Embora a apoteose do Samurai como modo de vida tenha sido provavelmente no período Sengoku (“Período dos Estados Beligerantes”) que encerrou mais ou menos nas primeiras décadas que se seguiram à batalha de Sekigahara em 1600, foram os anos de paz que acompanharam a consolidação do poder pelo xogunato Tokugawa que segurou a imaginação popular para com o personagem arquetípico com mais força.

O tema do guerreiro amaldiçoado por ter nascido em uma época de paz atinge um nervo profundo e arquetípico; o faroeste americano serve como um corolário, pelos contos ambientados nas últimas horas da Fronteira, desde o fim da Guerra Civil em 1865 até a proliferação de ferrovias, linhas telegráficas e fortes de cavalaria que incentivaram a rápida expansão ocidental em todo a década de 1880. As semelhanças temáticas são referenciais entre o Samurai e o Pistoleiro, o Ronin e o Outlaw.
O mangá gekiga dos anos 1970 exploraram esses aspectos mais sombrios da cultura samurai, particularmente nas milhares de páginas contadas por Kazuo Koike e Goseki Kojima, bem como na obra-prima Satsuma Gishiden, de Hiroshi Hirata, que enfim foi publicada no país, em três volumes pela Pipoca & Nanquim, em edições bem caprichada, com sobrecapa, uma qualidade que é um deleite para a arte espetacular presente nos mais de trinta capítulos da obra.

Publicada de 1977 a 1982, os volumes deste gekiga são o resultado de um longo amadurecimento e documentação por parte de Hiroshi Hirata. O autor nos leva a uma narrativa histórica, bem amparada por um minuncioso trabalho de pesquisa, dando uma ênfase na trama ao mesmo tempo que nos ensina sobre o período que o quadrinho aborda. Hirata faz uma crítica ao tratamento que os samurais tem, demonstrando que eles não eram tão íntegros quando contam.
Satsuma Gishiden usa um tom quase acadêmico às vezes, e enquanto Hirata não tem o reservatório infinito de enredos incrivelmente inteligentes que Koike tem, ele tem um talento para criar cenas de violência e crueldade alucinantes. Satsuma é um épico atípico que ilustra a vida cotidiana dos samurais do século XVIII com tal exatidão e precisão que os próprios japoneses ignoram. Em vez de guerra e feitos heróicos, é a resistência mental que é exemplificada neste fato real onde o samurai de Satsuma, a quem o Xogunato quer enfraquecer e sangrar, aceita o desafio de ajudar às suas custas outra região inundada.
O início de uma saga atípica

As páginas iniciais descrevem uma competição entre dois ‘exércitos’ opostos de samurais entediados, frustrados e destituídos, organizados por seu senhor feudal em uma tentativa de liberar a hostilidade reprimida. Criminosos condenados, com as mãos amarradas nas costas, são colocados a cavalo e instruídos a seguirem em direção a uma grande árvore a quase um quilômetro de distância. Se eles a alcançam, recebem sua liberdade. Para chegar lá, no entanto, têm que enfrentar os dois times montados de samurais prontos para a batalha, para os despedaçar todos membro após membro, antes de acabar sendo objeto como uma bola de rúgbi.

Uma introdução violenta e silenciosa de vinte páginas, dinâmica é uma aula muito cinematográfica. Os desenhos muito realistas, que a princípio confundem com as suas linhas acentuando o movimento, rapidamente nos cativam pela sua intensidade e crueza. As posturas merecem uma aula de anatomia feita na hora. A força que surge é uma reminiscência da escultura.
A arte e a caligrafia que Hirata usa para representar a cena – extraídas de relatos históricos detalhados – são tipicamente perturbadoras e belas. O contraste entre as elegantes paisagens e arquitetura e o terrível desrespeito pelo sofrimento humano é perturbador e atraente. Os guerreiros não lutam entre si, cada um desesperado por qualquer resquício de glória que pudesse ganhar ao alcançar a linha de chegada com o pedaço de torso sem braços e sem cabeça contendo o fígado.
A força da história reside em seu domínio narrativo edificante. Hiroshi Hirata navega entre conflitos pessoais e eventos de alcance histórico ou social com tal brilho que as lacunas inerentes a este exercício não são sentidas de forma alguma. As psicologias, por mais belas que sejam, estão entrelaçadas nos grandes movimentos da história. Os momentos fortes e trágicos da ação interpenetram às explicações da vida cotidiana dignas dos livros didáticos, sem que o contraste nos expulse da história. O fio da intriga e da tensão oculto não se perde nos capítulos que se alternam casualmente, em várias histórias, flashbacks ou descrições. Pelo contrário, este a construção narrativa confere à obra uma densidade, uma força, uma grandeza que lhe permite, como uma peça sinfónica, alcançar o sentimento da epopeia.
A arte

O estilo artístico de Hirata é impressionante, um pouco mais realista e detalhada – mas de outra forma muito semelhante – à narrativa cinematográfica de Goseki Kojima.
A Obra de um Mestre do gênero
A introdução a esta saga mostra toda a particularidade do talento de Hiroshi Hirata. Desenhos sublimes, pessoais e vivos, historiador preciso e notável contador de histórias. Poucos autores falam de samurai melhor do que ele. Suas obras são dedicadas a esse tema, senão à história do Japão. Os seis volumes vão recontar degrau após degrau a epopéia humana do samurai da fortaleza de Satsuma em face da adversidade da natureza, truques políticos esmagadores e a injustiça da onipotência do shogun. Degrau após degrau, descobriremos na lama mais densa o significado da palavra honra em sua mais humilde e despojada pompa. Maravilhoso trabalho








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