Música

Roger Waters revive o Pink Floyd e homenageia Marielle Franco em show no Rio

O Brasil nunca assistiu a um show do Pink Floyd. Houve boatos de uma vinda da banda em 1995, mas não se concretizaram. O mais próximo que chegamos disso foram os três shows de Roger Waters e um de David Gilmour. Nesse mês de outubro, o público brasileiro está tendo mais uma chance de sentir o gostinho de estar em uma apresentação da banda inglesa com a turnê Us + Them, que fez no Maracanã, Rio de Janeiro, sua sexta data sob chuva na noite de quarta-feira (24/10).

Pela primeira vez nesses 16 anos em que Waters se apresenta por aqui, há um novo trabalho de estúdio para ser mostrado. Em 2002 músicas da carreira solo até constavam no setlist, mas o trabalho mais recente era de 1992. Em 2007 o repertório trazia apenas uma inédita e em 2012 o show consistia em recriar a ópera rock The Wall. No entanto essa não chega a ser uma turnê de divulgação do disco “Is This the Life We Really Want?”, do qual apenas três músicas foram executadas.

Em se tratando de Waters não poderíamos esperar outra coisa que não uma superprodução. O palco consiste em um imenso telão com dimensões semelhantes ao muro da turnê The Wall. Outro recurso recorrente nos shows do ex-Pink Floyd é o impressionante som surround que, em alguns momentos, provocava até sustos na plateia. A apresentação se iniciou às 21h20 (apenas vinte minutos de atraso, dando um desconto para quem pegou chuva e o trânsito) com ‘Breath’, faixa que abre o clássico “The Dark Side of the Moon”, de 1973.

A chuva, que insistiu durante todo o show, não parecia desanimar o público, que cantou a plenos pulmões clássicos como ‘Time’, ‘Wish You Were Here’ (com direito a constelação de luzes dos celulares nas arquibancadas) e ‘Another Brick In The Wall’. As três músicas do novo disco (‘Dèja Vu’, ‘The Last Refugee’ e ‘Smell the Roses’) tiveram boa recepção embora desconhecidas da maior parte do público.

No segundo ato, telão assume a forma da fábrica londrina estampada na capa do disco “Animals” e da parte superior emergem quatro chaminés. Inicia-se um segmento com duas canções do álbum, lançado em 1977: ‘Dogs’ e ‘Pigs (Three Different Ones)’. A segunda, Waters usa para asseverar sua raiva do presidente americano Donald Trump com projeções de montagens caricaturais (algumas um tanto pueris). Foi o momento em que um porco inflável onde se lia “seja humano” sobrevoou o público. ‘Money’, outra do “Dark Side”, também foi usada como crítica a políticos, governantes além dos grandes conglomerados. Mas e a questão política?

Reprodução Instagram

Waters resolveu pegar bem leve no show do Rio. Mesmo tendo grande parte da plateia ansiosa por uma crítica a Jair Bolsonaro, com gritos de “ELE NÃO” ecoando com frequência – sobretudo em ‘Another Brick in the Wall Part II’, momento em que crianças no palco tiram suas roupas de presidiários e exibem camisetas com a palavra “Resist” – o inglês preferiu não polemizar. No intervalo, quando o telão exibia mensagens de protesto e reflexão, o momento em que surge uma lista de governantes fascistas encabeçada por Trump, o nome de Bolsonaro foi substituído por um “censurado”. Mas não quer dizer que houve omissão quanto ao nosso atual cenário político.

Waters lembrou Marielle Franco, vereadora assassinada em março com o caso até agora não solucionado. “Marielle está conosco, no nosso coração e de muitas formas. Marielle Franco é a líder deste País”, disse ele, e chamou ao palco a viúva, a irmã e a filha da parlamentar, que pediram justiça.

Antes da homenagem, em ‘Brain Damage/Eclipse’ feixes de luz reproduziram o icônico prisma com luz policromática da capa de “Dark Side” e uma bola de prata sobre o público refletindo o efeito, na mais bela exibição do poderio técnico da produção. Na reta final, Waters, usando a camisa entregue a ele pela viúva de Marielle onde se lia “Lute como Marielle”, executou ‘Mother’. ‘Comfortably Numb’ concluiu as quase três horas de música, com efeitos pirotécnicos no final.

A atual banda de apoio conta nas guitarras com o parceiro de longa data Dave Kilminster e Jonathan Wilson, que chamou atenção dos presentes por sua semelhança com David Gilmour quando jovem, inclusive vocal – é ele quem assume os vocais que cabiam ao antigo companheiro de Waters nas canções. No posto de backing vocals, está a dupla Jess Wolfe e Holly Laessing da banda Lucius, que atuam até na percussão em alguns momentos, como na introdução de ‘Time’.

Roger Waters continua promovendo um espetáculo grandioso, entretenimento e reflexão, sempre amparado pela história que construiu à frente do Pink Floyd. Com isso, assim como Paul McCartney, segue, enquanto for possível, fazendo fãs de várias idades acreditarem que o sonho não acabou.

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