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‘Os Sapos’ mostra a dependência emocional entre dois casais

O espetáculo Os Sapos encerrou mais uma temporada, dessa vez no Teatro Maison de France, no Rio, onde ficou por duas semanas. Há seis anos no Brasil, a peça, que traz texto de Renata Mizrahi e direção da autora e de Priscila Vidca, gira em torno de um dia no campo, na casa de Marcelo e Luciana, que recebem Paula, a amiga de infância dele e recém-separada. Ainda fazem parte da trama o estranho casal de amigos/vizinhos, Claudio e Fabiana. Os cinco personagens são interpretados por Fabricio Polido, Gisela de Castro, Paula Sandroni, Ricardo Gonçalves e Verônica Reis.

Além de um percurso interessante na cena teatral, Renata Mizrahi adaptou parte de Os Sapos, em 2010, para um roteiro de curta-metragem, dirigido por Clara Linhart, ganhando o prêmio de Melhor Filme do Festival Curta Copa, em 2011, tendo sido adquirido pelo Canal Brasil, em 2013. A obra, que tem como inspiração o texto de  Deus da Carnificina, de Yasmina Reza, agora tem filmagens marcadas para 2020, com projeto de virar um longa-metragem dessa vez.

 

O que há de mais interessante na trama é como a chegada de um elemento estranho, uma pessoa de fora, alguém que não faz parte de um conjunto de relações habituais entre duas pessoas, pode reverter o equilíbrio precário, embora eficiente, dessas mesmas relações. Eficientes aqui no sentido de manterem os laços afetivos unidos, ainda que indiquem dependência emocional e psicológica, ainda que indiquem sofrimento. Aliás, falando em dependência emocional e psicológica, nunca é demais lembrar que alguns psicanalistas apontam que o que mantém os casais protegidos de uma dissolução é a junção – ou o encaixe – de duas neuroses, a neurose de um complementando a neurose do outro e vice-versa.

No caso de Os Sapos, Marcelo convida a amiga de infância, que atravessa um mau momento da vida por ter se separado há uma semana, e que poderia se beneficiar de um fim de semana longe da cidade grande. Luciana, a esposa de Marcelo, estranha a empolgação do marido pela iminente chegada da amiga, que enfim aparece entusiasmada com a possibilidade de mergulhar, de se afastar da cidade, de se distanciar dos problemas.

O ciúme da esposa faz com que ela procure cercar o marido o tempo todo, que, por sua vez, não evita o contato físico e a proximidade corporal com a amiga. Esta última vai percebendo que algo não está funcionando do jeito que deveria e, nesse jogo de relações, forma-se um trio, cujas tensões terão de ser o tempo todo contornadas, disfarçadas ou camufladas.

Mas, além desse trio tortuoso, Cláudio, o músico, e sua esposa, também se juntam ao grupo no decorrer do dia para ver o jogo e fazer uma fogueira à noite, e as tensões aumentam e passam a ficar escancaradas. Neste caso, Fabiana, a mulher de Cláudio, vê na forasteira uma pessoa em quem se inspirar e a quem admirar, tornando-se, a forasteira, uma ameaça para Cláudio.

A peça saiu de cartaz mas pode voltar, então não é possível falar muito mais para não dar spoiler, no entanto o que vale acompanhar é como, de uma hora para a outra, as relações evidenciam o tanto de aparência que carregam, o tanto de tormento que encobrem e o tanto de vontade de ruptura que mantêm sob controle. Ou seja, o tanto de fragilidade que constitui seu cerne.

Paula, a amiga que vem de fora, é uma ameaça para os dois casais. Há uma ruptura iminente em ambos, e talvez a ruptura iminente, ainda que não verbalizada, seja uma presença constante em todo e qualquer casal. Essa ruptura – esse desvio – pode ou não se concretizar, e a chegada de uma pessoa de fora pode disparar essas rupturas iminentes, o desejo de mudança que cada um carrega.

Na peça, fica então nítido que um elemento estranho pode mesmo ameaçar todas as defesas que são construídas para que as relações se mantenham, mesmo que esse elemento estranho de nada saiba e de nada desconfie, que nada tenha planejado. Apenas o fato da sua presença pode catalisar tempestades afetivas tão intensas quanto impensáveis, e é aí que segredos são revelados, brigas são precipitadas, ameaças são verbalizadas e um clímax absurdo toma lugar, afinal, a amiga do primeiro casal encarna o pólo oposto daquelas relações engessadas: ela teve coragem de promover a ruptura em sua própria vida, de conferir mobilidade aos seus afetos, mesmo a contragosto, mesmo sofrendo, mesmo desejando outra coisa. Ela está se esforçando para sustentar sua decisão e não tem sido fácil.

Ao fim e ao cabo, não se pode deixar de constatar que todos são humanos, demasiado humanos, e que romper relacionamentos, dar guinadas na vida, assumir os próprios desejos para si e para o mundo são decisões difíceis de serem tomadas e sustentadas, mesmo que o pior tenha sido dito, que feridas tenham sido cutucadas e que a saída seja logo ali. Escolhas que implicam perdas imediatas visando um upgrade futuro na vida afetiva, emocional, psíquica, psicológica e/ou relacional podem roçar o gesto e a ação, mas não significa necessariamente que irão se concretizar.

Cotação: Muito bom (3,5 estrelas de 5 estrelas)

 

Ficha técnica

Texto: Renata Mizrahi
Direção: Renata Mizrahi e Priscila Vidca
Elenco: Fabricio Polido, Gisela de Castro, Paula Sandroni,
Ricardo Gonçalves e Verônica Reis.
Stand in: Priscila Vidca
Cenário: Nello Marrese e Lorena Lima
Iluminação: Renato Machado
Figurino: Bruno Perlatto
Trilha Sonora: Marcelo Alonso Neves
Fotos: Adil Guedes, Ricardo Brajterman e Clara Linhart
Operador de Som: Priscila Vidca/ Renata Mizrahi
Operador de Luz: Rodrigo Bispo
Assessoria de Comunicação: Rachel Almeida (Racca Comunicação)
Programação Visual: Leandro Carvalho
Direção de Produção: Sandro Rabello
Realização: Renata Mizrahi e Diga Sim Produções

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