Misturando comédia ácida, espionagem e teatro do absurdo, o novo longa do diretor de ‘Os Banshees de Inisherin’ escala John Malkovich e Sam Rockwell para expor o lado mais sombrio da política externa norte-americana
O cineasta britânico-irlandês Martin McDonagh sempre cultivou uma obsessão fascinante por figuras turronas e espiritualmente danificadas. Seja no ressentimento ranzinza de Colm (vivido de forma excepcional por Brendan Gleeson em Os Banshees de Inisherin) ou na obstinação feroz de Mildred (em interpretação grandiosa de Frances McDormand em Três Anúncios Para Um Crime), o diretor é mestre em construir personagens que desafiam a empatia do público. Em seu mais recente longa-metragem, Cavalo Selvagem Nove (Wild Horse Nine), o complicação da vez é Chris, encarnado por John Malkovich em uma performance soberba que já coloca seu nome com força nas especulações para a temporada de prêmios.
Como na maior parte da obra de McDonagh, a narrativa gira em torno da amizade masculina — um afeto visceral que os próprios protagonistas jamais admitiriam em voz alta. Ambientado em 1973, no conturbado contexto histórico imediatamente posterior ao golpe militar promovido com o apoio das sombras de Washington contra Salvador Allende no Chile, o filme acompanha Chris e Lee (Sam Rockwell), dois agentes experientes da CIA e assassinos cínicos de carreira. Após ajudarem a pavimentar o caminho para a ditadura em Santiago, a dupla é transferida para a isolada Ilha de Páscoa por seu chefe neurotizado, MJ (Steve Buscemi), sob o pretexto de uma missão de rotina que esconde um severo teste de confiança.

Chris, um homem educado, filosófico e na casa dos 70 anos, encara a fase final de sua vida debilitado por um câncer em estágio terminal e dependente de doses diárias de morfina. O alívio químico e a proximidade da morte alimentam um humor contemplativo, levando-o a gravar divagações existenciais em um ditafone portátil e a cogitar a publicação de um livro de memórias póstumo. Para além disso, o agente passou a vazar segredos de Estado para estranhos apenas pelo prazer perverso de testemunhar suas reações horrorizadas. Essa postura transforma Chris em um risco direto à segurança nacional – e todos sabem como a inteligência norte-americana costuma lidar com pontas soltas.
É nesse cenário que o frágil equilíbrio da viagem se rompe. No avião rumo ao território de Rapa Nui, os dois veteranos cruzam o caminho de Monica (Mariana di Girolamo) e Alicia (Ailín Salas), duas jovens estudantes chilenas de esquerda que viajam com fortes convicções políticas e uma simpatia declarada por Allende. A aproximação de Chris com o grupo de estudantes revolucionários acende o alerta vermelho na agência e expõe as fraturas de uma parceria de longa data. Cercados pelas místicas e colossais estátuas Moai, Chris e Lee são forçados a encarar os fantasmas de suas trajetórias.

Se a sinopse sugere um melodrama político convencional dos anos 1970, o roteiro afiado de McDonagh subverte qualquer expectativa ao entregar um ensaio existencial carregado de um humor sombrio. Apoiado pela fotografia límpida e melancólica de Ben Davis – colaborador de longa data -, o diretor traça um paralelo direto entre a culpa individual e a hipocrisia de uma nação. A reconstituição de época da década de 1970 funciona de forma abertamente alegórica: McDonagh lança sua mira sobre a política externa contemporânea dos Estados Unidos, tecendo uma crítica mordaz à ingerência internacional e às intervenções geopolíticas promovidas por “falcões” obcecados em manter a hegemonia global a qualquer custo humano.

O dinamismo da produção apoia-se em diálogos rápidos e entrecortados, com um ritmo que lembra as peças de Samuel Beckett – outro mestre irlandês incapaz de se desvincular das raízes e dos dilemas morais católicos. A recusa de Chris em matar mariposas em sua casa surge como um sutil e trágico sintoma de uma busca tardia por redenção. Com frases antológicas e atuações de gala de um elenco afinado (com destaque também para Parker Posey e até Tom Waits em cena), Cavalo Selvagem Nove consolida-se como um estudo provocador sobre negação, poder e o preço da barbárie trajada de patriotismo.
