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Os contos em Sonhos Elétricos, de Philip K. Dick, valem a pena?

É muito possível que, como leitores de literatura fantástica, já tenham ouvido falar de Philip K. Dick, nome que de imeditato, associamos o nome a Blade Runner, o Caçador de Andróides.

A adaptação cinematográfica de Andróides Sonham Com Ovelhas Elétricas? trata da crise moral de um caçador de replicantes numa San Francisco pós-nuclear e foi um marco na ficção científica do século XX, que embora tenha sido um fracasso em termos comerciais, tendo contruído o nome do autor para as próximas gerações.

Philip K. Dick

Philip K. Dick (1928-1982) foi um escritor prolífico, escreveu mais de trinta romances. Romances como o que originou Blade Runner, ou O tempo desconjuntado (Time out of joint) ou o póstumo Vozes da Rua (Voices from the street), exemplos de narrativas que PKD desenvolveu em um estilo único, que atravessa a linha entre a realidade e fantasia e o fez famoso após sua morte.

Mas talvez alguns leitores não tenham ainda se aventurado nos mais de 120 contos do autor; onde como um visionário do futuro, tratou de temas como empresas monopolistas, governos autoritários, estados alterados de consciência, mergulhando também em temas metafísicos e teológicos.

Tentaremos passar neste artigo um pouco de uma coletânea destes contos, que ganha nova edição, seguindo uma nova série televisiva. Um aviso para quem adentra nos mundos criados por Dick, abre nosso entendimento à ficção científica atual e ajuda a repensar certas convicções pré-estabelecidas em nossos dias, enquanto apreciamos sua prosa.

No caso, a prosa de Sonhos elétricos (Electric Dreams), que reúne dez contos que também ganharam uma adaptação recente para a TV, pelo streaming da Amazon. Os textos abordam realidades paralelas e distópicas, a relação entre homens e máquinas além de outras temáticas ao gosto desse mestre da ficção científica. Um reflexo de sua maneira muito pessoal e desconfiada de ver o mundo.

Seus textos foram fortemente influenciadas por sua vida pessoal. A culpa, causada após a morte de sua irmã gêmea, que tinha apenas cinco semanas, de desnutrição, o perseguiu por toda a vida. Não poderemos saber o grau de influência que a obsessão que tinha pelas drogas; principalmente o LSD, que era a droga da moda nos anos 1950/1960, poderia ter sobre sua mente privilegiada e suas visões.

A antologia de contos com uma estrutura e condição regulares e que aqui iremos fazer um breve comentário sobre cada um, sem que queiramos revelar a magia que transmitem.

Os contos

Abre com Peça de Exposição, que pode perfeitamente servir como um primeiro contato para o leitor mais alheio à sua obra. Nele, e ambientado em um mundo futuro, o escritor aborda a perda e o encontro da própria realidade em que vive um acadêmico de história apaixonado pelo século XX. Com um final marcante que lembra a Guerra Fria, o texto transmite ao leitor um ponto de encantadora melancolia.

A seguir temos O Passageiro Habitual, em que um homem tenta comprar um passagem de trem para uma parada que não existe e, diante da contínua recusa do vendedor, desaparece magicamente. Seu novo aparecimento, insistência e desaparecimento; desperta a curiosidade do bilheteiro, que começa a investigar o estranho lugar que não deveria existir, mas poderia. Seria esse lugar os sentimentos das tristezas e felicidades de nossa vida, pulsando em nossas veias?

Segue O planeta impossível. É baseado em uma ideia simples e situado em um futuro tão distante que nosso planeta natal é considerado um mito. Uma velha deseja investir grande parte das economias de sua longa existência em visitar a Terra antes de morrer, e dois pilotos desonestos (um a mais do que o outro) decidem enganá-la por saber que este planeta não existe e levá-la a qualquer outro que tenha um sistema solar semelhante.

Outra das histórias é O Enforcado Desconhecido, onde o autor explora a angústia de um inconsciente coletivo e irracional, por meio de uml vendedor de TV que observa como ninguém se surpreende com o cadáver pendurado em um poste. Dizer mais seria estragar a história.

Argumento de Venda é um conto que narra em suas páginas o boom crescente da publicidade e do consumismo na década de 1950, e que aqui é exponencialmente transferido para um futuro. A obsessão das empresas por vender torna-se insuportável e o protagonista é obrigado a tomar decisões que acabam mudando sua vida.

A Coisa-Pai investiga a história de uma família comum norte-americana, na qual o pai não é mais humano, uma criatura alienígena tomou seu lugar e o filho confrontado a pessoa que ele mais amava.. Com doses de ação, passagens engraçadas, aterrorizantes e também carregadas de emoção.

O fabricante de gorros, é um dos mais conhecidos contos, e possui uma qualidade indiscutível. Trata-se de uma sociedade controladora; na qual aqueles que não permitem que seus pensamentos se transmitam são perseguidos. Escondendo seus pensamentos através de gorros, que servem de escudo aos instrumentos governamentais de controle. Inclui denunciantes e resistência, ingredientes espetaculares de um mundo distópico.

Foster, You’re Dead fala explicitamente sobre a ansiedade gerada pela Guerra Fria junto com o uso que o mercado publicitário faz dela, famílias passam a consumir equipamentos de segurança de forma excessiva, frente a uma guerra nuclear que nunca acontece. Com tudo isso, o autor elabora uma história brilhante com um final verdadeiramente impressionante.

Humano é (Human is) nos apresenta uma mulher com um desejo notável de socializar e desfrutar de seu marido, algo impossível devido à sua natureza egoísta e voltada para o profissional. Tudo isso muda quando, por motivos de trabalho, o marido viaja para outro planeta. Dick nos faz considerar o que nos torna humanos em uma história soberba, muito representativa e que combina altas doses de inovação tecnológica e esperança.

Autofac é outra história magnífica que poderiam ter sido levado a um romance. Mais uma vez; Dick aborda o consumismo alarmante que acaba devastando os recursos naturais; a automatização dos meios de produção; o conflito entre as empresas pelos recursos e a luta do ser humano para não depender deles.

Conclusão

Temos dez contos com elementos intergalácticos bem inseridos; dando um sentido ao que está sendo narrado; onde seus protagonistas são expostos a sentimentos, perigos e questões diferentes em cenários tampouco insólitos, demonstram a sensação mais única que temos: a capacidade de escolher..

Temos em mãos, um soberbo conjunto de contos, que proporciona uma oportunidade imbatível de aproximação à obra de Dick. A riqueza de temas e a criatividade nas formas de abordá-los devem dar ao leitor motivos  para adquirir outros trabalhos do escritor norte-americano, e que a editora Aleph continue publicando seus demais contos.

Recomendamos a leitura e depois assistam a série do Amazon Prime, Electric Dreams.

Nota: Excelente – 4 de 5 estrelas

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