O multi-instrumentista brasileiro Hermeto Pascoal morreu na noite deste sábado, aos 89 anos, conforme anunciou sua equipe em comunicado publicado nas redes sociais (via Reuters).
“Com serenidade e amor, comunicamos que Hermeto Pascoal fez sua passagem para o plano espiritual, cercado pela família e por companheiros de música. No exato momento da passagem, seu Grupo estava no palco, como ele gostaria: fazendo som e música”, informou a nota assinada por familiares e integrantes de sua equipe.
“Como ele sempre nos ensinou, não deixemos a tristeza tomar conta: escutemos o vento, o canto dos pássaros, o copo d’água, a cachoeira, a música universal segue viva.”
Figura lendária e inconfundível no cenário do jazz internacional, Hermeto era reconhecido tanto pela barba espessa e os longos cabelos brancos quanto pela inventividade sem limites. O apelido de “O Bruxo” era por transformar em música qualquer coisa — de um leitão vivo a chaleiras cheias d’água — Críticos destacavam seu talento como compositor, arranjador e improvisador, além da maestria em instrumentos como teclados, violão e saxofone.
Nascido em Arapiraca, Alagoas, em 22 de junho de 1936, Hermeto cresceu afastado do trabalho no campo por ser albino. Em vez disso, mergulhou cedo no universo sonoro, tocando o acordeão herdado do pai e prestando atenção às melodias da natureza. Aos 14 anos, mudou-se com a família para Recife, onde iniciou a trajetória profissional que o levaria mais tarde ao Rio de Janeiro e a São Paulo.
Ao longo da carreira, colaborou com grandes nomes da música brasileira, como Elis Regina, e expandiu horizontes fora do país ao lado do percussionista Airto Moreira, que o levou aos Estados Unidos no fim da década de 1960. Lá, conheceu Miles Davis — uma amizade temperada por música e até por uma improvável luta de boxe.
Segundo Hermeto, Davis, intrigado por seu olhar estrábico, acabou levando um golpe certeiro no rosto durante um treino. “Foi aí que ele começou a me chamar de Albino Louco”, contou o brasileiro anos depois. O trompetista não apenas o convidou para gravar no disco “Live Evil” (1970), como também o descreveu como “o músico mais impressionante do mundo”.
Hermeto seguiu explorando sons de forma singular: em ‘Slaves Mass’ (1977), abriu uma faixa apertando um leitão para fazê-lo gritar — imagem eternizada também na contracapa do álbum. Brinquedos, chifres de vaca, apitos e objetos do cotidiano faziam parte do seu arsenal sonoro.
Apesar de ser constantemente associado ao jazz, o músico resistia a rótulos. “Quando as pessoas ouvem minha música, acham muito difícil identificá-la e classificá-la”, declarou à revista Jazzwise em 2022. “Quando pensam que estou fazendo uma coisa, já estou fazendo outra… É muito líquido”.
Mesmo aos 80 anos, Hermeto permanecia ativo, compondo, gravando e conduzindo grupos. Em 2022, em Londres, incentivou jovens músicos a expandirem seus limites antes de soltar improvisos intensos em cena.
Segundo a família, detalhes sobre cerimônias públicas de despedida serão divulgados em breve.
“Quem desejar homenageá-lo, deixe soar uma nota no instrumento, na voz, na chaleira e ofereça ao universo. É assim que ele gostaria”, concluiu o comunicado.









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