Neblina
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Um jeito só deles de lidar com a saudade (sobre a peça Neblina, em cartaz no CCBB-RJ)

Qual não foi minha alegria ao poder voltar ao teatro após exatos 17 meses? A oportunidade me veio com esse espetáculo, Neblina, que, após a estreia em janeiro de 2020, no CCBB de Belo Horizonte, teve de ficar de quarentena por ainda mais meses, até que agora, com protocolos especiais e cuidados pandêmicos (lotação de até 40% do total de lugares e distância de dois assentos entre uma pessoa e outra, o que é bastante estranho a princípio, mas que, ao fim e ao cabo, é também mais confortável para a plateia), volta à cena, dessa vez no CCBB- RJ.

O trabalho foi idealizado pelo ator Leonardo Fernandes, que, junto com a produtora Tatyana Rubim e texto inédito de Sérgio Roveri, contracena com a atriz Fafá Rennó, sob a direção de Yara de Novaes, um drama tenso, a princípio enigmático, mas cheio de beleza e dor do início ao fim.

O cenário, de André Cortez, conta apenas com um objeto de cena que é uma espécie de globo suspenso, envolto em um material que remete a um pedregulho, com sua superfície irregular, e dá espaço aos movimentos dos atores, intensos, sob a preparação corporal de Eliatrice Gischewski e a belíssima luz de Wagner Antônio. Assim, focamos no texto, na história que vai se costurando de modo sutil e não linear, e na dramaturgia que se faz através de corpo e som, elementos em constante diálogo com a iluminação. Aliás, a luz é um espetáculo à parte e assume protagonismo, ao lado, evidentemente, de atriz e ator, uma vez que esse diálogo, no caso de Neblina, assume um importante papel dado que a peça não aborda diretamente o núcleo que move a trama pelo fato de que esse núcleo remete ao impalpável.

De início, não sabemos quem são Sofia e Diego, que se apresentam aos poucos a partir de um ponto de partida cheio de susto e suspense. A narrativa desvela-se com repetições de cenas intensas, através das quais, muito aos poucos, conseguimos alinhavar um fio meio embolado da memória de um trauma. Como todo trauma, ele pode voltar quando quer, como lembrança, como cena mental, como sensação corporal, como pesadelo, como comportamento sintomático, e pode interromper conversas, gestos, programações. Ainda não sabemos do que se tratam essas repetições, mas podemos entender o quanto um acidente na estrada, representado inicialmente pelo movimento do objeto cênico pendurado no canto esquerdo do palco (para quem vê da plateia), é o leitmotiv de todas as ações e intenções que se dão na trama.

Neblina

Aos poucos vamos percebendo que talvez Sofia e Diego não sejam exatamente Sofia e Diego, que há uma saudade (ou uma falta) a ser elaborada a dois, e que cada par, seja ele romântico ou não, pode trabalhar o sofrimento que lhe cabe através de um acordo (uma neurose?) diferente. Vamos também percebendo que não é fácil fazer o trabalho de luto, que toda perda talvez implique luta, e que as batalhas enfrentadas a dois, em códigos combinados numa parceria nem sempre fácil, podem ser menos insuportáveis.

A direção de Yara de Novaes conduz Fafá Rennó e Leonardo Fernandes por esse tempo não linear do inesperado e da recordação, e entendemos que a circularidade da dramaturgia obedece à verossimilhança do psiquismo. Gestos dramatúrgicos simples, como a caminhada em espiral do início e do fim do espetáculo que os atores promovem, ou a representação de um acidente através de bruscos mas coreografados movimentos de corpo, ou, finalmente, a retirada da capa que envolve o objeto cênico, desamarrado lentamente por Fafá Rennó, nos apontam para a repetição que jaz em tudo o que é difícil de nomear e quase impossível de compreender, e também para a possibilidade do encontro com um incômodo que parece ter sido sempre tratado como se não estivesse lá, ou do qual a aproximação se fazia de forma sempre indireta, uma vez que o encontro direto com o horror pode ser devastador e exige um longo preparo.

