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Rotas do Ódio: entretenimento de qualidade sobre assunto sério

Não há um único dia entediante na única delegacia que investiga crimes de ódio e intolerância na cidade de São Paulo, a Decradi (Delegacia de Repressão aos Crimes Raciais e Delitos de Intolerância). Quem sabe bem disso são a delegada Carolina (Mayana Neiva) e o chefe de operações Júlio (Antonio Saboia). Quem também trabalha com eles é o novato Teodoro (Marat Descartes), que precisará enfrentar preconceitos internalizados se quiser seguir no trabalho.
O mais recente caso que eles investigam aparentemente não tem nada de novo: o grupo de skinheads Falange Branca se envolveu novamente em uma confusão com os punks. Mas outras situações interligadas começam a surgir. Quem sai bastante ferido da briga é Dime (Michel Joelsas), o mais novo integrante da Falange, que provavelmente procurou se unir à gangue para suprir uma necessidade de atenção e pertencimento.
Na tentativa de proteger Dime e ao mesmo tempo conseguir provas para de fato processar os skinheads, Carolina sugere que Dime se torne um informante da polícia infiltrado na Falange. A organização não anda bem das pernas, pois vive um cisma, com um dos skinheads, Capitão, desejando tomar o poder que atualmente pertence a Jason (André Bankoff).
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Isso no primeiro episódio. No segundo já somos apresentados ao caso do assassinato misterioso de Jaqueline Peçanha (Pathy Dejesus). A partir dali, os dois casos passam não apenas a ser investigados ao mesmo tempo, mas se entrelaçam – e a série finalmente começa a fluir.
A Decradi é uma delegacia verdadeira, por enquanto a única no Brasil com a função de investigar crimes de intolerância, e sua existência, na ficção e na realidade, é sempre ameaçada. O próprio chefe de Carolina, em mais de uma ocasião, fala em fechar a delegacia para cortar gastos, dá prazos pequenos para solucionar crimes e sempre lembra seus subalternos que não podem mexer com os figurões da cidade, que detém poder econômico ou político.
E a Decradi é mais do que necessária. Assim como também é necessária a representação da masculinidade tóxica cultivada e celebrada dentro da gangue Falange Branca. De figuras soturnas e ignoradas, os skinheads passam a ser vistos como pessoas com seus motivos para estar lá, que acreditam que aquele grupo é uma família, que “o ser humano está perdido” e que eles serão os responsáveis por trazer de volta a ordem e os bons costumes. Isso te lembra de alguém?
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A história começa a engrenar de fato com o segundo episódio, e até no quinto e último da primeira temporada vão sendo introduzidos conflitos novos. Algumas situações são bem previsíveis, mas isso não atrapalha nem é uma ofensa à inteligência do espectador.
Susanna Lira, conhecida documentarista, é a mulher por trás de “Rotas do Ódio”. Há quatro anos ela vem desenvolvendo a série, e nesse meio tempo a intolerância só cresceu. Ela conta, entretanto, que muitos que acompanharam o desenvolvimento do roteiro acharam as situações inverossímeis, quando na realidade elas estão acontecendo ali, na nossa frente. É sabido que o pior cego é aquele que não quer ver, e parece que o brasileiro continua insistindo em sua cegueira social.

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Rotas do Ódio

Mayana Neiva é o destaque como a delegada workaholic sem medo. No elenco também está a transexual Renata Peron, que na vida real foi atacada por um grupo de skinheads e perdeu um rim por conta deste ato de violência. Sua participação é pequena, e com certeza merece mais destaque.
Assim como “La Casa de Papel”, “Rotas do Ódio” acaba sua primeira parte sem conclusão. A série volta para a segunda parte – chamada de segunda temporada – em setembro. A terceira e a quarta temporada já foram confirmadas pelo canal Universal. Nada mais propício para o momento que estamos vivendo.

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