“Quem espera que a vida
Seja feita de ilusão
Pode até ficar maluco
Ou morrer na solidão…”
“Quando a realidade for banal e triste, invente uma história”. É essa a máxima que rege a vida da família protagonista de Esperando Bojangles. É um filme sensível, encantador até, mas com suficientes twists para deixar o espectador entretido. Protagonizado por duas grandes estrelas do cinema francês contemporâneo, é, em suma, um filme perfeito.
“Meet cute” é o nome dado ao primeiro encontro fofinho entre dois personagens que estão destinados a se apaixonar. Usado principalmente em comédias românticas, o “meet cute” é praticamente uma ferramenta essencial do cinema. O “meet cute” de Esperando Bojangles acontece numa festa em 1958 na Riviera. Georges (Romain Duris), mero vendedor de carros, está contando mil histórias sobre origens nobres e antepassados famosos para os presentes na soirée. Ele está para sair da festa quando vê uma moça dançando sem música, sem se importar com o que os outros pensam: é Camille (Virginie Efira), que naquele dia prefere ser chamada de Antoinette. É amor à primeira vista, ou melhor, à primeira mentira. Ela também conta histórias fantásticas sobre sua origem e sobre quem é, mas não importa quem ela é: o que importa, diz Georges, é que ela faz qualquer pessoa se sentir única.
Georges e Camille saem da festa e param em frente a uma igreja. Iam se casar, mas acabam somente transando no altar. Quando Georges acorda, Camille não está mais lá, mas não é tarefa difícil encontrá-la. Agora definitivamente juntos, têm um filho que batizam de Gary em homenagem ao ator Gary Cooper, e criam o menino do jeito amalucado deles, junto a uma ave exótica chamada Mademoiselle Supérflua, dando festas de arromba todas as noites e fugindo de responsabilidades.

Uma hora, como esperado, a vida idílica da família é abalada quando a realidade bate à porta – literalmente. Gary (Solan Machado-Graner) está sofrendo bullying na escola por seu jeito formal de falar e pelas histórias que inventa. Georges decide vender a oficina que lhe pertence, mas impostos atrasados ameaçam comer toda esta nova renda. Quando Camille decide agir, é do jeito impulsivo dela, e as consequências são nefastas. Será que essa família conseguirá continuar vivendo de sonho?
Você deve estar se perguntando quem é o Bojangles do título. Bem, Gary faz a mesma pergunta para o pai, que responde que Bojangles foi um homem que viajou muito e sempre levava seu cachorro consigo. É outra meia verdade do personagem: Bill ‘Bojangles’ Robinson foi um ator, cantor e sapateador muito famoso, sendo o mais bem-pago artista negro dos EUA na primeira metade do século XX. Tão famoso que foi imortalizado em música: em “Bojangles of Harlem”, melodia com a qual Fred Astaire dança no filme Ritmo Louco (1936). A música “Mr Bojangles, que dá título ao filme aqui analisado, não é sobre Bill Bojangles – afinal, ele nunca teve um cachorro. Outra mentira bem contada, ao estilo de Camille e Georges: a música foi gravada pela primeira vez em 1968, ou seja, era impossível o casal protagonista ter se apaixonado ouvindo a canção.
Há uma linha tênue entre ter imaginação e ter uma doença mental. Um escritor tem imaginação, mas não a confunde com a realidade. O caso de Camille é distinto. Numa época em que hospitais psiquiátricos eram verdadeiras prisões e os remédios disponíveis tinham efeitos colaterais terríveis, além de o estigma ser imenso, procurar um tratamento para uma doença mental poderia ser sujeitar-se a uma verdadeira tortura, principalmente se houvesse abandono e não apoio familiar. Felizmente, Camille tinha Georges, disposto a tudo, inclusive a andar pelado na rua fazendo companhia para uma igualmente nua e desorientada Camille. O filme não faz romantização da doença mental, mas sim, de uma maneira fofa e até divertida, ressalta a importância de uma rede de apoio.

Há um momento em que um oficial de justiça fala para os protagonistas de Esperando Bojangles que “Não se pode escapar da realidade”. Talvez por me identificar com a protagonista e querer, por vezes, viver como minha imaginação manda, eu me recuse a aceitar a vida como ela é. Mas a vida sempre nos pega de jeito, como este filme: Esperando Bojangles emociona, diverte, inspira e não deixa um espectador com os olhos secos ao final. Reitero o que escrevi antes: é um filme perfeito – em especial quando mostra que a vida não pode ser perfeita.
Nota: 10 de 10








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