Dieter Jung – Life of Colors/Vida das Cores
Rhythm & Soul/Ritmo e Alma – Arte Contemporânea Brasileira
OBastardo – Rhythm & Skin/Ritmo e Pele
De 15 de janeiro a 27 de fevereiro de 2026, a KORNFELD Galerie, o 68projects by KORNFELD e o 69salon by KORNFELD, em Berlim, apresentam três exposições simultâneas, interligadas tanto em conteúdo quanto em estética. Juntas, formam um panorama plural de investigações artísticas sobre ritmo, percepção e identidade cultural – no diálogo entre Brasil e Alemanha. O programa é curado pela historiadora da arte Tereza de Arruda.
Cria-se assim um diálogo sutil, porém intenso, entre as três mostras: enquanto Life of Colors, de Dieter Jung, instaura um espaço de ressonância universal onde luz e cor se tornam portadoras de um ritmo atemporal, Rhythm & Soul e Rhythm & Skin evidenciam a multiplicidade da arte contemporânea brasileira.
Em pleno inverno berlinense, essas exposições oferecem um contraponto sensorial e conceitual ao período carnavalesco que acontece simultaneamente no Brasil. Enquanto lá o ritmo, o movimento e a alegria coletiva dominam as ruas, em Berlim se revela outra forma de energia: uma reflexão sobre as forças sociais, culturais e espirituais que moldam e desafiam a sociedade brasileira.
O Carnaval serve aqui como ponto de partida metafórico – uma expressão da cultura popular que dá visibilidade aos que muitas vezes não têm voz, transformando-se em um campo sociopolítico.
As três mostras simultâneas formam, em conjunto, uma trama curatorial de diálogo, memória e transformação.
Entrelaçam o coletivo e o individual, o material e o imaterial, o brasileiro e o global.
Dieter Jung – Life of Colors/Vida das Cores
KORNFELD Galerie
Fasanenstr. 26, 10719 Berlin



A exposição individual Life of Colors, de Dieter Jung, na KORNFELD Galerie Berlin, abre espaços onde o ritmo se manifesta como princípio universal – como vibração de luz, cor e percepção. São apresentadas obras de quatro décadas, que evidenciam o papel central da cor na vasta produção do artista.
Em Life of Colors, a cor é entendida como luz viva. Jung utiliza interferências ópticas, refrações espectrais e sutis impulsos de movimento para criar espaços imagéticos imateriais que oscilam entre superfície e profundidade. As obras respondem à presença do público, convidando a um olhar ativo, quase meditativo. A luz não é vista como mero meio de iluminação, mas como um continuum energético que conduz a experiências diretas de ressonância.
Desde os anos 1970, Dieter Jung é um dos pioneiros da holografia artística. Sua obra investiga as interações entre luz, movimento, espaço e tempo, desenvolvendo sistemas visuais nos quais a cor se torna uma energia imaterial e vibrante. Seus trabalhos holocinéticos e cromáticos tornam visível um ritmo – não como estrutura musical, mas como frequência pulsante que se desdobra no espaço e no olhar do espectador.
Ao lado das pesquisas holográficas, a pintura constitui um fundamento essencial do seu trabalho. Seus campos cromáticos surgem de estruturas seriais e precisas, nas quais a cor atua como um continuum energético. As telas seguem campos de movimento internos, onde luz e cor se condensam, sobrepõem e se distanciam em passagens vibrantes.
A holografia, em especial, marca o impulso investigativo de Jung: as imagens emergem de sobreposições, refrações e experimentos cuidadosamente orquestrados – resultados de uma profunda pesquisa sobre percepção e energias visuais entre arte, ciência e tecnologia. Pintura, holografia, desenho, gravura e objetos não se apresentam como práticas isoladas; elas se fundem em uma compreensão expandida do ato de ver. Em conjunto, exploram o invisível no visível. Uma pintura feita com fótons.
A arte de Dieter Jung está inserida em uma vasta rede de relações internacionais. Suas obras e instalações foram exibidas em mais de quarenta países, com destaque para o Brasil, onde estiveram presentes, entre os anos 1970 e 1990, no MASP – Museu de Arte de São Paulo, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM) e nos Institutos Goethe. Essas apresentações geraram encontros marcantes com artistas da arte concreta, da poesia concreta, da literatura, da música, do cinema e da holografia, entre eles Moises Baumstein, Israel Pedrosa, Glauber Rocha, Haroldo de Campos, Turibio Santos e Jorge Amado.
