O espetáculo Tal do Caminho, em sua segunda temporada, coloca o intimismo da casa e o espaço da reclusão no centro da cena. Paula Aguas interpreta a encenação de João Saldanha, em que os movimentos internos e a relação fora/dentro são explorados em uma coreografia que inclui o espectador pelo olhar. A ambientação onde o espetáculo tem lugar promove a sensação de que tudo se dá dentro de uma casa, por assim dizer, com lençóis recobrindo o espaço em que a peça se desenrola e formando uma espécie de formato clássico de casa,  como se acima do público houvesse um telhado inclinado.

Paula Aguas explora o espaço em uma dança que parece o tempo todo construir esse entorno, sentindo através do tato os limites físicos que delimitam o que está fora e o que está dentro. Estamos todos dentro, junto com ela. Ao mesmo tempo, ouvimos os sons que parecem vir de fora, que indicam que há um mundo acontecendo e que, mesmo inacessível do ponto-de-vista de quem está no interior desse nicho íntimo e protegido, se relaciona e incide nos regimes de sono/vigília, trabalho/descanso, exploração/habituação do que ocorre dentro da casa.

Há também a escultura de Lia Siqueira, que, inicialmente em fragmentos, permite que Paula construa uma espécie de casa dentro da casa, habitação dentro da habitação maior, como se o núcleo de toda a vida pudesse repousar ali. As imagens de Gustavo Gelmini, projetadas no tecido que envolve o espaço cênico, dialogam com os movimentos exploratórios que acontecem no palco. É como se Paula pudesse ir criando espaços psíquicos e extensões corporais através da construção e da imersão nos detalhes dessa casa.

A movimentação de Paula parece ser sempre um convite à plateia. O contato visual da artista com os espectadores, a sensação que seu olhar suscita de que vai perguntar alguma coisa ou pedirá explicações, a forma como parece dividir seu espanto, sua estupefação, a expressão acentuada de afetações relacionadas ao contexto físico em que se encontra e a si mesma permitem que a verbalização não seja imprescindível, incluindo, com êxito e muita sutileza, a plateia em sua vivência, situando-a como testemunho de sua construção, que é uma negociação constante entre o que é interno e o que é externo.

A iluminação, além de conferir ainda mais beleza à coreografia que Paula tece, também oferece a noção de passagem de tempo, de ritmos que se sucedem e que imprimem circularidade na vida e nos hábitos. A encenação tem o mérito de capturar o olhar do espectador, que fica em suspenso esperando a próxima movimentação da artista, conduzido por gestos, semblante, imagens e música.

Ficha técnica

Encenação João Saldanha
Interpretação Paula Águas
Direção de Produção Tatiana Garcias
Colaboração Daniela Visco
Trilha sonora original Sacha Amback
Escultura Lia Siqueira
Figurino Pia Franca
Videoartista Gustavo Gelmini
Assessoria de Imprensa Daniella Cavalcanti
Fotografia Renato Mangolim
Projeto Gráfico Infinitamente Estúdio de Criação
Operação multimídia  Vanderson Vieira
Técnico de montagem de luz  Luiz Oliva
Produção Executiva Dayana Lima
Cenotécnico Marcelo Sampa
Costureira  Lucia Lima
Preparação Corporal  Fisioterapia –  Nubia Barbosa
Preparação Corporal  Gyrotonic – Bel Teixeira

SERVIÇO

Datas: 03/05 a 27/05, de quinta a domingo
Horário: quinta a sábado, às 20h, e domingos, às 19h
Local: Teatro Poeirinha
Ingressos: R$40,00 (inteira), R$ 20,00 (meia)
Endereço: Rua São João Batista, 104 – Botafogo
Telefone: 21 2537-8053
Vendas: na bilheteria do teatro ou através do site  www.tudus.com.br
Classificação indicativa: 14 anos
Duração: 60
Lotação: 20 lugares
Gênero: dança
Horário da bilheteria: terça a sábado, das 15h às 21h | domingo, das 15h às 19h

Fotos: Renato Mangolin

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