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“Collateral” é uma série policial tradicional, mas adaptada aos nossos tempos

5760 minutos. Quatro dias têm 5760 minutos. E é durante quatro dias – e quatro episódios – que se desenrola o enredo da minissérie britânica Collateral. Quatro dias, no mundo televisivo, é mais do que suficiente para desvendar não apenas um crime, mas para fazer diversas máscaras caírem e desestabilizar completamente um sistema que existia sem problemas há muitos anos.
Um imigrante árabe chamado Abdullah Asif é assassinado com dois tiros no peito enquanto entregava uma pizza em um bairro nobre de Londres. Há uma única testemunha, uma imigrante vietnamita, e o estranho fato de que a arma usada para o crime é exclusiva do exército. Quem fica encarregada de investigar o caso é a detetive Kip Glaspie (Carey Mulligan), que aos poucos percebe que nada foi por acaso e que um único assassinato pode ser o ponto de partida para esquemas maiores e mais perigosos.
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Temos todos os elementos de uma boa minissérie policial: as pistas, os investigadores que nem sempre estão de acordo, os suspeitos, os cúmplices, as reviravoltas, e o bom e velho MI6 – afinal, estamos na terra da rainha Elizabeth, a apenas um passo de James Bond. Aliás, a trama poderia muito bem ter sido usada em um filme de 007, personagem que sempre esteve antenado aos acontecimentos do mundo. Porque não há palavra melhor para descrever a minissérie do que “antenada”.
É uma minissérie representativa. Como se pode imaginar, a questão da imigração está no centro do caso, e há espaço para explorar, sem demagogia ou exagero, o drama dos imigrantes sírios que pedem asilo na Grã-Bretanha. Além disso, temos outros personagens envolvidos de um jeito ou de outro no quebra-cabeça: David Mars (John Simm) é um político de oposição navegando os turbulentos mares da política britânica pós-Brexit. Jane (Nicola Walker) é uma vigária lésbica – lembremo-nos de que a Inglaterra é majoritariamente protestante, e mulheres podem ser ordenadas no em algumas igrejas protestantes – cujos problemas existenciais e profissionais se entrelaçam com os amorosos.
A capitã Sandrine (Jeany Spark) é um membro do exército que sofreu um enorme trauma em combate e hoje enfrenta um superior que não esconde seus interesses sexuais por ela. E a própria Kip, à maneira da policial Marge Gunderson (Frances McDormand em Fargo, de 1996) é uma oficial grávida que não desiste quando encontra obstáculos e está disposta a usar técnicas pouco convencionais para solucionar o caso.
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A minissérie da BBC tem como ponto mais forte os belíssimos cenários, que mostram o que Londres tem de melhor e mais encantador. As filmagens em locação servem para divulgar os cartões-postais da Inglaterra, mostrando que há beleza em meio ao caos, e a opulência contrasta e convive com condições de vida sofridas.
O roteirista David Hare, que trabalhou em filmes como As Horas (2002) e O Leitor (2008) não se afastou do que se espera das séries policiais. A forma é tradicional, cada episódio de quase 60 minutos termina em um cliffhanger, e, porque o mundo não é perfeito, pelo menos uma situação fica sem ser resolvida. A parte política do enredo não foi bem recebida por alguns críticos, mas ela não mancha Collateral de maneira alguma. Quem também segue as convenções do gênero é a diretora S.J. Clarkson, que já dirigiu episódios da série Jessica Jones.
Tradicional e moderna, simples e inteligente, Collateral não é um marco na história das séries policiais nem mais uma brilhante produção da BBC. É interessante, cativante, prende sua atenção e pode ser totalmente consumida em uma tarde – fazendo bom uso dos seus minutos.

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