Neblina fala de tempo, de reconstrução, de parceria, e fala também de viver o inevitável do jeito que for possível, de refazer acordos quando essa vivência se torna impossível, de construir a viabilidade de falar sobre o traumático, de colocá-lo em palavra. Neblina fala sobre a falta de sentido própria de alguns acontecimentos da vida. Há um jeito só de Sofia e Diego (ou Júlia e Rafael) de lidar com a saudade (ou a falta), que às vezes tem sucesso e noutras vezes emperra. Neblina fala de recuar para avançar, de consentir com as falhas próprias e alheias, de reconhecer erros, de apostar e tentar de novo, de estar junto. Não só o nome do espetáculo como a fumaça que remete à neblina mostra a longevidade de uma noite terrível em que não se enxerga um palmo à frente, como também do próprio desvelamento da dor e dos significados que o enredo proporciona, sem pressa nem didatismo.

Para além do enredo, da atuação e das soluções dramatúrgicas para eventos tão difíceis de traduzir em texto, o teatro em momento pandêmico também proporciona vivências curiosas. Na noite em que tive a oportunidade de assistir Neblina, já mais ou menos pelo meio do espetáculo, o ator Leonardo Fernandes, em dado momento, se volta para a plateia e faz um gesto com a mão indicando o rosto. Ele olhava para alguém na plateia que, por coincidência, estava mais à frente de mim. Pude perceber então um homem ajeitando a máscara, que não cobria, conforme claramente solicitado no início, nariz e boca. Com elegância e senso de cidadania, o ator, sem emitir palavra e, aparentemente, sem desconcentrar-se de seu papel, avisa delicadamente a um dos espectadores que era preciso que ele, para proteção de si e dos demais, colocasse a máscara. Esse pequeno episódio certamente suscitaria mais alguns parágrafos de comentários sobre a capacidade de concentração de ator e atriz em situações adversas (ambos falam seus textos com máscaras do início ao fim, trocando-as em um determinado momento), sobre os novos códigos coletivos que nem sempre são respeitados por todos mas cujo desrespeito afeta a todos, e, enfim, como se pode lidar com essas transgressões que não são bem-vindas (diferentes das necessárias transgressões que permitem a sobrevivência) na vida real.

É mesmo muito bom poder voltar, ainda que protocolarmente (é o que temos pra hoje, afinal), ao teatro.

 

Ficha técnica

Direção: Yara de Novaes
Texto: Sérgio Roveri
Direção de Produção: Tatyana Rubim
Elenco: Fafá Rennó e Leonardo Fernandes
Cenário: André Cortez
Trilha Sonora Original: Dr Morris
Luz: Wagner Antônio
Preparação Corporal: Eliatrice Gischewski
Figurino: Ivana Neves e Leonardo Fernandes
Aderecista: Marcelo Andrade
Projeto Gráfico: Estudio Ofício (Tiago de Macedo)
Fotografia do Projeto Gráfico: Alessandra Nohvais
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Fotos de divulgação: Guto Muniz
Idealização: Leonardo Fernandes e Tatyana Rubim
Equipe Rubim Produções: Sônia Branco Cerqueira, Bárbara Amaral, Juliana Peixoto, Mariana Angelis e Letícia Leiva

 

Serviço

Centro Cultural Banco do Brasil – Teatro II
Rua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro.
Informações/tel.: 21 3808-2020
Temporada: 12 de agosto à 12 de setembro de 2021.
Representações: Quinta à sábados, às 19h, e domingos, às 18h.
Sessão com Libras: Na noite de 21 de agosto, haverá intérprete de Libras.
Ingressos adquiridos antecipadamente pelo site https://www.eventim.com.br/artist/neblina/
Valor do ingresso: R$ 30 (inteira) e R$15 (meia)
Duração: 60 minutos
Classificação: 14 anos

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