O Caso dos Estrangeiros: um exercício radical de empatia

Quem acredita que a crise dos migrantes é a maior crise dos tempos modernos recebe um belo tapa na cara nos primeiros minutos de “O Caso dos Estrangeiros”, que começa justamente com um texto sobre migração escrito por ninguém menos que William Shakespeare no século XVI. Mesmo assim, o foco do filme são os migrantes…


Caso dos estrangeiros dest

Quem acredita que a crise dos migrantes é a maior crise dos tempos modernos recebe um belo tapa na cara nos primeiros minutos de “O Caso dos Estrangeiros”, que começa justamente com um texto sobre migração escrito por ninguém menos que William Shakespeare no século XVI. Mesmo assim, o foco do filme são os migrantes de hoje, com seus dramas, tudo o que deixam para trás e esperança de que venha pela frente uma vida melhor. Será?

Primeiro acompanhamos a médica Amira (Yasmine Al Massri) em Aleppo. Originalmente radiologista pediátrica, ela atende a quaisquer emergências que apareçam em seu turno de 72 horas. Num país dividido, ela ouve de militares que “quem cura inimigo é inimigo também”. No aniversário da doutora, a casa de sua família é bombardeada, mas ela e a filha adolescente Rasha (Massa Daoud) sobrevivem. Decidem sair do país.

Caso dos estrangeiros

Então chega a vez de conhecer a história do soldado Mustafa (Yahya Mahayni), que fica mexido ao presenciar uma execução de um pelotão de fuzilamento cujas vítimas incluíam uma criança. Sua próxima missão também não vai ser fácil: capturar o homem que foi sua única figura paterna.

O próximo personagem a ganhar destaque é o traficante de pessoas Marwan (Omar Sy), que oferece um barco com destino à Grécia para um grupo de refugiados na Turquia. Ele não dá garantia nenhuma de que chegarão sãos e salvos ao destino, mas não importa: precisa do dinheiro para ele próprio migrar com o filho.

A última figura a que somos apresentados é o capitão Stavros (Constantine Markoulakis) da Guarda Costeira grega. Sua função é salvaguardar as águas de seu país e resgatar migrantes que chegam em botes precários. Seu colega diz que resgataram mais de onze mil pessoas em um período de poucos meses. Em um almoço, os dois precisam ouvir de gente curiosa que muitos dos migrantes são “terroristas” e não devia ser permitida sua entrada no país.

Caso dos estrangeiros

Quem fica encarregado de manejar o bote rumo à Grécia é um poeta que nunca fez isso antes. Na embarcação, destinos serão cruzados e nossos personagens se reencontrarão.

Falado em inglês, árabe e grego, “O Caso dos Estrangeiros” é um tipo relativamente raro de filme: aquele que apresenta várias histórias e em determinado ponto as faz se cruzarem, concatenando a narrativa por fim numa história única, aqui, dos migrantes. Esses filmes dependem muito da engenhosidade dos roteiristas para criar um roteiro coeso, que verdadeiramente surpreenda.

As cenas no bote são tensas, angustiantes e prezam pelo realismo. Elas me transportaram para um filme clássico passado totalmente dentro de um bote salva-vidas, o menosprezado “Um Barco e Nove Destinos”, feito por Hitchcock em 1944. Para este filme “menor” do Mestre do Suspense, todas as cenas foram gravadas num imenso tanque dentro do estúdio, o que inclusive causou uma pneumonia na protagonista Tallulah Bankhead.

O diretor e roteirista Brandt Andersen havia feito um único filme antes desse, um curta-metragem também sobre refugiados. Em 2016, foi produtor executivo de um filme pouco lembrado, mas muito profundo, de Scorsese, “Silêncio”. Vale destacar que uma das companhias produtoras é a Philistine Films, criada na Palestina, e que uma das distribuidoras é a cristã conservadora Angel. É como uma união aparentemente pacífica para um bem maior.

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É óbvio que o chamariz para o público brasileiro para “O Caso dos Estrangeiros” é a presença de Omar Sy, superpopular por aqui desde o sucesso de “Intocáveis” (2011) e desde então sempre celebrado no Festival de Cinema Francês que ocorre anualmente em diversas cidades.   

Muitos podem chamar “O Caso dos Estrangeiros” de “trauma porn” e manipulativo, mas em algumas instâncias não podemos ser sutis. Se o filme ajudou a humanizar os refugiados ou se incentivou ao menos uma pessoa a contribuir com a Agência de Refugiados da ONU, já cumpriu seu papel. Porque cinema também é isso: uma máquina de empatia.

NOTA 8 de 10

O Caso dos Estrangeiros

O Caso dos Estrangeiros
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Nota: 8/10
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