A neurose de Mahler e o espírito genial de Sigmund Freud na peça "Freud e Mahler" | Críticas | Revista Ambrosia
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A neurose de Mahler e o espírito genial de Sigmund Freud na peça “Freud e Mahler”

O espetáculo Freud e Mahler, com direção de Ary Coslov e texto de Miriam Halfim, traz um simpático Sigmund Freud, interpretado por Giuseppe Oristanio, e um atormentadíssimo Gustav Mahler, o compositor, interpretado por Marcello Escorel, em um encontro histórico ocorrido um ano antes da morte deste último.

Em 1910, Mahler procura Freud em cartas educadas e desesperadas para tratar com ele a possibilidade de cura de seu sofrimento. É assim que se inicia o espetáculo: os dois atores, sentados, ainda não caracterizados como Freud e Mahler, leem as cartas que os personagens se dirigiram, um ao outro. Leem, portanto, o preâmbulo do encontro. Esse é um começo interessante e despretensioso. Além de mostrar como tudo começou e nos presentear com um pouco do texto que escreviam – e é sempre bom ler as cartas de Freud, ler o texto de Freud – vemos que já nesse começo, nesse anúncio de possível tratamento, muito se pode compreender da psicodinâmica de Gustav Mahler. Para os psicanalistas e os simpatizantes da matéria, faz muito sentido toda a hesitação que permeia as missivas.

A peça é atravessada por alguns momentos de projeção de imagens ou de textos explicativos (importantes para que saibamos, resumidamente, quem são os personagens e seus contextos mais específicos). Não são numerosos esses momentos, o que tem a vantagem de promover um descanso do texto sem inundar de informações o espectador, com numerosas formas de linguagem que poderiam ser excessivas.

A opção pela projeção de imagens é interessante por vincular aquilo que acontece no âmbito do particular, do encontro a dois, do tratamento individual, da neurose pessoal, com o que ocorre em âmbito macrossocial, com o contexto mais geral em que se inserem os personagens de uma história singular. Isso não é absolutamente claro, mas é importante ao menos que se faça essa alusão, uma vez que assim, inserindo os personagens em um contexto que os ultrapassa e que os influencia, podemos nos lembrar que Freud e Mahler são homens de seu tempo, ainda que geniais e à frente dele. Isso significa dizer que são homens de um sistema onde o patriarcado era muito mais forte do que hoje em dia, onde não se questionavam os papeis do homem e da mulher na sociedade. E isso é importante reiterar pelo simples fato de que, ao acompanharmos aquilo que atormenta Mahler, suas queixas e incompreensões face à sua mulher, parece a todos nós muito óbvio o motivo pelo qual ela teria se distanciado afetivamente dele. No entanto, isso só nos parece óbvio por nossa distância temporal e cultural do momento histórico que os personagens da peça viviam. O tormento de Mahler e sua cegueira face à vida monótona e superficial que impõe à mulher, e o fato de Freud sequer mencionar essa questão como problemática, é altamente verossímil e consistente com a cultura que ajudava a formatar seus hábitos de vida e pensamentos.

Nas imagens projetadas, há uma pluralidade de temáticas e fatos, não se restringindo à época em que viveram os personagens da peça. Essas imagens incluem acontecimentos muito recentes da história do Brasil, como as manifestações das jornadas de junho de 2013, por exemplo, ou o ataque às Torres Gêmeas, de setembro de 2001.Cenas célebres da guerra do Vietnam, entre outras, também são projetadas. Somos sempre pessoas de nossos tempos, do momento histórico em que estamos imersos, não apenas Freud e Mahler.

Voltando ao encontro de Freud e Mahler, Giuseppe Oristanio está ótimo encarnando um Freud maroto, perspicaz sem parecer que é, paciente, humano. Um Sigmund Freud extremamente interessado na natureza humana, nos processos psíquicos, no mistério de seu funcionamento, convicto de sua técnica e que se dispõe a quatro horas seguidas de tratamento (o que Mahler considera ser apenas uma conversa) para não apenas “curar” o “paciente”, como para comprovar suspeitas teóricas, indagações filosóficas, questionamentos metapsicológicos.

