco fica atrás. Antonio Gonzalez, no papel do pastor tentando perdoar-se a si mesmo e ao pai, Caleb, está também excelente no papel, entre ressentido, culpado e raivoso.

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Marcos Nauer, além de interpretar Titinho (ou Davi) e arrancar risos da plateia com seu jeito suave e sua cisma com Bruce Lee, assina o texto junto com Teresa Frota (que foi roteirista da TV Globo por dezoito anos e recebeu indicações ao Emmy International Awards pelos dois docudramas Por toda a minha vida – Cazuza e Por toda a minha vida – Adoniran, em 2010, 2011, entre outros inúmeros trabalhos e premiações em dramaturgia). A direção é de Sérgio Módena (que recebeu inúmeras indicações pelos espetáculos Ricardo III, A arte da comédia, Sambinha e Bossa Novinha) e a produção é de Norma Thiré e Frederico Reder. Texto, direção e produção deram-se as mãos em um trabalho impecável, que torna a peça dinâmica, fluida, onde as cenas e a entrada de atores no palco é sempre muito bem concatenada, um espetáculo orgânico que não contém erros e é capaz de, a um só tempo, divertir e de emocionar.

Merecem destaque também Aurora dos Campos, com seu cenário que aglutina palco, casa, rinha e igreja, e a iluminação de Tomás Ribas, muitíssimo adequada para compor o ritmo da peça.

SERVIÇO 

Temporada: de 15 de janeiro a 14 de março
(para dia 31/01 e volta dia 12/02)
Local: Teatro dos Quatro
Endereço: Rua Marquês de São Vicente, 52/2º piso Shopping da Gávea – Gávea
Telefone: (21) 2239-1095
Horário: sexta, sábado e segunda, às 21h/ domingo, às 20h
Ingressos: Sexta e Segunda – R$70,00 | Sábado e Domingo – R$90,00
Duração: 80 minutos
Gênero: drama
Capacidade: 402 lugares
Bilheteria: de segunda a sábado das 13 às 21h, domingo das 13 às 20h
Classificação etária: 14 anos

FICHA TÉCNICA

Ideia Original: Marcos Nauer
Texto: Marcos Nauer e Teresa Frota
Supervisão de dramaturgia: Teresa Frota
Direção: Sergio Módena
Elenco: Stênio Garcia, Stela Freitas, Marcos Nauer, Antonio Gonzalez, Glaucio Gomes, Mari Saade, Daniel Villas e Carol Loback
Diretor assistente: André Viéri
Cenário: Aurora dos Campos
Iluminação: Tomás Ribas
Figurino: Antonio Guedes
Música Original: Marcelo Alonso Neves
Fotografia: Milton Menezes
Instrutor de lutas: Milton Vieira – Rio Fighters
Instrutor de jeet kune do: Paulo Oliveira – Kalirio
Preparador corporal para o tango: Edio Nunes
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
Fotos e Programação Visual: Milton Menezes
Assistente de produção: Luana Simões
Produção: Norma Thiré e Frederico Reder
Realização: Brainstorming Entretenimento e Quarta Dimensão Entretenimento

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Vivian Pizzinga

Publicado por Vivian Pizzinga

Vivian é escritora e psicanalista. Lançou dois livros de contos (A primavera entra pelos pés, 2015; Dias roucos e vontades absurdas, 2013), ambos pela Editora Oito e Meio.