Uma Intervenção, espetáculo do dramaturgo inglês Mike Bartlett com direção geral de Clarissa Freire, tradução original de Amanda Vogel e tradução adaptada de Ana Beatriz Figueras, já começa arrojado, através da força imagética e sonora que a luz e a percussão de tambores e alfaias conferem ao espetáculo, perpassando-o do início ao fim, marcando, tal percussão, os momentos tensos, sublinhando mais fortemente as palpitações que os diálogos provavelmente provocam nos interlocutores que se apresentam no palco.

O cenário de Teca Fichinski e a iluminação de Paulo Cesar Medeiros são, portanto, fundamentais para o arrojo com que a peça nos brinda logo em seu começo, com impacto visual inegável, pois tudo se apresenta de modo avermelhado, quase que o tempo inteiro, no tom da paixão e do sangue. Porque é de paixão e de sangue que se trata o espetáculo, ao falar de afetos e de uma possível guerra que uma intervenção de um país sobre outro acaba por gerar.

No elenco, Gabriel Sanches e Pedro Yudi travam uma discussão de relação que não tem fim, que não parece acabar e que vai se tornando cada vez mais tensa, chegando a um ápice. Ludimila D’Angelis marca os tempos das emoções através de toques veementes nas alfaias e nos tambores dispostos no palco, que traz uma espécie de armação de construção que a coloca no alto, como uma deusa que a tudo observa e supervisiona, e que também dá o tom, literalmente falando, da tensão dos diálogos e discussões, algumas delas adquirindo expressão corporal (quando a palavra não dá conta das emoções, o empurrão assume uma função de descarga emocional perigosa para uma relação de amizade). Definitivamente, não há como dormir em “Uma Intervenção”.

Os amigos têm posicionamentos diferentes sobre uma intervenção em outros países, no sentido mais imperialista do termo (uma vez que se trata de um dramaturgo inglês, é possível fazer essa leitura). Enquanto um é a favor da intervenção, o outro discorda radicalmente, e a amizade de ambos está em jogo, mas outros elementos se acrescentam à tensão que a discussão política traz.

Apesar de dramaturgia inglesa, é de se ficar boquiaberto vendo a similaridade com o caso brasileiro, as polaridades criadas, mas aqui a discussão que tomou conta de todos era relacionada às eleições. Quantos memes e brincadeiras de Facebook não surgiram sobre como seria o natal em família (ou sem família) a partir das discussões e rompimentos ocorridos no segundo semestre do ano que passou (sobretudo) por causa das escolhas eleitorais de familiares, amigos, colegas?

No caso de Uma Intervenção, o mote principal da discussão é uma intervenção militar de um país em outro, o que pode ocasionar mortes, se a coisa toda toma forma de confrontos militares, e coloca em xeque a soberania de países, e a discussão acerca do conflito na Venezuela, atualmente, nos mostra que realmente há semelhanças notáveis entre a dramaturgia inglesa e o caso brasileiro. Mas, além de geopolítica mencionada, há também um grande afeto em curso na discussão, além de ciúmes exacerbados e críticas mútuas quanto a comportamentos e escolhas amorosas.

Aos poucos, aquele que era a favor da intervenção vai caindo em si e evitando certos contatos para evitar, por conseguinte, a consciência do próprio posicionamento político e a conexão desse posicionamento com a própria vida e os afetos do personagem. Mas, como dito lá em cima, trata-se mais de afeto do que de política, ou de uma política permeada de afetos. Porque talvez não possa haver política sem afetos, e as escolhas afetivas de cada um intervêm necessariamente no outro, ou seja, o que fazemos de nossas vidas não deixa de ser uma intervenção sobre a vida dos outros, quer queiramos ou não, quer isso aconteça de forma mais direta ou não. E é por isso também que é acertada a iluminação predominantemente vermelha da peça, uma vez que estamos falando de muito afeto e do sangue que pode vir a ser derramado a depender das escolhas políticas de um país sobre o outro.

O arrojo avermelhado do espetáculo Uma Intervenção
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