A neurose de Mahler e o espírito genial de Sigmund Freud na peça "Freud e Mahler" | Críticas | Revista Ambrosia

 

É esse Freud simpático e irônico, um pouco cômico na medida do possível, que torna o espetáculo leve e delicioso. É também muito compatível com o Freud dos textos a que temos acesso. Não que Freud seja um piadista, propositalmente engraçado, mas é possível rir de várias de suas passagens, assim como é possível acompanhar o vaivém de seu pensamento, o quanto ele pensa e repensa seus argumentos, o quanto é capaz de mudar a teoria uma vez que a prática não corresponde àquilo que escreveu, e também sua extrema sinceridade, que surge não apenas aí como também, por exemplo, nos relatos dos sonhos presentes nos dois volumes do clássico A interpretação dos sonhos.

Aí, o pai da psicanálise analisa os próprios sonhos e, portanto, abre sua vida pessoal e psíquica ao leitor, com passagens espantosamente sinceras, inclusive sobre o uso da cocaína (evocado na peça em dois breves momentos, antes e depois do encontro com Mahler) e a possível morte de pacientes devido ao seu uso, por ele prescrito. Quem gosta de psicanálise, quem gosta de Freud, quem até tem importantes e saudáveis críticas a uma série de seus apontamentos teóricos sem jogar fora o bebê com a água do banho, certamente vai gostar do Freud de Giuseppe Oristanio.

Por outro lado, Marcello Escorell, em seu desespero, também encarna um ótimo Mahler, por assim dizer, caquético, que tosse, que fica ofegante, que tem dificuldade para se levantar e para se sentar, que volta e meia se desespera mas que não tem sustentação física para esse desespero e acaba passando mal em seguida a cada uma de suas exaltações emocionais, que causa preocupação em Freud por seus gestos um tanto quanto doentios e que, ao final – e essa é uma das melhores partes da peça – se recusa a pagar os honorários devidos a Freud.

Esse é um diálogo sensacional, espécie de sutil embate entre homens educados e civilizados, que encaminha a peça para o fim e que dá a Freud subsídios ainda maiores para seus achados sobre o aparelho psíquico e os tipos de neurose existentes. Um adendo sobre isso é o fato de que Mahler, ainda que valorize e seja grato ao encontro com Freud, não é capaz de perceber que ali houve um diferencial. Que aquela conversa não era uma conversa qualquer, mas uma talking cure. Que Freud estava, nada mais, nada menos, trabalhando (e pesquisando, claro). O que nos remete ao fato de que até hoje as terapias pela fala, sejam elas filiadas ao pensamento psicanalítico, sejam elas filiadas a outras vertentes teóricas, são menosprezadas e confundidas com conversa em mesa de bar. Nada mais equivocado. Nada mais atual.

No diálogo final em que Freud cobra a Mahler o pagamento da sessão estendida, Freud sai perdendo, do ponto de vista financeiro, mas sai ganhando do ponto de vista do pensamento. Soube transformar o calote em um achado sobre a mente humana e é capaz de rir disso: afinal, esse Mahler de Marcello Escorell custa a se decidir a encontrar Freud e quase desiste, em uma hesitação que o paralisa, é inundado por ruminações face a tudo, é sistemático com suas composições e com sua vida, tem uma leve (ou não tão leve) aversão ou distanciamento da vida sexual e, ao fim e ao cabo, evita se desfazer de uma parte de seu dinheiro para efetuar o pagamento devido àquele que o curou. Para quem sabe ler, um pingo é letra.

Cotação: Excelente (4 de 5)

Ficha Técnica

Texto: Miriam Halfim
Direção: Ary Coslov
Elenco: Giuseppe Oristanio (Sigmund Freud) e Marcello Escorel (Gustav Mahler)
Cenário: Marcos Flaksman
Vídeos: Thiago Sacramento
Iluminação: Paulo César Medeiros
Figurinos: Brunna Napoleão
Preparação Corporal: Marcelo Aquino
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Fotos e Arte Gráfica: Thiago Sacramento
Assistência de Direção: Bernardo Peixoto
Assistência de Produção: Mayara Voltolini
Produção Executiva: Isabel Braga
Produção: Maria Alice Silvério

Foto: Thiago Sacramento

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Publicado por Vivian Pizzinga

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