Anistia 79 aponta pras origens das rachas de nossa frágil democracia (29ª Mostra Tiradentes)

Diante de um espelho para nosso passado recente, Anistia 79, de Anita Leandro, nos incita à reflexão sobre a problemática transição do período de Ditadura Militar para nosso frágil estado democrático.


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Há algo de profundamente potente em rever imagens do passado. Sobretudo, pra mim, imagens em movimento. 

Anita Leandro, professora de cinema na Universidade Federal do Rio de Janeiro, realiza documentários a partir de materiais de arquivo e de textos literários. 

Em seu novo longa, Anistia 79, exibido na seleção Olhos Livres da 29 Mostra de Tiradentes, a cineasta nos revela registros inéditos de um Congresso que reuniu quase 500 pessoas em prol da anistia no Brasil. O encontro, que ocorreu em Roma e foi filmado por um exilado brasileiro, traz imagens de importantes representantes da esquerda: líderes sindicais, filósofos, políticos, professores e ativistas. 

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Ao lado do material de arquivo, estão algumas dessas personagens, só que nos dias de hoje. Sentados diante do espelho para o passado, olham para si mesmos na tela, reconhecem amigos, colegas e familiares e recordam sentimentos e sensações. Há um exercício ético e político que se torna decisão narrativa: nomear todos que aparecem. Por um lado, isso pode soar um pouco desnecessário do ponto de vista do espectador, por outro, aponta pro caráter humano daquela convenção. Mais do que representantes ou rostos anedóticos, são: Hamilton, Heloisa, Luiz, Denise…. Cada um dotado de uma história e uma relação dolorosa com a ditadura militar brasileira.

Os comentários são afetivos, revelam amizades e intimidades, mas também trazem vestígios de dores, lutos e memórias de um tempo em que parecia haver uma clareza sobre pra onde deveríamos ir coletivamente.

Logo em seguida a um discurso veemente de um de seus companheiros, defendendo sua posição de que o movimento de luta armada foi uma defesa contra as forças da opressão apoiadas pelo imperialismo americano, a senhora, com os olhos brilhantes, diz: como era bom falar dessa maneira e acreditar nisso.

O filme nos mostra um momento em que ainda acreditava-se que um mundo melhor era possível, que a união faz a força e que a luta valia a pena. Um mundo que fervilhava diante da possibilidade de experimentar outro sistema que não fosse o capitalismo. Um mundo no qual as massas, quando organizadas e mobilizadas, eram capazes de pressionar e botar medo nos homens de ternos e nos donos dos meios de produção. Uma época de Paulos Freires e Brizolas, de pedagogias da liberdade e de CIEPs, da aproximação entre o trabalhador do campo e das fábricas.

Os 90 minutos filmados carregam a potência de um registro histórico que traça um retrato representativo da esquerda brasileira e de um tipo de atitude e modo de pensar e posicionar-se no mundo que parece ter se perdido.

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Durante o filme, somos testemunhas de um momento de esperança e eu, por alguns segundos, vislumbrei um futuro diferente. Um futuro em que os torturadores foram julgados e punidos, em que as placas das ruas e as estátuas de bronze de capitães e militares foram substituídas por representantes de nossa rica cultura popular, em que os livros de história nomeiam nossos algozes.

O Brasil é um país muito grande e diverso, que nunca teve uma verdadeira revolução que integrasse toda a sua população. Um país cujas maiores e mais importantes transições sempre foram feitas por acordos, assinados e decididos pelos detentores do poder.

A Anistia e o “fim da ditadura” não foram diferentes. 

No exercício de evitar a comoção e a “radicalização”, nossa corte parlamentar escolheu colocar na mesma categoria presos políticos e militares, torturados e torturadores. Como se todos houvessem sido vítimas de um momento histórico, como se a cegueira da maldade justificasse a impunidade de seus feitos.

E esse “ lavar as mãos” político acabou por gerar distanciamento e brecha para que instaurasse/instalasse um discurso difuso e confuso. Um discurso no qual tudo era igualmente indefensável ou igualmente perdoável. Um discurso que hoje é visto por alguns como período de ditadura e, por outros, período de revolução militar. E essa cisão de mundos é o que hoje favorece um apagamento da verdade e a apropriação dos fatos em prol de uma visão distorcida e tendenciosa. A mesma visão que nomeia manifestantes como vagabundos e direitos humanos como defesa de bandido.

É difícil ver este filme sem sentir uma melancolia extrema ao reconhecer o quanto nos distanciamos daquele mundo possível.

Mas mais do que nunca, neste perigoso ano de eleição que coincide com tantos atos de terror institucional (notadamente americano e israelense), é necessário encararmos o abismo de nosso espelho de frente e redescobrir a disposição e o brilho nos olhos de quem tem convicção de que a luta por um mundo mais justo, humano e igualitário se faz todos os dias.

*Esta resenha faz parte da cobertura da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes