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Peça "Minha" traz reflexões sobre a vida, a morte e o amor

Em cartaz no Teatro Dulcina, Minha” é um texto inédito de Wilson Sayão que traz agora direção de Fátima Leite e supervisão de Amir Haddad. O monólogo foi escrito na década de 1990. Osvan Costa interpreta o marido que acompanha, em visitas periódicas, sua esposa em coma no hospital, e a peça se passa toda ali, no quarto onde ela jaz silenciosa e adormecida, numa dessas visitas vespertinas. O texto é intercalado com canções como ‘Minha’, de Francis Hime e Ruy Guerra, música que dá título à peça.
Deitada na cama, Cynthia C. lá permanece durante todo o espetáculo, sem se mover, enquanto Osvan fala com ela, gira em torno de sua cama, dança com um vestido antigo seu, deposita uma flor em seu colo, enquanto tece reflexões que se originam do contexto de finitude e despedida iminente. Esse mote, aliás, é sensacional e necessário: o processo de desligamento que se faz aos poucos, a vida a dois que deve ir sendo desmontada paulatinamente, que dá chance a memórias e a pensamentos mais sofisticados sobre a própria existência, sobre as escolhas que fizemos e as que ainda faremos, que oferece uma oportunidade para uma revisitação de si.
O espetáculo começa com a chegada do marido ao quarto onde a esposa está internada. Ele vem de um almoço no trabalho e se mostra queixoso pelo fato de ter sido obrigado a participar de mais um encontro constrangedor com pessoas com quem não possui afinidade, assinalando ainda que sua felicidade, em ocasiões como essa, vai depender de quem senta à sua frente, à direita e à esquerda.
 
Peça "Minha" traz reflexões sobre a vida, a morte e o amor | Críticas | Revista Ambrosia
Discorrendo sobre a sucessão de desconfortos do almoço de trabalho, fala sobre uma conversa em que todos buscavam que definição cada um poderia dar de amor. O protagonista, crítico desses almoços e sabedor de sua dificuldade de socialização, foi o primeiro sobre o qual a pergunta recaiu. Mas o amor, ele diz ao final de suas reflexões endereçadas à esposa silente, é o nome da pessoa que você lembra quando pensa na palavra amor ou na ideia de amor. E esse é um dos pontos mais belos da peça, por residir exatamente na reflexão sobre o que é isso que sabemos que acontece, que nos acontece sem que tenhamos a menor dúvida, mas que não encontramos palavra para elucidar, e que o protagonista define brilhante e poeticamente.
O texto vai, então, caminhando pelas veredas das lembranças, do incômodo consigo mesmo, do que o protagonista foi capaz de dizer e sentir ao longo da vida a dois, o que ele, por outro lado, não foi capaz e gostaria de poder dizer agora, seu sentimento de abandono, uma vez que os filhos parecem não dar a devida atenção à situação da mãe, internada no hospital por tempo indefinido.
O texto é interessante exatamente por fazer pensar nessas questões com as quais nem sempre queremos nos deparar, mas que, em situações como doença e morte, somos obrigados a ver, isto é, não há mais adiamento possível. E a esposa inerte é testemunha do processo de elaboração que se faz nessas visitas diárias: ela nada diz, mas as elucubrações que ali se deslindam só existem por sua causa, porque há a ideia de que, de algum modo, ela pode ouvir, mesmo que não possa responder; e não apenas pode ouvir, como compreender, e compreender melhor do que qualquer outra pessoa. É a ideia de mútua compreensão o que permite que um diálogo (mesmo sem as respostas do interlocutor) aconteça.
O silêncio que dá lugar à fala do marido não é um silêncio qualquer, mas um silêncio privilegiado, ainda que triste, por envolver, paradoxalmente, uma separação, um distanciamento. A conversa sem resposta que acontece no quarto de hospital carrega esse misto estranho de ausência e presença, separação e aproximação, encontro e despedida, vida e morte, e é essa situação especial que pode dar ensejo a mudanças profundas e é responsável pela beleza da temática de Minha.
 
A cenografia, assinada por Fernando Mello da Costa, é também interessante: o público está no palco, com os atores, voltados para a plateia vazia do teatro, sentado em cadeiras que margeiam o cenário oblíquo, onde uma cama com um véu e a luz que incide sobre ela fazem parecer que o ambiente é de fato protegido e isolado de todo o resto, um núcleo precioso que se situa em outra dimensão temporal, longe das correrias e automatismos da vida cotidiana, dos almoços obrigatórios, das conversinhas chatas, das tarefas sem sentido, do barulho da cidade. De fato, a cenografia não remete a um quarto de hospital, mas ainda assim é adequado ao lirismo do texto, que requer ambientação de aconchego, para não ficar frio e inóspito demais.
Ainda que o texto seja belo e de conteúdo maduro, falta algum clímax ou dilema, algo inesperado (seja no que tange à dramaturgia em si, seja ao próprio texto), que valorize a dramatização que se desenrola no palco, que aproveite ainda mais a riqueza da proposta, que arrebate um pouco mais e que ofereça reverberação para depois do espetáculo.
Peça "Minha" traz reflexões sobre a vida, a morte e o amor | Críticas | Revista Ambrosia
Ficha Técnica:
Texto WILSON SAYÃO
Direção FÁTIMA LEITE
Elenco OSVAN COSTA
Supervisão AMIR HADDAD
Iluminação AURÉLIO DE SIMONI
Cenografia FERNANDO MELLO DA COSTA
Figurinos LILIAM BUTINI
Coreógrafo TONI RODRIGUES
Preparação vocal JAQUELINE PRISTON
Direção de produção RAFAEL FLEURY
Coordenação de projeto OSVAN COSTA
Operação de luz CRIS FERREIRA
Operação de som RAFAEL FLEURY
Iluminador assistente GUIGA ENSA
Contrarregra THIAGO DE ASSIS
Programação visual WELLINGTON SOUZA
Ilustração GILBERTO NASCIMENTO NETO
Fotografia still SERGINHO CARVALHO
Consultoria, pesquisa e colaboração musical ALESSANDRO PERSAN
Assessoria de imprensa LU NABUCO ASSESSORIA EM COMUNICAÇÃO
Realização RIQUIXÁ INVENÇÕES ARTÍSTICAS
 
Serviço:
Temporada: de 9 de junho a 8 de julho de 2018
Horário:  Quarta a domingo, às 19h
Local: Teatro Dulcina –  Rua Alcindo Guanabara 17 – Cinelândia
Bilheteria: quarta a domingo, das 14h30 às 19h.
Tel: (21) 2240-4879
Ingressos: quartas populares – R$10,00
quinta a domingo – R$40,00 (inteira) / R$20,00 (meia)
Capacidade: 80 lugares
Gênero: Drama
Duração: 60 minutos
Classificação: 14 anos

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