Quatro trechos do livro Fict-Essays e contos mais leves, de Bert Jr.

Bert Jr. (@bertjr.escritor) é gaúcho de Porto Alegre. Graduou-se em História, pela UFRGS, e Diplomacia, pelo Instituto Rio Branco. Sua experiência como diplomata já o levou a vários países. Estreou na ficção em 2020, com “Fict-Essays e Contos Mais Leves” (Editora Labrador, 192 pág.). Em 2021, publicou o seu primeiro livro solo de poesia: Eu…


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Bert Jr. (@bertjr.escritor) é gaúcho de Porto Alegre. Graduou-se em História, pela UFRGS, e Diplomacia, pelo Instituto Rio Branco. Sua experiência como diplomata já o levou a vários países. Estreou na ficção em 2020, com “Fict-Essays e Contos Mais Leves” (Editora Labrador, 192 pág.). Em 2021, publicou o seu primeiro livro solo de poesia: Eu canto o ípsilon E mais. No ano seguinte, lançou um novo volume de contos, Do Incisivo ao Canino, e um segundo livro de poemas, intitulado Nevoandeiro. Em 2023, publicou Vi&Verei, contendo poemas curtos, frases e axiomas, e Sem pé com cabeça, uma antologia de crônicas humorísticas. Colabora com as edições mensais da revista eletrônica Conexão Literatura. Em 2024, tenciona lançar seu primeiro romance.

Trecho 1 do livro “Fict Essays e contos mais leves”

Bert Jr- 

Neandertala brasiliensis:

No meio de meia dúzia de outros casais, ele sentiu Edicleia apertá-lo contra o torso largo e forte, de seios pequenos. Com uma das pernas encaixada entre as poderosas coxas dela, Faber viu-se dominado pela volúpia que o tomava de assalto. Era uma sensação sem igual, que emanava das plantas dos pés, dali se irradiando feito constelação incandescente, coisa demodivina, por todas as reentrâncias e protuberâncias corporais, num ímpeto capaz de ressuscitar até o último de seus folículos capilares. “Temos que conversar”, sussurrou ele no ouvido esquerdo de Cleia, incomodado com a dualidade da atração por ela, a um só tempo paixão de homem e de cientista. Precisava colocar tudo logo às claras, antes que ela pudesse sentir-se manipulada por ele. Devia contar-lhe sobre o “protocolo de identificação pró-neandertal”, dizer-lhe que ela preenchia a maioria dos requisitos, que ele já a considerava candidata em potencial ao programa de recapacitação genética da humanidade, que desejava mapear o seu DNA… porém, quanto ao mapa astral, não havia necessidade de teste nenhum, pois ele estava convicto de que ambos eram plenamente compatíveis, não só hoje, como também amanhã, e pelos dias e anos seguintes, eternidade afora. A tormenta de inquietações dissipou-se assim que um beijo inesperado veio mudar o clima na sua atmosfera existencial. No entremeio de lábios e línguas, pedras brutas viraram torrões de açúcar, e Faber pôde sentir a constelação incandescente expandir-se mais ainda, os confins do universo ficando para trás, na poeira das estrelas…

    Quando a música parou repentinamente, e ele se viu obrigado a descolar-se de Cleia, um insight visceral lhe trouxe o entendimento de que a felicidade navega contra as correntezas oceânicas do mundo. Juntos, os olhos de ambos se abriram para o que acontecia no boteco naquele exato momento, onde quatro indivíduos armados gritavam para que todos ficassem quietos, enquanto fossem colocando os seus pertences – carteiras, relógios, joias – sobre as mesas. Era evidente que os sujeitos não estavam para brincadeira, e que o termômetro da truculência podia, num instante, subir de nível dramaticamente caso alguém se atrevesse a contrariá-los. Um dos quatro, barba de três dias na cara, gorro preto sebento enfiado na cabeça, achegou-se para o lado deles e, apontando para a pulseira e os anéis de Cleia, ordenou: “Pode tirar, tira tudo, hoje é dia da princesa aí ficar sem nada duro no corpo… se bem que a gente pode dar um jeito nisso”, finalizou, lançando sobre ela o par de olhos concupiscentes. “Eu, hein”, exclamou Cleia, “imagina se um marginalzinho asqueroso desses vai ter vez comigo, mas nem morta!” “Isso a gente também pode providenciar”, acrescentou o marginalzinho, assanhando o revólver no ar. “Acho melhor fazer o que eles querem”, cochichou Faber. “Entregar as minhas joias de família? A pulseira da bisavó Didinha? Nem pensar, pode esquecer!” “Olha aqui, ó, moça”, vociferou o mais grandalhão deles, com jeito de chefe da quadrilha, “os anéis vêm pra gente, sem dedo ou com dedo”, e foi tirando uma faca pontuda da cintura. “Vem pegar se tu é homem!”, desafiou ela, assumindo posição de combate. Antes que o grandalhão pudesse tocá-la, Faber abraçou-o com força, caindo os dois por cima de uma mesa.

