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Meditação, experiências psíquicas e afetação em "Tchekhov é um Cogumelo"

Se quiséssemos resumir em duas palavras o espetáculo Tchekhov é um Cogumelo, diríamos que a peça é beleza e curiosidade. De fato, estamos diante de um apanhado de experimentos e linguagens que despertam grande interesse e prendem a atenção do espectador logo de início.
O diretor, André Guerreiro Lopes, traz um capacete de eletrodos que captam o funcionamento de suas funções cerebrais ao vivo, no momento mesmo da apresentação. Ele nos introduz à ideia e àquilo que fará no palco, antes de o cerne do espetáculo começar, e conta ao público o conhecimento travado com a Monja Coen, do zen budismo, e a experiência de prática de meditação por ele vivida. Coloca-se em um dos cantos do palco, senta-se em posição de meditação e, sim, começa a meditar. A partir daí, essas funções cerebrais são transformadas em impulsos elétricos que “acionam ao vivo uma instalação sonora e visual criada pelo músico Gregory Slivar” (conforme texto do release), e, espantosamente, os sons são produzidos nas bacias com água, dispostas na frente do palco, tudo em tempo real e com os espectadores assistindo.
Meditação, experiências psíquicas e afetação em "Tchekhov é um Cogumelo" | Críticas | Revista Ambrosia
A dramaturgia propriamente dita tem início então, mas já estamos todos (ao menos eu estou) encasquetados: como assim os sons que acontecem nas tais bacias promovem aqueles ruídos a partir da vida cerebral/mental do diretor da peça? Trata-se de mágica? De efeito especial? Ou seria mera coincidência, difícil de ser reproduzida em todo o espetáculo ao longo da temporada e com a sincronia necessária em um mesmo espetáculo? Essa é a grande curiosidade que a peça promove, que faz com que nos indaguemos internamente (ao menos eu fiz isso) como André Guerreiro Lopes consegue esse nível de experiência meditativa e serenidade a ponto de estar ali, ao lado do que se desenrola no palco, sem praticamente mover um músculo, com as costas eretas, como se não quisesse dar uma espiadinha de esguelha no desempenho dos atores, no funcionamento da coisa toda, nas possíveis reações da plateia? As respostas às várias perguntas que vêm à mente são difíceis de encontrar, mas uma coisa parece certa: a peça já faz com que aqueles que gostem de meditar e não o fazem há algum tempo tenham vontade de voltar a fazê-lo e se inspirem para o ato.
À parte o momento inicial, temos a peça em si, que, livremente inspirada em e com extratos de As Três Irmãs de Tchekhov, traz belíssimas composições visuais das atrizes Helena Ignez, Djin Sganzerla e Michele Matalon. Completando o elenco, Roberto Moura, Samuel Kavalerski e Fernando Rocha dão viço às questões existenciais que transitam pelas falas e gestos dos personagens, que parecem presos em si mesmos, em sua cidade, em seus destinos, engessados em suas vidas. Como sugere a primeira cena, as três irmãs parecem cegas ou cegando-se mutuamente, ou não conseguem enxergar o que de fato gostariam de ver e que é exatamente o além de seu mundo imediato, rotineiro e monótono. Tudo a ver com a questão meditativa, que corre paralela às cenas.
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A circularidade da vida e de um quotidiano sem rupturas, maçante, é encenado por intermédio de repetições e automatismos que acontecem entre eles, como se, numa mesa do último bar aberto de uma cidade, qualquer cidade, seus frequentadores se deixassem levar por absolutamente nada, apenas pela preguiça de não saber o que fazer e para onde ir quando, enfim, decidirem ir. Há, no avançado da peça, uma bela cesta com piões que traz encantamento mesmo aos que nunca brincaram com esses brinquedos tão belos; a cena pode ser ainda pensada como uma referência estética a essa inescapável circularidade.
A iluminação de Marcelo Lazzaratto merece destaque na composição dos belos quadros humanos que se revelam aos poucos para a plateia. Simone Mina, que assina, por sua vez, cenário e figurinos, também faz um belo trabalho, ajudando na composição dramatúrgica, que se soma à bela entrevista com Zé Celso, de 1995, a qual faz referência às estações do ano, às fases da vida e aos elementos (fogo, ar, madeira) e que é projetada sobre uma tela fina, intercalando-se com as cenas e falas do elenco.
Meditação, experiências psíquicas e afetação em "Tchekhov é um Cogumelo" | Críticas | Revista Ambrosia
E Zé Celso fala especificamente da experiência com alucinógenos em sua montagem de As três irmãs, sem fazer a defesa (menos ainda a condenação) de seu uso. Atualmente, temos começado a saber, aos poucos – e o texto inicial da peça também nos ensina -, que experimentos com substâncias psicodélicas têm sido feitos para o tratamento de alguns transtornos mentais severos, como a própria depressão. Assim, é-nos dado o exemplo da psilocibina, que sabemos por outras fontes (que não a peça) que se trata de uma das substâncias usadas com psicoterapia assistida em alguns casos, e qualquer um que comece a buscar um pouco mais na internet sobre o tema verá que, de fato, alguns estudiosos do assunto têm feito tais pesquisas ou, ao menos, têm lutado para tentar efetivá-las, dado que é quase impossível produzir conhecimento com substâncias proscritas (quem quiser saber mais, Luís Fernando Tófoli, psiquiatra brasileiro, já entrevistado inclusive pelo mestre do teatro, Antônio Abujamra, em seu saudoso programa Provocações, tem pesquisas e entrevistas disponíveis sobre o assunto do uso de substâncias).
Enfim, temos aí a ciência e suas barreiras, seus limites, suas fragilidades ou, para resumir, suas óbvias relações com a cultura/o contexto/a moral de uma época e a igualmente óbvia distância da neutralidade, distância esta que lhe é constituinte mas a qual nega, tantas e tantas vezes. Por isso, a arte (e, neste caso, a literatura e o teatro) assume o comando: para apontar, também com a filosofia, os caminhos que a ciência não pode ainda, fracassa em ou se nega a percorrer.
E é disso tudo o que o espetáculo trata direta ou indiretamente: a experiência psíquica e sua relação com o mundo material, as ondas cerebrais e suas manifestações fora do cérebro, o quanto podemos ou não podemos nos dedicar a experiências diversas (a arte, a meditação, a religiosidade, a criatividade, o uso de substâncias prescritas ou proscritas, lícitas ou ilícitas) que nos trazem novas ideias, sentimentos, afetos ou quaisquer outros estados mentais ou psíquicos. Tudo isso nos produz contínua afetação, mas nem tudo está ao nosso alcance, nem tudo nos é permitido. Além disso, ao final, sempre restará a pergunta: nessas experiências todas, quaisquer que sejam elas, arte, meditação, teatro, é o cérebro o grande protagonista? Ou ele é uma marionete do que alguns chamam de mente? Quem vem antes: o ovo ou a galinha? Ovo e galinha seriam a mesma coisa?
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Por trazer, estética e dramaturgicamente, menções importantes (e diagonais) a esse debate, o espetáculo já vale muitíssimo a pena, produz reflexão e desperta a curiosidade. No entanto, poderia ser um pouco mais curto, uma vez que os trechos retirados da obra de Tchekhov precisam de um conhecimento anterior que, se ausente, torna alguns momentos da encenação cansativos e herméticos. Pelo apanhado e recorte de linguagens, fica ainda mais difícil acompanhar algumas das ideias extraídas de As três irmãs, perdendo-se um pouco seu sentido inicial. Meia-hora a menos tornaria tudo muito mais interessante.
Por outro lado, a cena final, em que os músicos entram no palco com sua batucada bem brasileira (isso não é spoiler), é algo que fica desconectado de todo o resto. Sim, a música também é uma experiência e tanto, porém, a coesão e a sutileza de tudo o que é proposto anteriormente parece não ter nada a ver com a conclusão que se apresenta ao público. Temos a delicadeza das três irmãs, um texto cuidadoso, uma iluminação que salienta o que é importante e que aquece, temos inclusive uma meditação acontecendo simultaneamente a tudo isso, e temos Zé Celso. Em que, afinal de contas, a batucada do término se liga a esses aspectos? A Zé Celso, talvez? Ainda que sim, a percussão, embora bonita e bem executada, ficou deslocada e excessiva, retirando a oportunidade de um final mais interessante e à altura do início do espetáculo.
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Ficha técnica:

Direção, Concepção e Adaptação: André Guerreiro Lopes
Texto: Extratos de “As Três Irmãs” de Anton Tchekhov
Elenco: Djin Sganzerla, Helena Ignez, Michele Matalon, Roberto Moura (cantor), Samuel Kavalerski e Fernando Rocha (dançarinos) e André Guerreiro Lopes
Cenário e Figurinos: Simone Mina
Direção Musical e Instalação Sonora: Gregory Slivar
Iluminação: Marcelo Lazzaratto
Assistente de Direção e Direção de Cena: Rafael Bicudo
Projeções: André Guerreiro Lopes
Fotografias: André Guerreiro Lopes
Preparação Vocal e Músicas Tradicionais: Roberto Moura
Direção de Produção: Djin Sganzerla / Estúdio Lusco-Fusco Produções Ltda.
Produção Rio: Sandro Rabello/Diga Sim! Produções

Serviço:

Tchekhov é um Cogumelo
Temporada:  De 20 de junho a 22 de julho.
Centro Cultural Banco do Brasil / Teatro I: Rua Primeiro de Março, nº 66 – Centro – Rio de Janeiro
Telefone: (21) 3808-2052
Dias e horários: Quarta a domingo, às 19h.
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).
Lotação: 172 lugares
Duração: 1h30
Classificação indicativa: 14 anos

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