Muitos conhecem Gustavo Jahn por seus papéis como ator, notadamente João em Som ao redor, de Kleber Mendonça Filho. Mas poucos viram seu trabalho como realizador.
Desde meados de 2000, o duo Distruktur, composto por Gustavo e sua ex companheira, Melissa Dulius, deu origem a muitos trabalhos híbridos que navegam entre instalações, performance, filmes (longas, curtas e média metragens), fotografias e textos.
A trajetória da dupla começou em Porto Alegre, onde começaram a filmar, primeiro em Super 8 e depois em 16 mm. Depois de mudarem-se para Berlim, em 2006 e juntaram-se ao grupo fundador do coletivo LaborBerlin, passaram a incorporar novas práticas experimentais de filmagem e revelação analógicas ao seu processo criativo.
O Enigma de S. é um dos primeiros filmes dirigidos apenas por Gustavo.
Seu cinema é silencioso, observacional e muito calcado na materialidade da imagem.
Se encontra nesse campo entendido como experimental, seja pela falta de uma estrutura narrativa convencional, ou pelo caráter de imperfeição da imagem, ou ainda, pelo interesse nos contornos e movimentos das formas, e nos corpos como elementos de (de)composição do espaço. Filmes híbridos que acabam encontrando seu público e seus espaços de exibição em festivais e galerias, mais do que nas salas de cinema tradicionais.
Entrando agora no mérito específico d’ O Enigma de S, que compôs a programação Olhos Livres da Mostra de Tiradentes…

Somos guiados por Lucia (Raquel Villar), uma botânica carioca acometida por uma misteriosa angústia que parece perturbar a calma de seus dias.
Ela nos conta, em voz off, sobre um sonho-oráculo, que teria lhe deixado uma palavra determinante, mas da qual a memória só reteve a primeira letra: S
A busca por S parece fundir-se com uma busca por algum Sentido ou Satisfação.
O filme é construído por capítulos breves, cada um nomeado por uma palavra-pista, ou palavra-tentativa: sítio, saudade, sábado, superfície, samba, submarino, sinema… Cada um com uma personalidade e um registro de atenção. Os momentos em que acompanhamos Lucia são entremeados por cenas puramente observacionais, onde as paisagens, as flores ou os figurantes-protagonistas de suas próprias vidas nos convidam ao deleite de perceber o mundo e a poesia de suas formas.
Numa destas cenas, longa, uma senhora à beira do mar tenta encontrar o momento certo para adentrar as águas. Com o bater rítmico e constante das ondas, sua espera pela brecha vira também um anseio do espectador. Nesses singelos minutos, torcemos e criamos expectativas sobre um simples gesto de entrar no mar, gesto este que muitos de nós podemos replicar em nossa memória afetiva. Mas ali, diante da magnitude e da atenção proporcionadas pelo cinema, a coreografia do corpo frágil diante das ondas ganha proporção de poesia e suspense. E, da parte desta que vos fala, também diretora e fotágrafa, a pequena angústia de não saber quando será o melhor momento de cortar. A certa altura, a lente dá zoom e se aproxima, aumentando o risco de perder sua personagem do quadro. Mas por sorte ou por destino, o corpo está sempre ali, mesmo que na beira, tangenciando a demora.
Quase sempre há algo de muito sensual, seja na relação dos corpos entre si, ou na relação do corpo com a textura da superfície da imagem, que por ter sido realizada em diferentes stocks de película, uns mais deteriorados ou sensíveis que outros, se mostra imponderável, orgânica e viva.

Em uma cena-chave, Lucia visita seu pai na cinemateca, interpretado por Hernani Heffner (figura emblemática da preservação e da pesquisa do cinema brasileiro). Ele parece estar lhe explicando algo sobre a película. Ali, esbarra na matéria como pele – um repositório de luzes e sombras onde os afetos são plasmados. O discurso, aparentemente científico, resvala na perturbação da personagem, que se emociona ao pensar neste contato constante com o mundo e na transformação pela qual passa a cada toque ou abalroamento.
Sua inquietude passa por um questionamento romântico e por uma sucessão de encontros. Lucia percebe, enfim, que talvez a resposta esteja nela mesma e não no outro. Uma resposta um pouco clichê, mas nem por isso, menos relevante ou adequada. Mas mais do que isso, ela chega à conclusão de que o que importa é a ternura, o carinho e o afeto. Esta sim, uma revelação que parece óbvia, mas é pouco apreendida no trato comum das relações em nosso dia-a-dia.
A conclusão é incompleta e impermanente. Passa pela necessidade de lembrar-se e dar-se conta repetidamente. Assim como na vida.
Talvez se decepcione quem estiver procurando por uma história clara ou um conflito mais óbvio. Há algumas redundâncias e pontas soltas. Cenas que parecem conectar-se com caminhos que ficaram por fazer. Mas pra quem quiser se abrir à possibilidade de engajar-se em um outro registro de tempo, o filme pode oferecer uma experiência sedutora, reflexiva e prazerosa.
*Esta resenha faz parte da cobertura da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes.









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