Trecho 2 do livro “Fict Essays e contos mais leves”

Bert Jr.

Sincronicidades

Ou seja, para o brasileiro, em geral, no plano do inconsciente, o paraíso existirá, sim, aqui mesmo, no país chamado Brasil, quando seus habitantes tiverem aprendido a sentir-se totalmente satisfeitos, recompensados e pacificados pelo fato de poder viver em ambiente de tamanho viço, beleza e fertilidade. O bem-estar geral existe, portanto, mais que tudo, num tempo futuro e num espaço natural idealmente preservado, prenhe de riquezas latentes, o que perfaz uma ética do adiamento e da herança, marcada por forte componente estético. A crença mítico-sociológica relacionada ao patrimônio ambiental do Brasil, um dos poucos países do mundo dotados de megadiversidade biológica, considera que a grandeza, exuberância e pujança ambientais sejam capazes de replicar-se, mimeticamente, em outros setores nacionais e, ao final, capacitá-los a vencer as destruições criminosas de toda ordem, que atentam contra o potencial de desenvolvimento e a qualidade geral da vida no país. O grau de adesão mítico-sociológica nesse domínio tem variado, sobretudo, em função das tensões existentes entre o ideal ético-estético da preservação – essencial para que se mantenha a expectativa de um futuro civilizatório idílico – e a necessidade de emprego dos recursos naturais disponíveis para alavancar maior grau de crescimento econômico no tempo presente. Essa tensão larvar vai minando, aos poucos, as bases da adesão mítico-sociológica, a qual, por sua vez, encontra amparo em certas medidas tomadas no plano jurídico-legal, tais como o estabelecimento de amplas reservas indígenas, bem como de uma legislação ambiental rigorosa. Importante é notar, assinala o Dr. Reis, que na fabulação mítico-sociológica ambiental brasileira, somente ao recuperar valores arquetipicamente indígenas o brasileiro irá tornar-se, de fato, civilizado. Como muito bem intuem os carnavalescos brasileiros, o utópico cidadão do futuro derivará de uma espécie de síntese dos opostos, tipicamente característica de civilização surgida a partir da mestiçagem étnico-cultural de diferentes povos. Nesse futuro imaginário, o civilizado reconhecerá, enfim, sua incapacidade de chegar ao paraíso, por não conseguir gerir adequadamente o patrimônio ambiental, e terminará optando por converter-se espiritualmente em índio, etapa em que passará ao papel de novo agente civilizador, a quem caberá disseminar regras sociais inspiradas no equilíbrio e beleza do mundo natural. Enquanto essa evolução ético-estética não acontece, o grau de adesão mítico-sociológica oscila ao sabor das intempéries político-econômicas e socioculturais da atualidade.

Trecho 3 do livro “Fict Essays e contos mais leves”

Bert Jr.

Freddy Quin

Frederico Quintino possuía a índole da pontualidade. Isso ajudava a causar boa impressão, o que era especialmente positivo em períodos como aquele, quando principiava nova relação de trabalho, e num emprego que, felizmente, lhe caía bem, oferecido pelo amigo de todas as horas, Rodrigo Dambrósio. Contando pouquíssimo tempo no posto, Quintino se achava encantado com as suas funções. Embora não tivesse havido nenhum ato formal de posse – formalidades não constituindo exatamente o forte das agências publicitárias – elaborara, de si para si, um juramento silencioso de fidelidade ao trabalho. De manhã cedo, ao sentar-se diante da mesa de escritório, a ocupar parte do espaço da recepção da agência, Quintino repassava mentalmente, como numa prece, enquanto o telefone não estrilava e a tela do computador se acendia, os termos de sua jura diária:

