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Esse Vazio, com belo texto de Juan Pablo Gómez e ótimo elenco, no Teatro Gláucio Gill

Três homens, Hugo, Lucas e Max, amigos de infância, se reencontram em sua cidade de origem, onde dois deles ainda moram, trabalham e tentam levar suas vidas. É o velório de um amigo de infância, Matias. Estão no vestiário do clube onde tudo se passa, com receio de transitar entre os demais, familiares e amigos de Matias, receio que parece ainda maior no caso de um deles, que saiu da cidade e volta, agora, da grande São Paulo. Temos o retrato de um difícil reencontro.

Esse Vazio (Un Hueco, no título original), com texto do argentino Juan Pablo Gómez e direção de Sergio Módena, é uma peça sobre o desamparo. Ou sobre o questionamento de uma existência que não sabemos se tem algum sentido, ainda que não desistamos de correr atrás dele, de forjá-lo em cada oportunidade que aparece. Esse é o mote, entremeado pelas lembranças engraçadas que os três conseguem inserir nos intervalos de suas angústias.

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Sávio Moll, Daniel Dias da Silva e Gustavo Falcão interpretam esses três amigos e estão ótimos e equilibrados em suas respectivas atuações. Gustavo Falcão interpreta o personagem que saiu da cidade e para quem parece ser, a princípio, mais desconfortável voltar e estar ali. Ele parece ter valores supostamente mais maduros que os outros dois, ao se incomodar com a maneira como eles descrevem as características das mulheres por quem se interessam no velório. Está distante, geográfica e afetivamente, e voltar não parece ser a mais cômoda das tarefas.

Mas, à medida que o espetáculo avança, vamos percebendo o enorme vazio que constitui a vida dos outros dois, que ficaram na cidade, que não romperam com um destino que era dado. Um é dono de oficina, o outro trabalha em cooperativa, e quando descrevem suas andanças pela cidade, as histórias e a rotina que levam, percebe-se que o que têm em mãos nada mais é do que uma vida sem saída, de bifurcações ausentes, e que não há caminhos novos além daqueles que sempre foram percorridos. Há um momento particularmente angustiante em que o personagem interpretado por Sávio Moll relata sua rotina, que parece ser a mesma de todos os outros homens de sua idade que não formaram família: trabalho, cerveja com os amigos, joguinhos no computador e praticamente nada além disso, salvo uma ou outra quebra na rotina, que também é sempre a mesma e que, ao fim e ao cabo, não é quebra. Nessa descrição, a um só tempo engraçada e dolorosa, não há espaço para rupturas, não há o vislumbre de algo novo.

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O cenário, assinado por Cláudio Bittencourt, ajuda a criar uma atmosfera cinzenta, que sublinha esse vazio do título da peça. Trata-se de um vestiário frio, abandonado, velho, com uma nebulosidade que faz referência a certa opacidade que se pode pensar como a representação de uma vida opaca, de um destino opaco, onde os horizontes foram apagados do campo de visão. Mas, ainda assim, como mencionado no início deste texto, há diversos momentos em que o público solta boas gargalhadas com o diálogo e os trejeitos desses personagens, pois os atores conseguem balancear bem as doses de existencialismo desesperador (embora maquiado, senão a vida fica intransitável) e as doses de humor diante das próprias escolhas.

O espetáculo, que fica em cartaz até 13 de junho, é uma ótima oportunidade de conferir a primeira montagem brasileira desse belo texto.

FICHA TÉCNICA

Direção: Sergio Módena
Texto: Juan Pablo Gómez (em colaboração com Patrício Aramburu, Nahuel Cano e Alejandro Hener)
Tradução: Daniel Dias da Silva
Elenco: Gustavo Falcão, Daniel Dias da Silva e Sávio Moll
Cenário: Claudio Bittencourt
Figurinos: Victor Guedes
Iluminação: Tomás Ribas
Programação visual: Gamba júnior
Design do projeto: Antonia Muniz
Assist. Direção / Fotos de Divulgação / Stand-in: Daniel Moragas da Costa
Mídias Sociais: Rafael Teixeira
Direção de produção: Daniel Dias da Silva e Gustavo Falcão
Realização:  Territórios Produções Artísticas

SERVIÇO

Espetáculo: Esse Vazio
Temporada: De 7 de maio a 13 de junho de 2016.
Local: Teatro Glaucio Gill (Praça Cardeal Arcoverde s/n – Copacabana).
Informações: (21) 2332-7904 | 2332-7970
Dias e horários: Sábados, domingos e segundas, às 20h.
Capacidade: 102 lugares.
Duração: 60 minutos.
Classificação indicativa: 12 anos.
Gênero: Drama.
Ingressos: R$40 (inteira) e R$20 (meia).
Horários da bilheteria: De segunda a domingo, das 16h às 20h.

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