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Uma relação insustentável em "A vida acontece no pântano"

A peça A vida acontece no pântano, de Ana Abbott, com direção de Leonardo Netto e elenco que traz a própria autora e Michel Blois, mostra o tom um pouco tenso do que imaginamos que seja a vida acontecendo em um pântano. A história traz um casal de cientistas, mais especificamente biólogos, que pesquisam, paralelamente em suas diferentes especialidades, um desastre ambiental.
No cenário de André Sanches, eles estão como que em uma espécie de bancada, com seus tubos de ensaio, suas espécies conservadas em formol, seus produtos químicos, suas anotações, os registros dos fatos empilhando a mesa de trabalho, mas as bancadas são colocadas em oposição, deixando-os um de frente pro outro, mas afastados por uma espécie de mesa. Eles parecem em campos diferentes, como que inimigos em uma batalha, apesar dos encontros sexuais mencionados, a cada momento acontecendo como se o casal fosse pertencente a uma espécie diferente. Além disso, o tom das bancadas e do cenário não é o asséptico e branco de laboratório, e sim o das cores do pântano, da floresta, isto é, um tom musgoso, orgânico e um material composto de madeiras são o que constituem as bancadas de estudo e experimentação desse casal que não está em paz consigo mesmo enquanto casal.

Assim, no espetáculo, que é o primeiro de Ana Abbott em termos de texto e dramaturgia, os diálogos e os pensamentos, as falas dirigidas para a plateia e aquelas que o interlocutor do personagem falante pode escutar, se misturam com os experimentos e são repletos de ataques e hostilidade, como se fosse insuportável viver junto. Eles estão o tempo inteiro trabalhando (ou quase o tempo inteiro), e pesquisam formas de veneno nas espécies estudadas. As intenções beligerantes e os desencontros nos diálogos são a constante, com poucas exceções de carinho, que já não se sabe mais se seriam o exercício obrigatório de um carinho forçado ou se se trata de algum laivo de afeto bom que persiste por baixo de tanta beligerância e insatisfação.
A pergunta que fica é por que um casal de pesquisadores deve persistir junto em meio ao ódio, à hostilidade mal disfarçada até para si mesmos, onde os lapsos de linguagem proliferam denunciando a insatisfação, de modo que a pesquisa se confunde com a vida, ou a vida se confunde com a pesquisa, tudo se confundindo com o pântano (ou com o nosso imaginário do que seja um pântano), e as metáforas e ações relacionadas aos animais estudados, às espécies investigadas, ultrapassem os limites daquilo que é sustentável porque a vida a dois parecer ter sempre ultrapassado os limites daquilo que é suportável.
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Publicado por Vivian Pizzinga

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