Trechos do livro “As ruas sem nome”, de Tieko Irii

Tieko Irii é artista visual, diretora de arte e escritora paulistana. Formada em cinema pela FAAP em 1988, trabalhou por 25 anos em publicidade e no audiovisual, com passagens por filmes como Os Matadores (1987), O Menino Maluquinho 2 (1998), Castelo Rá-Tim-Bum (1999), e séries como Retrato Falado (Rede Globo). Publicou três livros infantis antes…


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Tieko Irii é artista visual, diretora de arte e escritora paulistana. Formada em cinema pela FAAP em 1988, trabalhou por 25 anos em publicidade e no audiovisual, com passagens por filmes como Os Matadores (1987), O Menino Maluquinho 2 (1998), Castelo Rá-Tim-Bum (1999), e séries como Retrato Falado (Rede Globo). Publicou três livros infantis antes de se dedicar à “As ruas sem nome”, sua primeira obra autobiográfica. Viveu no Japão entre 1989 e 1991, experiência que influenciou sua pesquisa sobre memória, diáspora, gênero e raça.

Trecho do capítulo “Ilhas de solidão”

Fui descobrindo que a rua era o lugar onde conseguia atrair olhares furtivos, nela me diluía na multidão de rostos e escondia meus fracassos e desejos. 

Um dia estava passeando pelo Itaim com meu vestido preferido de alças, feito de algodão cru bordado e lastex no busto, uma bolsa a tira colo e meus fedidos chinelos de couro. Cruzei meu olhar com um moço bonito de olhos verdes, visivelmente mais velho. Ele trabalhava em uma das lojas de roupas na João Cachoeira, uma rua que concentrava o comércio do bairro, com suas lojinhas uma ao lado da outra. Começamos a nos encontrar após o seu trabalho e namorar às escondidas nas esquinas e em escadarias dos prédios pouco vigiados. Ali comecei a perceber que havia uma curiosidade de certos homens em querer desvendar os mistérios do Oriente, que me incomodava. Eu queria ser apenas vista como mais uma garota. Nunca sabia se gostavam realmente de mim ou dos estereótipos da gueixa ou da imagem hipersexualizada da japonesa, um objeto para ser experimentado e descartado. Porém, o jogo de sedução era divertido, eu era caça, mas também caçador; mas só que não.

Naquela época, minha mãe foi submetida a uma cirurgia do coração. O hospital Santa Isabel era no centro da cidade, longe de casa. Meu pai ficou sobrecarregado na lavanderia e não conseguíamos visitá-la. Papai desenvolvera uma labirintite. Nunca o vi tão solitário, se encostando pelas paredes. Ele era um silêncio apático, não ousava me fazer perguntas, para evitar algo que definitivamente não saberia como lidar.

Em uma noite escura, papai foi visitar minha mãe no hospital e eu decidi sair às escondidas de moto com o Beto. Chegamos em uma praça bem distante, no Alto de Pinheiros. Ele me deitou na grama, começou a me beijar, tirou minha roupa tão rapidamente e fui…ou foi assim. 

Não sabia se havia consentimento ou não possível nessa situação, não sabia nada, era apenas uma garota que queria ter um namorado. Não foi bonito e nem o esperado para uma primeira vez. Não foi romântico, pois foi sem palavras, ele ocupava minha boca com sua língua intrusa e insistente para que não pudesse gritar ou mesmo esboçar qualquer prazer. Foi nesse desalento que cumpri o meu desejo, sem pecado e nem magia.

Naquela noite, mamãe fizera falta, mesmo se ela brigasse comigo e me obrigasse a dizer a verdade, seria melhor do que o vazio que sentia no peito. Éramos ilhas de solidão. 

Trecho do capítulo “O Japão revelado pelo Monte Fuji”

Fuji-san é a primeira coisa que podemos ver quando chegamos ao Japão. Dos céus, a imponência do vulcão divino se revela pela sua imensa extensão que repousa como uma velha senhora nas terras japonesas. Eterno e tranquilo, mas com riscos de erupções. Fuji-san era o próprio Japão para mim. Imponente, milenar e sagrado. 

Era uma manhã fria e nublada quando fui conhecer o Monte Fuji pessoalmente. O céu se expandia em nuvens que se apaziguavam conforme alcançávamos as proximidades da montanha. O caminho de lagos, templos e parques se clareava. Pouco a pouco começávamos a vislumbrar a grandiosidade do misterioso Fuji, que se revelava e se escondia ao sabor dos ventos. O tempo deslizava tranquilo por entre as nuvens. Desapercebidos chegamos a um local que só poderíamos seguir a pé. Quando saímos do carro, o frio era cortante. O Fuji-san parecia estar a muitos quilômetros de distância. Vamos subir? – perguntei. Já estamos na metade, respondeu o professor e me espantei. Aquele Japão parecia longe e inalcançável pela névoa que o encobria. Descobri que era exatamente assim que me sentia, depois de vários meses morando em Tóquio; meu Japão imaginário se ocultava por trás da vida urbana contemporânea, revelando-se em pequenos flashes, passeios ou viagens. 

Quando eu fui para o Japão, secretamente achava que finalmente me tornaria uma japonesa, descobriria algo meu, próprio e concreto. Imaginava que bastaria pôr meus pés na Terra do Sol Nascente para que meu japonismo aflorasse como em um passe de mágica, mas foi bem diferente, eu não me tornei uma japonesa. Ao contrário, era vista como uma estrangeira qualquer. Não entendia por que os ocidentais eram bem recebidos, enquanto eu parecia desapontá-los. Não sentia o reconhecimento identitário por ser filha de japoneses.

Na busca de minha japonicidade, muitas vezes me deparava com um muro ao perguntar para os japoneses algum aspecto cultural ou social que não compreendia. Para minha surpresa ouvia a mesma resposta: Ah, você não vai entender, porque você não é japonesa. Você é diferente, você não nasceu aqui. Nós somos assim porque o Japão é uma ilha. Você não tem o espírito Yamato, o espírito japonês.  Eu ficava intrigada, mas me resignava e não ousava provocar meus interlocutores com minha impertinência. E a conversa terminava. Eu me perguntava por que não iria entender e me frustrava. 

As ruas do Japão não têm nome. As ruas são apenas espaços vazios entre os quarteirões. Nessa época, lembro que me contaram uma lenda urbana na qual os samurais não queriam ser encontrados facilmente e por isso havia um complexo sistema de endereçamento para localizar as residências. Assim como os samurais, eu não encontrava facilmente as respostas sobre mim e minha família.


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