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Os Gigantes da Montanha com direção de Kiko Marques

Crédito: @raidosolfoto

A poucos metros da efervescência da Avenida Paulista, o tempo parece dobrar-se sobre si mesmo. Uma casa antiga transmuta-se na Vila dos “Azarados”, um território à margem da metrópole, habitado por figuras que abdicaram do mundo pragmático para viver da substância dos sonhos. É neste cenário de suspensão que estreia, no dia 5 de junho, no espaço Zona Franca, a nova montagem de Os Gigantes da Montanha. O último e inacabado texto de Luigi Pirandello ganha vida sob a direção de Kiko Marques, trazendo a urgência de uma companhia de teatro em ruínas que insiste em fazer florescer a poesia em um mundo que já não parece capaz de acolhê-la.

Atores e espectadores no mesmo espaço

Nesta encenação, o fato de a obra ter sido interrompida pela morte de Pirandello não é visto como uma lacuna, mas como o motor da criação. O espetáculo assume a incompletude para tensionar os limites entre o impulso criador e as forças que tentam silenciá-lo. “Retorno a esse texto como quem retorna a uma pergunta sem resposta”, explica o diretor Kiko Marques. “Esta é a quarta vez que o enceno, a terceira como diretor, e a cada nova aproximação ele se transforma — ou me transforma — propondo outros caminhos de leitura. Nesta montagem, o tempo se desfaz como referência estável. Elementos contemporâneos convivem com vestígios de outras épocas, criando uma fábula sem localização precisa: pode acontecer naquele casarão aos pés da montanha, no tempo em que foi escrita, ou no espaço íntimo de cada espectador”.

A direção de Kiko propõe um deslocamento da percepção, onde o público é convocado a completar a experiência. “Não há distância confortável: atores e espectadores compartilham o mesmo espaço, o mesmo ar, a mesma instabilidade. A encenação aposta na proximidade como risco e como potência”, afirma o encenador. Sobre a dinâmica dos personagens, o diretor pontua: “As figuras da vila — que nas montagens tradicionais de Pirandello orbitam em torno da presença de Cotrone — aqui se afirmam como uma coletividade consciente de sua escolha de estar à margem. As aparições e manifestações que atravessam a cena não pertencem a um único agente, mas emergem desse território comum”.

A Oficina – sobre o processo

O Laboratório de Montagem, conduzido por Kiko Marques, diretor da Velha Companhia de Teatro, teve como ponto de partida o texto inacabado de Luigi Pirandello, Os Gigantes da Montanha. Ao longo do processo, foi desenvolvido um trabalho de dramaturgismo a partir da sala de ensaio, por meio de improvisações, criação de cenas, debates e experimentações cênicas, buscando ressignificar a obra para os nossos tempos e olhares. A oficina aconteceu entre os dias 9 de setembro e 4 de dezembro de 2025, no espaço Sala de Estar, na Vila Mariana, reunindo 13 atores-criadores. O processo culminou em quatro apresentações realizadas nos dias 4, 5, 6 e 7 de dezembro, na Zona Franca.

Sinopse

Última obra de Luigi Pirandello, Os Gigantes da Montanha permaneceu interrompida após a morte do autor, em 1936, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Pirandello dedicou oito anos de sua vida à escrita da peça, deixando concluídos apenas os dois primeiros atos. O desfecho da obra chegou até nós apenas por meio de um relato feito por seu filho, a quem o dramaturgo confidenciou, em seu leito de morte, que o final estava pronto — mas jamais chegou a escrevê-lo. A trama acompanha a chegada de uma trupe de teatro decadente à misteriosa Vila, habitada por seres deslocados da sociedade que vivem entre sonho e fantasia. Liderados pela Condessa Ilse, os artistas carregam a obsessão de encenar uma peça escrita por um poeta morto por um amor não correspondido. Após o fracasso diante do público, restam à companhia apenas os figurinos, a precariedade e a insistência em continuar criando.

Na vila, o grupo encontra Cotrone, figura enigmática que defende um mundo onde o sonho e o invisível possuem mais valor do que a lógica da realidade. Cotrone sugere que a trupe de artistas se estabeleça na vila com eles e que vivam ali a sua peça, como um prodígio que baste a si mesmo. Mas, diante da obstinação da Condessa em continuar encenando-a para o  público, ele propõe oferecê-la aos Gigantes da Montanha — figuras míticas que representam forças brutais e incompreensíveis diante da fragilidade da arte.  A partir de um processo colaborativo, o grupo estabelece um diálogo contemporâneo com o mito, sem abandonar sua dimensão fantástica e onírica.

Ficha Técnica

Texto: Luigi Pirandello. Tradução: Beti Rabetti. Direção: Kiko Marques. Elenco e Criação: Ari Pinotti, Alejandra Sampaio, Bruno Rods, Eduardo Venosa, Elora Sampaio, Francisco Taunay, Gustavo Smith, Ian Veronico, Ian Lima, Isadora Maffei, Ingrid Ruiz, Ioli Ferro e Rúbia Abati. Atriz convidada: Alejandra Sampaio. Figurino: Davi Parisotti. Som e Luz: Taiguara. Produção: Eduardo Venosa, Gustavo Smith, Isadora Maffei e Ingrid Ruiz. Assessoria de imprensa: M. Fernanda Teixeira e Mauricio Barreira – Arteplural.

Serviço

Os Gigantes da Montanha
Local: Zona Franca
Rua Almirante Marques de Leão, 378 – Bela Vista, São Paulo – SP.
Estreia: 5 de junho, sexta-feira, 20h.
Temporada: de 5 a 28 de junho.
Sessões: sextas e sábados às 20h; domingos às 18h
Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada).

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