Ambrosia Críticas A peça 'Esperança na Revolta' traz esperança na arte, na cultura e nas lutas...

A peça 'Esperança na Revolta' traz esperança na arte, na cultura e nas lutas coletivas

Esperança na Revolta, espetáculo da Confraria do Impossível, grupo de teatro criado em 2009, traz esperança na arte. Isso porque consegue exprimir, primorosa e dramaturgicamente, variados ângulos da revolta, da violência, da resistência, da solidariedade, dos encontros bons e ruins, do coletivo e da luta. Por um lado, histórias vencedoras, como a da famosa Malala, laureada muito jovem com um Prêmio Nobel da Paz, mulher de força em um contexto impregnado de machismo e patriarcado. Por outro, tristeza: o conflito de Ruanda, os desdobramentos emocionais indeléveis de violações e estupros de mulheres e massacres que destruíram famílias e populações, ou a morte de Wesley, do Complexo da Maré.
O texto e a direção são de André Lemos e a direção de movimento e a preparação corporal são assinadas por Cátia Costa e Reinaldo Júnior. Cabe menção muito honrosa à excelente direção musical, que fica a cargo de Béa e André Lemos, às músicas, assinadas por AnarcoFunk e pela Confraria do Impossível, e aos arranjos e à pesquisa musical, assinados por Béa Felício, tendo o ritmo e a musicalidade um papel fundamental na peça inteira, que se baseia também no jongo, utilizando-se de muita percussão e voz durante todo o espetáculo. Para quem gosta, é um deleite. Para quem não gosta, impossível não passar a gostar.
O projeto de luz, de Rommel Equer, também faz diferença no espetáculo, trazendo uma ambientação acolhedora (apesar da temática difícil) e dando um tom de terra, de ligação com a concretude da vida e das mortes, que contribui para realçar o projeto estético da peça. Uma palavra sobre a orientação teórica de Simone Kalil também é importante, pois o espetáculo é, acima de tudo, histórico e repleto de atualidade. E os atores, que dispendem muita energia, mostram que a luta e a arte devem, obrigatoriamente, ser coletivos: Alex Nanin, Béa, Cátia Costa, Cláudia Bardot, Daniel Vargas, Lívia Prado, Nádia Bittencourt, Reinaldo Júnior e Tarso Gentil estão excelentes nos momentos de agrupamento de corpos, nas coreografias, nos dizeres que incomodam e chamam a si aqueles que ainda estão boiando em suas bolhas onde a temperatura é amena graças ao ar condicionado.

A peça intercala histórias que se passam em lugares muito distantes uns dos outros, continentes diversos, mas com algo terrível em comum: a guerra, a violência, a relação de dominação e poder, ou seja, “irmão matando irmão”, como diz o personagem de Ruanda, que é um tutsi que deve fugir do massacre promovido pela etnia hutu, orquestrado por interesses que habitam e comandam de lugares muito distantes de África. As guerras imperialistas do início do século, atualizadas hoje em dia em guerras híbridas (assista às entrevistas do jornalista Pepe Escobar sobre o tema) são o que traçam os itinerários de morte e as diásporas que vêm acontecendo no mundo inteiro, sob as barbas da ONU. A guerra entre as etnias tutsi e hutu, de 1990 a 1994, tomou as páginas dos jornais impressos, quando as redes sociais nem existiam e a internet ainda era um luxo para poucos (ao menos do lado de baixo do mapa-múndi tal como é representado atualmente).
O mundo acompanhou o horror em Ruanda sem fazer muita coisa que prestasse (não, não é possível contar com a ONU e, para usar mais uma frase do espetáculo que vale para todos os combates, todas as guerras, todas as discórdias, todos os desgovernos ilegítimos, todas as fraudes eleitorais, todos os racismos explícitos na boca de parlamentares e presidentes eleitos de países ditos periféricos, tudo isso é permitido porque, afinal, “você não sabe de onde vêm os interesses?”).
Irmão matando irmão na Alemanha nazista (assim como hutus queriam saber, em um momento da peça, se havia outros hutus escondendo tutsis, os nazistas queriam saber se havia alemães que não eram judeus escondendo judeus), irmão matando irmão na Armênia, irmão matando irmão nos Estados Unidos, irmão matando irmão na Bósnia-Hezergovina, irmão matando irmão no Brasil, irmão matando irmão na Síria, irmão matando irmão no Vietnã, hoje, ontem, hoje, amanhã, hoje, até quando?

Malala, Paquistão, Ruanda e o drama de Wesley com o Sargento Aguiar, no coração do Rio de Janeiro: Maré. Neste último caso, mais uma vida negra que importa e que é matada sem que muito se possa fazer, sem que algo se explique, sem que alguma palavra seja dita. Tal como foi a morte de Marielle Franco, em 14 de março de 2018, vereadora do Rio de Janeiro a quem o espetáculo homenageia. É brilhante o momento da exploração da mídia, da repórter caricata que conversa com a mãe, do âncora que, como um urubu, explora o escândalo e repete dizeres cheios de violência, refestelando-se em seu gozo sádico diante da morte de mais um inocente (e mesmo que não o fosse, refestelando-se diante de mais um assassinato, justificando-o para plateia em cadeia nacional). O momento de maior impacto e força do espetáculo, eu escolheria se me fosse perguntado, é a fala dessa mulher para a repórter impertinente, a voz carregada de energia represada e emoção ao dizer que está cansada, está exausta, de perder filhos e do estrago que o homem faz em sua vida.
Como deixar de assistir a um espetáculo como esse, que, além de soberbo no que diz respeito à temática e à dramaturgia, cuidadoso em todos os seus aspectos técnicos, é contundente e necessário?

O único senão que apontaria é ser um espetáculo um pouco longo. As quase duas horas de peça poderiam contar com uma edição sem perder em nada a mensagem fundamental que transmite (e deve ter vida longa e espaço em todos os teatros possíveis da cidade). Cá comigo, pensei que o drama de Malala não faria tanta falta (ainda que seja importantíssimo no cenário mundial) e é o que menos reconhecimento promove. Além disso, já foi muito explorado por ter envolvido o Nobel da Paz, ao passo que Wesley é um assunto de pouca projeção, e Ruanda já não está mais nas páginas com o destaque de antes e merece ser rememorado. Mas como uma resenha sobre teatro é algo impregnado de subjetividade (como tudo na vida, inclusive a ciência), se fosse para editar, se essa ideia fizesse sentido, eu faria uma enquete entre as pessoas que viram e contabilizaria opiniões.
Por outro lado, o drama de Ruanda e o drama da Maré são os mais convincentes, são os mais plenos de vivacidade, sobretudo o da Maré, afinal, reconhecemo-nos na musicalidade, no sotaque, no hábito cultural que permeia a dança, os gestos, a vida, há reconhecimento até mesmo nos esquemas relatados pelo soldado, na injustiça cotidiana que circula pelas áreas menos favorecidas da cidade. Já sabemos do que se trata, mas ainda sabemos muito pouco. É, nesse sentido, o drama mais bem feito e mais impactante.
Porém, a história do genocídio em Kigali, Ruanda, que ocasionou o obrigatório Hotel Ruanda (2004, Terry George), também se apresentou mais convincente e cheio de força. Talvez tenhamos mais proximidade com África do que com o Oriente Médio, ou isso tudo é pura questão de gosto pessoal por trechos específicos do espetáculo, mas, o que importa dizer é que se fosse um pouco mais curto, Esperança na Revolta seria ainda melhor e mais arrojado (pela concentração de forças em menos histórias), do que já é.

Serviço

Terreiro Contemporâneo
Sala Chico Xavier
De 23 de novembro a 09 de dezembro
Rua Carlos de Carvalho, 53, Centro
Sextas e sábados às 20h / Domingos às 19h
R$ 20 (inteira), R$ 15 (lista amiga), R$ 10 (meia)
 

FICHA TÉCNICA

CONCEPÇÃO E DRAMATURGIA: Confraria do Impossível
SUPERVISÃO GERAL: Hilton Cobra
SUPERVISÃO CÊNICA: Vilma Melo
SUPERVISÃO DRAMATÚRGICA: Rodrigo França
TEXTO E DIREÇÃO: André Lemos
ELENCO: Alex Nanin, Beà ,Cátia Costa, Cláudia Barbot, Daniel Vargas, Lívia Prado, Nádia Bittencourt. Reinaldo Junior e Tarso Gentil
DIREÇÃO DE MOVIMENTO e PREPARAÇÃO CORPORAL: Reinaldo Junior e Cátia Costa
DIREÇÃO MUSICAL: Béa e André Lemos
ASSISTENTE DE DIREÇÃO: Camila Barra e Médrick Varieux
ORIENTAÇÃO TEÓRICA: Simone Kalil
PROJETO DE LUZ: Rommel Equer
MÚSICAS: AnarcoFunk e Confraria do Impossível
ARRANJOS e PESQUISA MUSICAL: Béa Felício
STAND-INs: Ariane Hime, Juciara Áwô Tati Vilela e Wayne Marinho
CENÁRIO: Tarso Gentil
FIGURINOS: Caju Bejerra
ACESSÓRIOS: Rubens Barbot
DESIGN GRÁFICA: Maria Júlia Ferreira
AUDIOVISUAL: Rizza Habitá
FOTOGRAFIA E TEASERS: Rizza Habitá e Leandro Cunha
ASSESSORIA DE IMPRENSA: Laís Monteiro
INTERCÂMBIOS ARTÍSTICOS: Mariama Bah (Gâmbia), Lisa Josefsson(Suécia), Doris Niragire (Ruanda)
OPERADOR DE LUZ: Beto Corrêa
OPERADORA DE SOM E AUDIOVISUAL: Rizza Habitá
PRODUÇÃO: Confraria do Impossível
SUPERVISÃO DE PRODUÇÃO: Paulo Mattos
PRODUÇÃO EXECUTIVA: Beth Lopes, Tati Villela e Wayne Marinho
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: André Lemos e Reinaldo Junior
PARCERIA: Terreiro Contemporâneo e Escola de Teatro Martins

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