De tudo ao meu emprego estarei atento

Sóbrio, sempre, e com empenho, e tanto

Que mesmo em face do maior desespero

Não se arrede dele o meu traseiro

Quero vivê-lo em cada vão, ou canto

Em quietude ou atroz balbúrdia

E nunca minha voz ante uma ordem

Se levante, por mais estapafúrdia

E assim, se depois me demitirem

Por critérios de alta chefia

Ou intrigas de hierarquia

Possa, do emprego que tive, dizer a outrem

O que fiz, de novo faria, sem deslize

Ainda que a empresa não me indenize

Trecho 4 do livro “Fict Essays e contos mais leves”

Bert Jr.

Quatro teses sobre Deus

E por que é assim, irmãos? Por que as nossas vidas oscilam entre esses dois polos: o positivo, quando estamos em alta, e o negativo, quando estamos em baixa? Por que tantos picos e depressões? Pois eu vos digo: não é mera casualidade o uso disseminado que fazemos da luz como metáfora para a presença divina. Aprendemos, todos, que a luz se comporta como onda, apresentando picos e depressões em sua trajetória. E mais, a luz possui natureza dual, corpuscular e de pura energia eletromagnética. Assim é Deus. O padrão oscilatório e cíclico que observamos na natureza e nas nossas vidas reflete a personalidade de Deus, que é bipolar. Segura essa, irmão! Bipolar, eu disse. Ou seja, Deus transita entre a euforia e a depressão, e isso se reflete na sua vida, na minha, na de todo mundo. Essa é a verdade. Tem sido assim desde o começo da Criação. Quando criou o universo em que vivemos, Deus teve um primeiro momento de euforia. Criou sóis, planetas, luas, asteroides, e, exultante, deu umas instruções àquela massa de matéria, para ser seguida feito receita de bolo. Logo a seguir, deixou tudo no ar, e ficaram aqueles corpos celestes enormes boiando na imensidão do espaço sideral, a esmo, durante uns dez bilhões de anos. O bolo cresceu, agigantou-se, extravasou, passou a não mais caber na fôrma de uma só galáxia, e nada de Deus reaparecer. Estava amuado, tinha perdido o interesse, achava a Criação um saco, com aqueles fenômenos que se repetiam, e se repetiam… Um belo dia (provavelmente não tão belo assim), cerca de quatro bilhões de anos atrás, Deus tem uma ideia para um novo invento, que o tira da depressão: “Vou criar uns bichinhos que se movem e que sejam capazes de crescer e se reproduzir.” Deus, então, cria os bichinhos, e depois fica mexendo aquela sopa primordial com o dedo indicador, aquele mesmo que Michelangelo retratou tão bem na cúpula da Capela Sistina. Lá pelas tantas, o Criador se cansa de agitar a sopa, lambe o dedo, dá umas instruções para os bichinhos, e some. Não se sabe mais dele por um bom tempo. Enquanto isso, os bichinhos crescem, se reproduzem, se multiplicam, se diversificam, surgem peixes, depois lagartixas, e lagartos, e lagartões, e, quando se vê, a Terra está infestada de monstrengos famintos, com o poder de nocautear com um pum animais menores, como os mamíferos, por exemplo. Passados uns três bilhões e meio de anos, Deus resolve dar uma espiada em como andam as coisas, se assusta com o descalabro reinante e ordena a um grande meteoro que colida imediatamente com a Terra. Depois da catástrofe, já extintos os dinossauros, o Senhor articula um par de instruções aos animais que sobraram, para que controlem o apetite e não cresçam tanto, e volta a sumir. Dali uns sessenta e cinco milhões de anos, Deus torna a se interessar pelo planeta azulado, juntamente com a vida que nele semeara. Qual não foi Sua surpresa ao notar que uma das espécies de Sua coleção de macacos fazia um enorme esforço para andar ereta. Deus gostou daquela atitude evolutiva e pensou: “Por que não fazer essa pobre criatura parecer-se um pouco comigo? Se for só um pouquinho não vai fazer mal nenhum…”