“Estômago 2” segue a nova tendência de continuações de filmes nacionais não necessariamente comédias blockbusters. O anúncio dessa sequência pode até causar certo questionamento uma vez que o longa original tinha uma história que se fechava nela própria perfeitamente, sem deixar nenhum gancho. Daí, como seguir com a saga do cozinheiro nordestino com talento incomum para cozinha, mas que acabou na prisão por conta de um crime passional?
Em “Estômago 2: O Poderoso Chef”, Raimundo Nonato (João Miguel) conseguiu conquistar os criminosos na hierarquia da cadeia onde cumpre sua pena cozinhando regularmente para o líder dos presidiários, Etcétera (Paulo Miklos), e para os carcereiros, que apreciam a boa gastronomia. Porém, essa harmonia é abalada com a chegada de um famoso mafioso italiano, Don Caroglio (Nicola Siri), que pretende disputar o controle da penitenciária, colocando Raimundo no epicentro de um intenso e perigoso conflito de poder. Para escapar ileso em meio à guerra pelo controle da penitenciária, ele precisará ,ais do que nunca de sua astúcia e habilidades culinárias não apenas para sobreviver, mas para manter seu lugar de destaque na prisão.

Fica a pergunta: onde foi parar a liderança na cadeia que Raimundo parecia que iria conquistar quando, ao final do primeiro filme, ele ganhava a cama mais alta da cela? A sensação que se tem ao assistir a essa continuação é de que a história que interessava já fora contada e a toque de caixa criaram um argumento frouxo para justificar a volta do personagem, que, passada mais de uma década e meia, parece não ter avançado muitos degraus na hierarquia prisional como se esperava. Sua destreza na cozinha lhe dá certo status na prisão, mas o “poderoso chef” do subtítulo não vemos. Na verdade, Raimundo é quase um coadjuvante, uma vez que a trama é muito mais sobre a disputa entre os dois chefões do crime dentro do presídio.
O longa tenta emular a estrutura narrativa do anterior, contando duas histórias paralelamente, só que sem a mesma engenhosidade. Enquanto em “Estômago” acompanhávamos os fatos que levaram Raimundo ao presídio se alternando com o sagaz uso da gastronomia para livrar seu pescoço, aqui temos a história (bem desinteressante) do italiano em seu país – cheia de referências a “O Poderoso Chefão”, é claro – com o conflito na cadeia.

O mérito da produção recai sobre o elenco. João Miguel, mesmo com seu personagem com importância reduzida, repete a mesma graça da atuação do filme original. É bem verdade que seria mais lógico que o personagem tivesse sofrido alguma transformação ao longo dos anos. O que fica claro é que a opção foi pelo máximo de familiaridade e por isso Raimundo precisa ser praticamente o mesmo. Mas João arranca sorriso evidenciando que se o filme fosse mais centrado nele (como deveria) funcionaria melhor. Paulo Miklos em mais uma atuação inspirada, agora com mais tempo do que no longa anterior, e Nicola Siri está no tom certo.
“Estômago 2: O Poderoso Chef” acaba sendo uma continuação desnecessária, que ninguém pediu. O diretor Marcos Jorge parece ciente da armadilha em que se meteu e procura fazer o máximo dentro das limitações do roteiro de Bernardo Rennó e Lusa Silvestre (roteirista do original), mas, infelizmente, o que o espectador mais sente durante a exibição é saudade do filme de 2007.









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