Dieter Jung (*1941) investiga a luz como material plástico no espaço imaterial desde a década de 1960. Sua descoberta da holografia nos anos 1970 o levou a criar obras que expandiram os limites da imagem, convidando o público a um verdadeiro “dançar diante do holograma”: perceber e participar. Participar e perceber.
Em 1985–86, Jung foi CAVS Rockefeller Fellow no Center for Advanced Visual Studies, no Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Cambridge, onde iniciou sua estreita amizade com Otto Piene. Seus trabalhos foram exibidos em importantes instituições, e recentemente o ZKM Karlsruhe dedicou-lhe uma ampla retrospectiva intitulada Between and Beyond. Dieter Jung recebeu uma série de bolsas e prêmios, entre eles o Rockefeller Fellowship do MIT. Suas obras integram coleções ao redor do mundo, como o Metropolitan Museum of Art de Nova York, o Taipei Fine Arts Museum, o ZKM Karlsruhe e a Berlinische Galerie.
Tereza de Arruda
Rhythm & Soul/Ritmo e Alma – Arte Contemporânea Brasileira
68projects by KORNFELD
Fasanenstr. 68,10719 Berlin



Rhythm & Soul – Arte Contemporânea Brasileira, concebida para o 68projects by KORNFELD, reúne artistas do Brasil cujas obras captam o pulso das paisagens culturais, políticas e identitárias do país. No coração de Berlim – cidade marcada tanto por seu legado musical quanto por seu engajamento sociopolítico – a exposição investiga como o ritmo, literal e metaforicamente, revela a alma de uma nação em transformação.
O Brasil é um país de contrastes: alegria e resistência, tradição e futurismo, festividade e protesto. Por meio de diferentes linguagens – pintura, desenho, objetos e gravura –, a mostra apresenta como artistas brasileiros transformam identidades individuais e coletivas em formas rítmicas de expressão visual. São exibidos trabalhos de diversas gerações e regiões: Francisco de Almeida, Rafael Baron, Panmela Castro, Lia D. Castro, Samir Dams, Mayara Ferrão, Alex Flemming, José Gomes, Rosilene Luduvico, muSa Michelle Mattiuzzi, OBastardo, Heitor dos Prazeres, Nádia Taquary, Ehuana Yanomami e Joseca Yanomami.
No Brasil, ritmo é mais que música; é uma forma de estar no mundo. Vibra nos tambores do Carnaval e nos grafites urbanos; ecoa nos protestos, no silêncio dos rituais religiosos e na arquitetura de cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. É simultaneamente concreto e simbólico – uma linguagem de resistência, identidade e alegria.
A imagem do Brasil é complexa e multifacetada. Sua identidade carrega séculos de cosmologias indígenas, espiritualidades afro-diaspóricas, violência colonial, migração e disputas contemporâneas. Vive em tensões: entre a exuberância e as feridas profundas, entre visões utópicas e desigualdades sociais, entre beleza natural e crise ecológica.
As obras apresentadas refletem essa complexidade. Reúnem abordagens distintas que, juntas, formam um panorama diverso e coerente. Francisco de Almeida retrata realidades sociais em composições fantásticas de xilogravura marcadas pelo sincretismo e pela visualidade do Nordeste. Rafael Baron traduz a força expressiva do cotidiano em retratos humorados e incisivos.
Panmela Castro e Lia D. Castro exploram corpo, memória, gênero e identidade afro-brasileira a partir de perspectivas complementares. Samir Dams amplia esse diálogo com mundos híbridos e têxteis inspirados no Carimbó, ritmo tradicional do Norte. Alex Flemming combina biografia e musicalidade sociocultural através de ready-mades como discos de vinil. José Gomes e Rosilene Luduvico transformam território e pertencimento em narrativas pictóricas e fotográficas sensíveis.
muSa Michelle Mattiuzzi e OBastardo investigam estados internos e simbolismos coletivos da cultura afro-diaspórica com linguagens gestuais e espiritualmente carregadas.
Heitor dos Prazeres, como referência histórica, traduz o ritmo urbano do samba em cor e movimento. Mayara Ferrão apresenta gestos de afeto entre cangaceiras que, ao desafiar normas sociais, reescrevem histórias do Nordeste. Nádia Taquary traduz rituais afro-brasileiros em objetos contemporâneos. Ehuana e Joseca Yanomami compartilham a profundidade cosmológica e o cotidiano de seu povo.
