Como Jeff Buckley inspirou o renascimento do Radiohead com “Fake Plastic Trees”

No início dos anos 1990, o Radiohead vivia um momento de incertezas. Depois do sucesso inesperado de ‘Creep’, o quinteto de Oxford havia conquistado atenção mundial, mas também ficou preso a uma identidade da qual não se sentia dono. Enquanto as gravadoras viam na canção um modelo a ser repetido, Thom Yorke e seus companheiros…


Fake Plastic Trees

No início dos anos 1990, o Radiohead vivia um momento de incertezas. Depois do sucesso inesperado de ‘Creep’, o quinteto de Oxford havia conquistado atenção mundial, mas também ficou preso a uma identidade da qual não se sentia dono. Enquanto as gravadoras viam na canção um modelo a ser repetido, Thom Yorke e seus companheiros buscavam justamente o oposto: escapar da sombra de um hit que, em vez de libertá-los, parecia aprisioná-los.

As pressões eram imensas. Parlophone, no Reino Unido, e Capitol, nos Estados Unidos, não estavam convencidas de que a banda poderia emplacar outro sucesso. A desconfiança se espalhava até mesmo na equipe de gerenciamento, que começava a sondar novos artistas, prevendo que o “trem Radiohead” poderia descarrilar a qualquer momento. Entre crises internas e discussões acaloradas, Yorke admitia sentir-se esgotado mental e fisicamente, levando o clima da banda a um ponto quase insustentável.

“Tudo simplesmente veio à tona. Todas as coisas pelas quais sempre brigamos e, eu acho, quando começamos nossa bandinha, quando éramos crianças na escola, nunca foi realmente sobre ser amigos ou algo assim”, disse Yorke à NME. “Anos e anos de tensão e de não dizer nada uns aos outros, basicamente todas as coisas que se acumularam desde que nos conhecemos, tudo veio à tona em um único dia. Estávamos cuspindo, brigando, chorando e dizendo todas as coisas sobre as quais você não quer falar — e eu acho que, se não tivéssemos feito isso, teria mudado completamente o que fizemos.”

Foi nesse contexto turbulento que entrou em cena o produtor John Leckie. Conhecido pelo trabalho com o Stone Roses, ele foi chamado para ajudar a dar forma ao segundo álbum. Antes mesmo de começar as gravações de fato, sua missão inicial era encontrar um single capaz de acalmar a sede das gravadoras por algo radiofônico. Em meio a dezenas de canções apresentadas em ensaios, nada parecia se encaixar. O fantasma de ‘Creep’ pairava sobre tudo o que a banda fazia.

Entre várias ideias em construção, uma canção despontava de maneira discreta: ‘Fake Plastic Trees’. Diferente das outras, era um tema intimista, construído por Yorke praticamente sozinho, ao violão. A letra, carregada de imagens melancólicas e observações irônicas sobre a artificialidade da vida moderna, refletia as angústias mais profundas do vocalista. Ainda assim, ninguém sabia ao certo como transformá-la em algo que soasse completo. Tentativas de arranjos iam e vinham, mas o resultado nunca satisfazia.

Foi então que Leckie sugeriu uma pausa. Ele convidou Yorke e parte da banda para assistir a um show de Jeff Buckley em Londres, no pequeno The Garage. O impacto foi imediato. Sozinho no palco, apenas com uma Telecaster e uma voz capaz de transitar do sussurro à explosão, Buckley hipnotizou a plateia — e especialmente Thom Yorke. O vocalista do Radiohead percebeu, diante de seus olhos, o poder devastador da vulnerabilidade exposta sem filtros.

Jeff Buckley

“Ele só tinha uma Telecaster e uma pint de Guinness. E foi simplesmente incrível, realmente inspirador”, contou o baixista Colin Greenwood à Uncut. “Depois voltamos para o estúdio e tentamos uma versão acústica de ‘Fake Plastic Trees’. Thom se sentou e a tocou em três tomadas, e depois simplesmente caiu em lágrimas. E foi isso que usamos na gravação.”

Para Yorke, o registro parecia cru e íntimo demais para ser lançado. Mas seus colegas e Leckie não tiveram dúvidas: aquela interpretação capturava algo único. Era justamente o que faltava para dar vida ao álbum.

A partir desse momento, as peças começaram a se encaixar. “The Bends”, lançado em 1995, tornou-se o verdadeiro marco inicial da identidade criativa do Radiohead. Embora ainda mantivesse canções de apelo mais direto, como ‘High and Dry’ e ‘Just’, foi em faixas como ‘Fake Plastic Trees’ que a banda encontrou o equilíbrio entre melodia acessível e profundidade emocional. A canção, lançada como terceiro single, mostrou ao mundo um Radiohead capaz de emocionar sem depender de fórmulas previsíveis.

Tecnicamente, a gravação também traz curiosidades. Yorke usou microfones distintos para voz e violão, mas problemas técnicos fizeram com que boa parte do som acústico fosse captado de forma imperfeita. Ainda assim, o que prevaleceu foi a intensidade da performance. Posteriormente, camadas de Hammond e guitarras processadas deram à faixa ares grandiosos, próximos do muro de som de Phil Spector, mas o coração da canção estava na voz frágil e poderosa de Yorke.

O episódio deixou uma marca definitiva na trajetória do Radiohead. O encontro com Buckley lembrou a Thom que expor-se emocionalmente não era fraqueza, mas força. O próprio Yorke reconheceria anos depois que aquele show foi o gatilho para recuperar uma parte de si que estava escondida, sufocada pela pressão do sucesso e pelas expectativas externas.

Com o tempo, “The Bends” passou a ser considerado por muitos o verdadeiro início da grande discografia do Radiohead, preparando o terreno para experimentações ainda mais ousadas em “OK Computer” e “Kid A”. Mas, sem o impulso emocional de ‘Fake Plastic Trees’, talvez a história tivesse sido bem diferente.

Jeff Buckley, que morreria tragicamente em 1997, acabou exercendo uma influência indireta, mas fundamental, sobre uma das bandas mais importantes das últimas décadas. Sua performance em um clube londrino não apenas inspirou uma canção, mas reacendeu a confiança criativa de Thom Yorke e, por consequência, salvou o futuro do Radiohead.

No fim, ‘Fake Plastic Trees’ não foi apenas uma música de sucesso. Foi a canção que mostrou ao mundo — e à própria banda — que o Radiohead podia transcender o rótulo de “one-hit wonder”. Uma obra nascida do colapso, que colocou a banda de vez entre os nomes relevantes da indústria.