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‘Fale sobre mim’ será apresentado na Unirio com alunos da Escola Municipal Vera Lúcia Chaves da Costa

Transformar memórias, anseios e dores de estudantes da escola pública em arte. Esse é o objetivo da atriz, diretora e professora de Artes Cênicas Luiza Rangel que, junto com seus ex-alunos da Escola Municipal Vera Lúcia Chaves da Costa, no Conjunto Urucânia, localizado entre os bairros de Paciência e Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, formou um grupo de teatro.

No dia 14 de dezembro (sábado), eles apresentam o espetáculo “Fale sobre mim” na Sala Paschoal Carlos Magno, na UNIRIO. No elenco estão a professora e os alunos Analya Britney (13 anos), Brenda Laura Coelho (13), Caio Nunes (13), Lucas Reis (14), Maria Paula dos Santos (13) e Wilson Ruan (15).

O espetáculo surgiu dentro da escola que a artista-docente leciona desde 2017. No último ano, ela propôs um trabalho focado em Teatro Documentário e no uso de narrativas autobiográficas na cena a partir da escuta dos alunos. Ao final do ano letivo, a professora reuniu um grupo de estudantes que frequentemente demonstrava interesse em se aprofundar na linguagem do teatro para encontros semanais fora do horário de aula. A pesquisa com adolescentes se mostrou um solo fértil e, durante o processo de criação de “Fale sobre mim”, a professora Luiza também se colocou na experiência de criar uma cena autobiográfica. A ação dissolveu a hierarquia entre os alunos e a educadora já que ambos assumiram o exercício de compartilhar suas narrativas e expor sua história pessoal.

“O objetivo é convocar os estudantes a olhar as metáforas do mundo e a encontrar novos sentidos em seu cotidiano e em sua história de vida”, explica a professora Luiza Rangel. “Ainda existe pouca abertura para a experiência de escuta no espaço da escola.  Precisamos ouvir mais os alunos, suas famílias e valorizar suas contribuições. É importante proporcionar relações mais plurais, afetivas e humanas na escola”, defende a professora que, aos 27 anos, dá aulas para 580 alunos de 18 turmas do ensino fundamental.

Tendo como foco o trabalho com a memória, a autobiografia e o uso de arquivos em cena, a dramaturgia de “Fale sobre mim”, escrita pela professora e pelos alunos, está estruturada em dois atos. O primeiro é o ponto de vista da docente, suas impressões ao entrar em sala de aula, seu encantamento com a potência artística dos estudantes e também seu estranhamento diante de uma realidade árida e violenta. Já o segundo ato é a criação dos alunos, que tecem seu olhar sobre a adolescência, a escola, a família, a cidade, os sonhos e o tempo. O espetáculo traz também o olhar para um período de conflito pelo domínio de territórios entre grupos rivais, que assolou o conjunto Urucânia em 2018, uma região, até então, sem tantos relatos de violência. “Foi um período complicado e a escola chegou a fechar por dias. Isso afetou a vida de toda a comunidade. Tínhamos que falar sobre o que estava acontecendo. Eu precisava muito mais ouvir do que trazer propostas”, lembra a professora Luiza Rangel.

A partir daí, os alunos começaram a produzir textos e cenas, que foram costurados pela professora. “Além das narrativas oficiais, há os relatos dessas crianças da periferia, que têm pouco acesso aos equipamentos culturais, mas que estão produzindo com muita potência artística. Eu olho para a escola e vejo uma incrível pulsão de vida, alegria e potencial artístico em meio ao caos. Parte do meu trabalho é mostrar para os alunos que o teatro também é lugar deles, que o que eles fazem não é algo menor. A história desses jovens reflete uma questão mais ampla, que é social, cultural e econômica; por isso é importante de ser contada sob o ponto de vista deles”, diz a professora.

Para os alunos, o espetáculo “Fale sobre mim” é como um desabafo. Maria Paula, por exemplo, leva para a cena relatos e reflexões sobre racismo. Já Brenda, durante o processo criativo, começou a investigar suas origens, assunto que até então a deixava em dúvida. Wilson considera que montar a peça foi uma oportunidade de conhecer as diferentes histórias dos amigos, identificar-se e sentir empatia. Estar em cena é a melhor coisa que aconteceu na vida de Caio e ele acha que a professora Luiza é uma amiga especial, que extrai o melhor de cada aluno. Analya cita Frida Kahlo, artista que conheceu nas aulas de Artes. Lucas se lembrou de seu avô e do papel determinante que teve em sua vida, como um segundo pai.

“Lembrar é um ato de resistência pois não se pode separar a história pessoal da história social. Lembramos para não deixar que esqueçam a história do sujeito comum, do morador de Urucânia, do professor e do aluno(a) de escola pública. É importante trazer o nosso ponto de vista sobre a cidade, já que as narrativas oficias são sempre centralizadas demais. Falar de si é um ato político e poético”, finaliza a professora.

SERVIÇO

“Fale sobre mim”
Apresentação: 14 de dezembro (sábado), às 16h.
Local: Sala Paschoal Carlos Magno – Palcão da UNIRIO – Av. Pasteur, 436, fundos, Urca. Telefone: (21) 2542-2717.
Duração: 60 min. Capacidade: 96 lugares. Classificação etária: livre.
Entrada gratuita – distribuição de senhas a partir das 15h30

FICHA TÉCNICA

“Fale sobre mim”
Concepção e direção: Luiza Rangel
Orientação: Rosyane Trotta
Elenco e dramaturgia: Analya Britney, Brenda Laura Coelho, Caio Nunes, Lucas Reis, Luiza Rangel, Maria Paula dos Santos e Wilson Ruan.
Desenho sonoro: José Ricardo Neto.
Preparação Vocal: Verônica Machado.
Projeto Gráfico: Davi Palmeira.
Figurinos, cenário, iluminação e projeções: Luiza Rangel.
Assessoria de Imprensa: Catharina Rocha – Máquina de Escrever Comunicação.

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