Resenha: Leveza e humor na peça ‘O dia seguinte’

O dia seguinte, peça idealizada por André Gonçalves, com texto de Regiana Antonini e direção de Rafael Ponzi, é uma peça que vale a pena assistir, se a busca é leveza e humor: o espetáculo captura a atenção e tem um quê de inspirador, quando se trata de pensar os encontros entre as pessoas. A…


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O dia seguinte, peça idealizada por André Gonçalves, com texto de Regiana Antonini e direção de Rafael Ponzi, é uma peça que vale a pena assistir, se a busca é leveza e humor: o espetáculo captura a atenção e tem um quê de inspirador, quando se trata de pensar os encontros entre as pessoas.

A dramaturgia é baseada em uma crônica do já saudoso Luís Fernando Veríssimo sobre um homem e uma mulher que não se conhecem e se descobrem, assim que acordam no primeiro dia do ano, em um quarto que não sabem de quem é. A montagem, atualmente em cartaz no Teatro dos Quatro, é despretensiosa, com diálogos humorados e irônicos, e vai nos cativando aos poucos por sua contemporaneidade e por um misto de otimismo e romantismo discretos e sóbrios. O simbolismo da renovação de um ciclo, do primeiro dia de um ano que está recém começando somado a tudo o que um encontro inesperado promete é aquilo que confere a tônica otimista, mas sem caricaturas. A trama se desenrola a partir daí e a montagem promove essa sensação agradável ao fim do espetáculo.

A peça é, portanto, uma ótima opção de entretenimento leve e divertido para o início da semana. André Gonçalves contracena com Bruna Griphao, e a dupla vai ganhando ritmo ao longo do espetáculo. Num cenário que conta com uma cama de casal enviesada e num contexto que é um mistério aos poucos desvendado por meio de uma construção da memória, construção que se dá na dupla de personagens, o casal vai ganhando química e nos conquistando até um final certeiro e redondo.

Para além da leveza e do humor inegáveis, há alguns pontos que atrapalham a montagem. Um deles é uma trilha sonora inicial de tango (ou gênero parecido), logo no início da peça, e que atrapalha o acompanhamento do diálogo. Ela desaparece ainda no começo, mas me perguntei qual seria seu sentido, dado que é provisória e não parece se conectar com o enredo.

Outro ponto problemático é o grau de espanto dos personagens ao acordarem e se depararem um com o outro, nus, num quarto. Essa surpresa, que assume a roupagem de um grande susto, talvez também esteja exagerada, dado que, convenhamos, mesmo com o imenso lapso de memória que acomete a ambos, era esperado que presumissem que um encontro havia acontecido entre eles na noite anterior – especialmente tendo sido ano novo – e que não se tratava de um sequestro.

Algumas características dos personagens poderiam ser mais trabalhadas, como uma dificuldade inicial em acertar os nomes (ao contrário, na peça, eles acabam de se conhecer e rapidamente memorizam seus nomes, falando-os em alguns momentos, o que é estranho para quem acaba de acordar meio desorientado), ou o histórico de Renato, personagem de André Gonçalves, que, sendo jornalista, aos 44 anos ainda quer ser escritor (algo que seria mais crível em um personagem de área totalmente diferente, sendo mais verossímil se o personagem tivesse o sonho de finalizar um livro que escreve há anos ou dedicar mais tempo à escrita e trabalhar menos, por exemplo).

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Esses e outros podem soar como meros detalhes de uma espectadora cricri, mas, como diz o advogado Lenio Streck em suas entrevistas na mídia progressista, o diabo mora nos detalhes, e mesmo numa levíssima comédia romântica, ficaríamos mais capturados com a coesão dos personagens, que se mostra exatamente no tratamento cuidadoso dessas minúcias. Por último e não menos importante, as referências cariocas e da Zona Sul acabam tornando o texto orientado para um nicho de público. Para ser montado em outros lugares, sejam cidades diversas, sejam bairros outros, piadas com o Bar Belmonte e com a identificação bairrista do Arpoador teriam de ser modificadas ou seriam absolutamente inócuas. Apesar desses pontos, nada disso compromete verdadeiramente o espetáculo, apenas traz certa dose de ingenuidade que o torna menos convincente e subtrai a possibilidade de ser mais interessante.


FICHA TECNICA

Idealização: André Gonçalves

Equipe Criativa:

Conto Original:  Luís Fernando Veríssimo

Texto: Regiana Antonini

Direção: Rafael Ponzi

Cenografia: Letícia Ponzi

Designer de Luz: Mario Jorge Junior

Trilha Sonora: Herbert Azzul

Elenco

Com: Bruna Griphao e André Gonçalves

Voz em off:

Cristina Pereira e Riba Carlovich

Produção Executiva: Clayton Epfani

Equipe de Comunicação

Assessoria de Imprensa: Lage Assessoria/Fernanda Lacombe

Fotos divulgação: Carlos Alberto

Arte e Pintura: Charles Chaim

SERVIÇO:

O DIA SEGUINTE

Temporada: 13 de janeiro a 11 de fevereiro

Local: Teatro dos Quatro – Shopping da Gávea (Rua Marquês de São Vicente, 52 – Loja 265, Rio de Janeiro – Rio de Janeiro)

Dias: Terça e Quarta

Horário: às 20h00

Valor: R$ 120 (inteira), R$ 60 (meia)

Compras pelo Sympla https://bileto.sympla.com.br/event/114255/d/354607/s/2391012?share_id=1-copiarlink

Classificação: 16 anos.

Telefone: (21) 2239-1095Lotação: 402 lugares.


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