CríticasFilmesLançamentos

A Metade de Nós e a dor de quem fica

A METADE DE NÓS

Na nossa sociedade, o suicídio ainda é um imenso tabu. Por causa disso, é sempre arriscado fazer um filme sobre o assunto. A saída pode ser não focar no suicida e os motivos que o levaram ao ato, mas sim concentrar o foco narrativo em quem fica e tem de lidar com as consequências do suicídio. Este é o caminho escolhido e muito bem desenvolvido em “A Metade de Nós”.

Francisca (Denise Weinberg) e Carlos (Cacá Amaral) estão em busca de respostas. Querem, obviamente e desde a primeira cena, entender por que o filho Felipe tirou a própria vida. Querem também descobrir como seguir em frente, e o fazem aos trancos e barrancos, entre acesos de choro no banho e visitas ao apartamento do rapaz para tirar as coisas de lá. Não importa por que Felipe se matou, nem como, mas sim outro “como”: como seus pais vão seguir sem ele?

Carlos define o filho como “muito quieto, sensível”, enquanto Francisca diz que ele estava doente e culpa o psiquiatra. Francisca pesquisa na internet sobre o remédio indicado para o filho e segue o psiquiatra de Felipe pelas ruas. Carlos começa a fazer aulas de natação e desenvolve uma relação com o novo vizinho, Hugo (Kelner Macêdo). Ela volta ao emprego como professora universitária e adota o cão de Felipe, ele retorna ao trabalho num estúdio de gravação e consegue até se divertir numa comemoração da família de Francisca. Ela vira voyeur e ele ocupa o habitat do filho. Ela é hostil e vingativa, ele é carente e cuidadoso.

Hugo pensa como qualquer um pensaria se ouvisse a notícia do suicídio de um amigo: será que eu poderia ter feito alguma coisa? Foi a partir de um questionamento semelhante em sua vida, após o suicídio da irmã em 2007, que o diretor e corroteirista Flavio Botelho quis tratar do tema, tendo começado a escrever o roteiro em 2014, sentindo-se seguro para filmá-lo apenas na oitava versão. Sobre o processo, ele declara:

“[…] quis falar sobre isso, sobre como lidei com essa perda e sobre quão doloroso foi esse processo. Decidi falar por meio de um casal sexagenário, uma mãe e um pai que representam tantos outros, inclusive os meus, nessa longa caminhada do luto. O tema suicídio precisa ser falado. É uma das principais causas de morte entre os jovens no Brasil. Fizemos uma pesquisa extensa sobre o tema, para mergulhar no universo dos protagonistas

Em “A Metade de Nós”, estamos como espectadores, o que torna fácil, até mesmo convidativo, o ato de julgar os personagens. Estamos e ao mesmo tempo não estamos na posição de julgá-los. Somos voyeurs como Francisca e ao mesmo tempo pedem que nos coloquemos no lugar destes dois cidadãos idosos numa situação desafiadora. O cinema é também um exercício de empatia.

Carlos faz a pergunta de um milhão de dólares, “Que nome a gente dá para quem perdeu um filho? Não é órfão, não é viúvo. O que é que eu sou?” O filme sabiamente é dedicado “a todas as pessoas que sobreviveram à morte de um filho”. Divulgado para a imprensa junto de dois materiais sobre suicídio e saúde mental (disponíveis AQUI), o filme quer incitar debates, mais do que ganhar prêmios – embora tenha ganhado o prêmio principal na ficção brasileira na 47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O prêmio maior vem do público: basta começarmos o diálogo que a existência do filme se justifica.

A Metade de Nós

A Metade de Nós
7 10 0 1
Nota: 7/10 Ótimo
Nota: 7/10 Ótimo
7/10
Total Score iÓtimo

Deixe um comentário

Sugeridos
Camaleonica256009 HQ @julia giros
LançamentosMúsica

Camaleônica convoca a reconciliação popular em “Aquelas Coisa”

Com um discurso direto e urgente às vésperas do período eleitoral, a...

Manu lafer
LançamentosMúsica

Manu Lafer lança “Música Mulher”

Já está disponível nas plataformas digitais Música Mulher, novo álbum do compositor, cantor...

Faouzia Divulgação
LançamentosMúsica

Faouzia viralizou no Brasil com “Unethical”

A cantora e compositora marroquino-canadense Faouzia vem conquistando uma legião de novos...

MotleyPressPhoto
LançamentosMúsica

Mötley Crüe lança a inédita “Nobody Knows What It’s Like To Be Lonely”

Coleção comemorativa do lendário álbum “Too Fast For Love” chega em momento...

Spiritbox por Ana Massard
LançamentosMúsica

Spiritbox lança “Mourning”, que ganha um clipe

Um dos nomes mais inovadores do metal moderno, a banda canadense Spiritbox...

Frames aprimorados videoclipe de Inner Child, filmado pelo videomaker Togga Gundersen (2)
LançamentosMúsica

Norueguesa Maribelle escolhe o Brasil para relançar seu novo álbum 

Lançado oficialmente em 5 de junho, "A New Spring" é um trabalho...

Simple Minds The Barras. Credit Brian Sweeney and Paninaro magazine
LançamentosMúsica

Simple Minds anunciam novo álbum com o single “Beginner Boys”

Sacrosanct chega em 29 de janeiro para celebrar 50 anos de carreira...

Saudade por Mau Saldanha
LançamentosMúsica

saudade se reconecta às suas raízes do emo e do rock no single “cada passo é uma montanha”

Dando sequência ao universo do próximo álbum Travessia, o artista e produtor...

Simona Talma por Mylena Souza
LançamentosMúsica

Simona Talma celebra 25 Anos de carreira com o álbum ao vivo Forte Como Fogo

Gravado no histórico Teatro Alberto Maranhão, o projeto é um manifesto de...

Street Fighter trailer jogável
FilmesGamesTrailersVideos

‘Street Fighter’ Inova ao Lançar Trailer Jogável em Clima de Arcade Anos 90

Prévia interativa no YouTube Playable permite que fãs executem combos e golpes...

Tim Curry
AstrosFilmes

Tim Curry (1946–2026): O Sorriso Sombrio que Iluminou a Cultura Pop

De cientista louco de salto alto em Rocky Horror a palhaço demoníaco...