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Ana Calzavara ganha mostra no Rio de Janeiro

Como fazer uma imagem persistir em meio ao turbilhão visual do mundo contemporâneo? Como devolver duração a uma imagem em uma cultura com excesso de estímulos visuais? É a partir dessas questões que Ana Calzavara constrói “Desenredo”, sua segunda exposição individual na Maneco Müller : Multiplo Galeria, que abre no dia 8 de outubro, no Leblon. Fruto de uma intensa temporada de trabalho em Lisboa, a série inédita de pinturas a óleo aprofunda a investigação poética da artista sobre a experiência do olhar e a forma como apreendemos as imagens em um cotidiano atravessado por telas e fluxos incessantes de informação. Partindo dessa fragmentação, as pinturas de Calzavara buscam justamente o contrário: captar do espectador um olhar mais duradouro e concentrado, no qual a atenção seja, de alguma forma, recuperada.

 “Desenredo” reúne conjuntos de paisagens, cenas que captaram o olhar da artista ao longo de uma temporada de dois meses na capital portuguesa. As pinturas aparecem em grupos, em conjuntos, como padrões, mas fragmentados, em pedaços que se misturam, se mesclam e se contaminam. Nada é linear, nem óbvio. A imagem existe numa espécie de jogo de aparecimento-desaparecimento, presença-ausência, permanência-mudança, clareza-ilegibilidade, continuidade-descontinuidade, que é como vemos o mundo hoje (“estamos cegos de tanto ver”). Outra característica da obra dela, presente nesses trabalhos, é o desejo de reter a imagem efêmera e incontrolável, aquilo que some no instante seguinte, o que é quase impossível de capturar, seja do mundo físico ou virtual. O texto crítico da mostra é de Pedro Duarte.

Em “Substâncias de sombra”, primeiras pinturas da série, raios de sol atravessam os ramos de uma árvore, mas o que vemos são apenas silhuetas. Em “Brilhos”, o que vai para a tela é a bioluminescência das microalgas e plânctons da foz do Tejo, a luz mágica e fugidia na ondulação. Em “Riscos”, é o pisca-pisca dos vagalumes numa floresta em Sintra. “Dados” traz padrões de azulejos do século XVI em combinação com QR Codes, como códigos digitais impregnados de significados, mas sujos, desbotados, desgastados pelo tempo, incompatíveis com a tecnologia de leitura de dados. Em “Estilhaços”, ela reproduz aquelas imagens indecifráveis que surgem nas telas no momento de um curto-circuito de dados, os “glitches”, remetendo ao estado de “burnout” da nossa atenção. Em “Véu e cinzas”, vemos uma floresta calcinada, encoberta de fumaça, numa grande tela de 1,50 X 2,00 m, montada a partir de pequenas telas coladas, como um painel de azulejos.

Segundo a artista, o nome da exposição, “Desenredo”, remete a esse embaralhamento do olhar, a uma narrativa que explodiu, se despedaçou e não é mais linear. “A exposição traz essa experiência da fragmentação, mas numa tentativa de subvertê-la. Quero provocar o espectador para olhar o mundo de uma forma diferente da que estamos acostumados. A exposição nasce do desejo de renovar a experiência do espectador com a imagem, de fazer com que essa imagem se relacione com ele de uma forma mais persistente, que não seja descartada, que traga uma reflexão”, explica a artista.

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Segundo Maneco Müller, sócio da galeria, Ana Calzavara é uma artista de raro talento, que não separa a vida da arte e nem se alinha a nenhum modismo ou estilo. “Ela faz uma pintura de alto valor crítico, resultado de uma pesquisa extensa e profunda, aliada a um grande domínio da técnica”, diz ele, lembrando que a artista é bacharel em Artes Visuais pelo Unicamp, pós-graduada em pintura pela Byam Shaw School of Art, Londres; mestre (2006), doutora (2012) e pós-doutora (2018) em Poéticas Visuais pela ECA/USP. “Em termos poéticos, ‘Desenredo’ é, no fundo, uma grande exposição sobre o desconhecido, sobre o momento que estamos vivendo, onde tudo está enevoado e não sabemos como caminhar nesse mundo sem chão”, complementa.

“Ana Calzavara é uma artista cuja produção acompanhamos com muito entusiasmo. A força e a qualidade de seu trabalho nos levaram a realizar essa segunda exposição na galeria em apenas dois anos, o que diz muito sobre a força que vemos em sua obra e sobre o lugar que ela vem conquistando no cenário contemporâneo”, diz Stella Freitas, sócia de Maneco na galeria. A exposição pode ser visitada até 21 de novembro, com entrada gratuita.

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Abertura: dia 8 de outubro, quinta feira
Horário: das 18h às 21h
Período da exposição: até 21 de novembro
Local: Maneco Müller : Multiplo Galeria
Horário: de segunda a sexta, das 10h às 18h30 (sábados, sob agendamento)
End: Rua Dias Ferreira, 417/206 – Leblon – Rio de Janeiro
Tel: + 55 21 2294 8284 | +55 21 2042 0523 (WhatsApp)
Entrada franca

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