Festival do Rio 2025 – Kristen Stewart faz ensaio visceral em “A Cronologia da Água”, porém, falta maturidade

A estreia de Kristen Stewart na direção despertou uma compreensível curiosidade, afinal, todos queriam saber como se sairia a eterna Bella de “Crepúsculo” comandando as câmeras. Em “A Cronologia da Água”, que foi apresentado na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2025, acompanhamos a intensa jornada da jovem Yuknavitch (interpretada por Imogen Poots),…


A Cronoçogia da Água

A estreia de Kristen Stewart na direção despertou uma compreensível curiosidade, afinal, todos queriam saber como se sairia a eterna Bella de “Crepúsculo” comandando as câmeras. Em “A Cronologia da Água”, que foi apresentado na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2025, acompanhamos a intensa jornada da jovem Yuknavitch (interpretada por Imogen Poots), que sonha em se tornar nadadora olímpica, mas vê sua vida transformada por uma série de desafios profundos. Crescendo ao lado de sua amorosa irmã mais velha, Claudia (Thora Birch), ela é intimidada pelo pai, Mike (Michael Epp), uma figura distante e raivosa. (O filme sugere apenas gradualmente o abuso sexual que Yuknavitch sofreu, até que, finalmente, ela o admite já adulta.). Fugindo de um lar abusivo, ela mergulha — literalmente e simbolicamente — em um percurso de superação marcado pelo vício, pela dor da perda e pela tentativa de reconstruir a própria identidade após o trauma do abuso sexual.

À medida que aprende a transformar sua dor em expressão, descobre na escrita e na arte uma nova forma de respirar. A água, antes símbolo de fuga e sobrevivência, torna-se metáfora de liberdade e renascimento. O filme constrói, assim, um retrato poderoso sobre resiliência e autodescoberta, acompanhando a protagonista enquanto ela encontra sua verdadeira voz — não mais como atleta, mas como mulher, professora e escritora capaz de inspirar outras histórias de coragem.

Trata-se de uma adaptação do livro de memórias da nadadora Lidia Yuknavitch. Como é costumeiro no caso de cineastas iniciantes, Kristen busca uma estética que saia do convencional. O longa é filmado em 16mm, com cantos arredondados e às vezes irregulares — exatamente como um filme caseiros antigo, dando aquele tom de documentário pessoal, sobretudo nos flashbacks. A edição truncada ajuda a compor essa estética para a narrativa que é dividida em cinco capítulos. No curta de 2017, “Come Swim”, também exibido em Cannes, a atriz e diretora já abordava como indivíduos podem, de certa forma, enfrentar seus traumas através da imersão na água. Em “A Cronologia da Água” ela trabalho o processo de autodescoberta — vale notar que Poots é mantida no papel mesmo durante as fases da adolescência. Essa escolha ajuda a sugerir a bagagem infantil que carregamos na vida adulta, e Poots transmite adequadamente a vulnerabilidade à Yuknavitch nessas cenas iniciais.

A fotografia em 16mm de Corey C. Waters extrai das cenas o senso de intimidade e fragilidade pretendido, assim como adorna a narração constante das reflexões confessionais e poéticas da protagonista. A montagem de Olivia Neergaard-Holm faz com que o passado e o presente da personagem às vezes se entrelacem. Mesmo sendo um pouco confuso em alguns momentos, resulta em um estilo elíptico que busca evocar tanto a intensidade quanto a volubilidade da nossa memória. O filme existe em um espaço onírico, ainda que as lembranças sejam frequentemente amargas — Yuknavitch consome drogas e enfrenta outras tragédias.

Todas essas escolhas foram acertadas, todavia, ainda falta um pouco de maturidade para Kristen se firmar como uma cineasta sólida. É visível que esse momento se avizinha. É notório que ela possui senso estético, rítmico e imprime um pouco da própria personalidade na protagonista, embora se trate de uma história real (mesmo que contada de forma poética).

O trabalho das atrizes conferem credibilidade à trama, com Imogen Poots no tom exato e em plena simbiose com a diretora. Thora Birch transmite perfeitamente a cumplicidade e o porto seguro proporcionado pela irmã mais velha. Elas, juntamente com Michael Epp, traduzem a carga visceral dos manuscritos, que Kristen fez questão de estampar na tela. É possível dizer que este aqui, embora peque em alguns aspectos, foi um início promissor. Os erros são arestas que podem ser perfeitamente aparadas mais adiante.

A Cronologia da Água

A Cronologia da Água
6 10 0 1
Nota: 6/10 – Bom
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