Muitos dos artistas participam pela primeira vez de uma exposição em Berlim, trazendo ao público uma cena artística vibrante, poética e insurgente – cujo ritmo, alma e força política ressoam para além do Brasil. Rhythm & Soul convida o público a perceber o ritmo não apenas como prazer estético, mas como força radical capaz de moldar corpos, cidades, narrativas e futuros.
Tereza de Arruda
OBastardo – Rhythm & Skin/Ritmo e Pele
69salon by KORNFELD
Fasanenstr: 69.10719 Berlin



O artista OBastardo, presente na exposição Rhythm & Soul, apresenta simultaneamente no 69salon sua primeira individual na Europa: Rhythm & Skin. Suas obras revelam uma sociedade refletida em sua própria complexidade: fragmentada, rítmica, viva. A pintura de OBastardo é uma das vozes mais marcantes da jovem geração afro-brasileira. Ele produz uma arte que cria visibilidade, entende o corpo como portador de história e expressa uma alma que não se deixa silenciar.
Rhythm & Skin é resultado de sua residência artística na Galerie Kornfeld, realizada entre outubro e dezembro de 2025, e inclui também obras produzidas recentemente no Brasil. Seus retratos têm força imediata, simultaneamente estética e política. As figuras aparecem como individuais e coletivas – imagens de uma sociedade em que história, resistência e futuro são inseparáveis.
Sua linguagem simbólica nasce das profundezas da cultura afro-brasileira. Cores, padrões e gestos carregam duplo significado: identidade pessoal e códigos de memória coletiva. As figuras raramente encaram diretamente o espectador – existem em um espaço entre orgulho, melancolia e potência espiritual.
OBastardo desenvolve uma técnica híbrida que combina gestualidade pictórica a elementos da visualidade urbana. Suas obras possuem estrutura gráfica intensa, marcada por linhas precisas, contornos fortes e uma paleta rítmica que dialoga com códigos visuais da rua, da cultura hip-hop e das estéticas afro-diaspóricas. As superfícies são construídas em camadas: sobre fundos coloridos e irregulares surgem figuras estilizadas, símbolos e padrões recorrentes, onde linhas de desenho permanecem visíveis.
Durante sua estadia em Berlim, o artista incorporou novos elementos, como uma paleta ampliada de tons de pele que reflete as múltiplas camadas da sociedade brasileira. Os protagonistas representados nas pinturas são deliberadamente anonimizados, distanciados de identidades específicas. Recorrentemente aparecem símbolos associados ao seu orixá Oxalufã – venerado como criador do universo e da humanidade, ligado à paz, à criação e ao equilíbrio, e associado à cor branca. Esses símbolos atravessam e protegem a composição.
Sua pintura revela realidades sociais frequentemente marginalizadas no Brasil: corpos negros, a energia das favelas, a espiritualidade do Candomblé, a dignidade daqueles que enfrentam a desigualdade diariamente. OBastardo transforma esses temas em poesia visual – simultaneamente denúncia e celebração, homenagem à sobrevivência, à beleza e ao direito de existir, de ver e de ser visto.
Tereza de Arruda
As exposições contam com o patronato da Embaixada do Brasil em Berlim e do Instituto Guimarães Rosa.
Fundada em Berlim, a KORNFELD estrutura sua atuação a partir de um modelo expandido de galeria, operando simultaneamente em três espaços independentes e complementares, todos localizados na Fasanenstraße, em Charlottenburg — um dos eixos históricos do circuito artístico da cidade. Essa configuração reflete uma estratégia institucional clara: articular pesquisa curatorial, experimentação artística e circulação de mercado em um mesmo território urbano, permitindo que diferentes estágios de produção e apresentação coexistam de forma integrada.
KORNFELD Galerie Berlin (Fasanenstraße 26) concentra exposições de maior fôlego, com artistas de trajetória consolidada e projetos que dialogam com a história recente da arte contemporânea.
68projects by KORNFELD (Fasanenstraße 68), fundado em 2014, funciona como project space e programa de residências, dedicado a práticas experimentais, processos em desenvolvimento e colaborações internacionais.
69salon by KORNFELD (Fasanenstraße 69) opera em escala mais intimista, voltado a exposições individuais e projetos que demandam proximidade entre obra, espaço e público.










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