O Quarteto Fantástico era sem dúvida a estreia mais aguardada na Marvel Studios após a compra da Fox, estúdio detentor da família superpoderosa e também dos X-Men, impedindo-os de integrar o MCU. Perdia em expectativa apenas para o longa dos mutantes, que deve chegar na Fase 7. A falta dos quatro fantásticos assim como dos filhos do átomo foi seriamente sentida tanto em “Guerra Civil” (ironicamente chamado de briga de pátio de escola, dado o escopo do evento bem menor do que nos quadrinhos), quanto em “Vingadores: Guerra Infinita”, livre adaptação da saga “Desafio Infinito”.
Soma-se a isso, a expectativa em relação a como Kevin Feige trabalharia essa equipe pioneira da Casa das Ideias, que até hoje não teve para si um filme considerado satisfatório por todos os fãs. Talvez o que gere menos discussão seja mesmo o longa de 2005, apesar de ter sofrido críticas. Não podemos nos esquecer da pérola trash de Roger Corman, de 1994, que sequer foi lançada, mas percorre de forma extraoficial o home vídeo desde os tempos do VHS até chegar na era do YouTube, e que acabou ganhando o carinho dos fãs justamente pela coragem de se constituir de parcos recursos, o que o tornou um cult.

Mas “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos” está entre nós, seguindo à risca a chamada “fórmula Marvel”. Assim como “Superman”, da rival DC, trata-se de uma transposição bastante fidedigna das páginas dos quadrinhos para a telona. Na trama, que inaugura a Fase 6 do MCU, acompanhamos um grupo de astronautas que passa por uma tempestade de raios cósmicos durante seu voo experimental. Ao retornar à Terra, os tripulantes descobrem que possuem estranhos poderes. Reed Richards pode esticar seu corpo, sua noiva, Susan Storm, ganha a habilidade de se tornar invisível, seu irmão mais novo, Johnny Storm, adquiriu o poder de controlar o fogo e voar, já o piloto Ben Grimm foi transformado em um monstro rochoso, com uma força descomunal. Ainda tentando compreender essas habilidades especiais, eles terão que lidar com uma grande ameaça que será o primeiro grande teste para seus poderes.
Essa terceira encarnação da equipe criada por Stan Lee e Jack Kirby tem como cenário um universo paralelo – até para justificar onde eles estavam que não ajudaram os Vingadores na luta contra o Thanos – que nada mais é do que uma realidade retro futurista, com aspecto dos anos 1960, época em que os personagens foram criados, com tecnologia baseada nas projeções da ficção científica da época. O design de produção é, sem dúvida um dos maiores trunfos do longa. Vemos ali computadores avançados com design daquela época, gigantescas telas convexas na Times Square, como das antigas TV de tubo, no lugar de painéis de LED. Fora as referências com que os fãs de longa data das HQs irão se deliciar.
O diretor Matt Shakman comandou os 9 episódios da série “WandaVision”, portanto já era íntimo tanto com o universo Marvel quanto com a estética retrô. Ele se vale, além da direção de arte, de um belo trabalho de fotografia assinado por Jess Hall e da ótima trilha sonora de Michael Giacchino – com um tema principal tão empolgante quanto o já icônico de Vingadores. O temor de uma linguagem mais televisiva por conta de o cineasta possuir mais experiência com TV do que com cinema se dissipa logo nos primeiros minutos, com a empolgante contextualização da história. Ele até usa influências do formato, mas em momentos em que isso confere até um certo charme.

No entanto, faltou ao roteiro digitados a oito mãos (por Josh Friedman, Eric Pearson, Jeff Kaplan e Ian Springer uma profundidade maior no aspecto psicológico dos quatro, o que é um ponto nevrálgico na Marvel, mas o MCU sempre costuma deixar um pouco de lado. Se nos quadrinhos da DC os poderes são uma benção, na Marvel são um fardo. Os heróis Marvel são fruto da paranoia nuclear da época da Guerra fria, seus superpoderes são anomalias ou mutações que os tornam aptos a salvar a humanidade, mas suas questões pessoais costumam ficar seriamente danificadas. Por mais que não seja um filme sobre a origem (que é muito bem resumida no prólogo)Reed, Sue, Johnny e Ben lidam com seus poderes com uma naturalidade que não condiz com os apenas quatro anos em que vivem dessa forma. E mesmo essas habilidades poderiam ser mais exploradas. Quem tem suas capacidades aproveitadas de uma melhor forma na trama é Sue, até por ser a personagem com maior destaque. A estrutura narrativa é a clássica de apresentação dos heróis, introdução da ameaça, dificuldade posta e a conclusão com uma batalha no coração de Manhattan (tudo remete inevitavelmente a “Os Vingadores – The Avengers”).

Já a escolha do elenco foi um acerto, o que é recorrente na Marvel Studios. O Reed Richards do “arroz de festa” Pedro Pascal traz uma humanidade e gera uma empatia que nenhuma versão anterior do personagem imprimiu. Vanessa Kirby é de longe a melhor Sue Storm do cinema e Coisa (Ebon Moss-Bachrach) é simpático e com o visual mais crível até agora. Já Johnny Storm de Joseph Quinn é o ponto mais fraco, muito mais pela forma como foi concebido no roteiro, mas ainda assim funcional. Para os que se preocupavam com uma mulher assumindo o papel de Surfista Prateado, Julia Garner o faz com bastante competência. E Galactus (Ralph Ineson) trouxe pela primeira vez pós-Thanos uma verdadeira sensação de ameaça, que o MCU tem a obrigação de explorar nos próximos projetos.
“Quarteto Fantástico: Primeiros Passos” mostra como a Marvel, mesmo ainda acomodada na zona de conforto de sua fórmula, que já mostra não possuir o mesmo frescor de outrora, não deve ser subestimada. Embora não seja um filme perfeito, ou o melhor filme do estúdio, tampouco a melhor adaptação de super-herói para o cinema, é uma eficaz introdução e mostra, junto com “Superman”, que o gênero não está morto. O futuro da equipe dentro dos planos do MCU desperta bastante interesse desde já.









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