Por trás da sempre ensolarada Copacabana dos cartões postais, esconde-se um mundo solenemente ignorado pela mídia, mas que finalmente apresenta suas formas no álbum gráfico de S. Lobo e Odyr. Copacabana é mais do que um bairro carioca, é um verdadeiro espaço mitológico que ascende à luz no crepúsculo, libertando suas prostitutas, turistas, policiais corruptos, malandros, porteiros e artistas da imaginação coletiva para a realidade crua.
O tratamento verossímil é o grande destaque deste álbum. O linguajar chulo e termos de baixo calão são usados extensivamente, porém, não com uma conotação negativa, mas por ser a forma de expressar ensinada pela vida. Assim, através dos diálogos despretensiosos de Lobo e da arte propositalmente poluída de Odyr, nos é permitido vivenciar de quadro a quadro o melhor e o pior que Copacabana pode oferecer – do erotismo devasso à melancolia urbana, da sujeira das ruas à violência urbana e transgressão cultural de seus habitantes. Elementos tão comprimidos no cotidiano do bairro quanto seus edifícios. Aliás, edifícios estes que servem de palco para nossa protagonista.
Diana é mais uma prostituta disputando as esquinas da Atlântica, porém, poucos dias antes de sua menstruação, ela se vê metida numa enrascada. Além de juntar dinheiro para se manter e ajudar sua pobre mãe, é preciso pagar nos próximos dias sua dívida com o Cadelão, um agiota louco para lhe enrabar. Diana busca então ganhar seu suado dinheiro honestamente, nem que depois precise fazer uma plástica no instrumento de trabalho. Desgraça pouca é bobagem, e cada vez que Diana se aproxima de seu objetivo algo dá errado.
Por fim, ela acaba se envolvendo com um turista excêntrico, mas cheio da grana. Como na vida nada vêm fácil, a situação evolui para um duplo assassinato e uma bolada em dinheiro, que gente ruim conclui estar em mãos erradas. “Aí fudeu o cu da Creuza!”, como diria nossa protagonista. Mas nada que a afete, porque trabalhar como prostituta não é fácil e exige um rebolado dentro e fora “do serviço”. Mesmo com a merda no ventilador, ela não desce do salto, encontrando tempo ainda para viver seu romance moda Copacabana.
Para (re)criar Copacabana, Lobo revelou ter buscado inspiração nas mais diversas histórias capturadas ao longo de seus anos no bairro, principalmente nas noites insones de passeios pelas calçadas e bares do lugar. Já o adequado produto gráfico do álbum, realizado por Odyr, se tornou possível após o ilustrador gaúcho ter vivido dois anos em Copacabana capturando sua beleza suja, um trabalho perceptivo e impressionante que foge completamente dos costumeiros estilos atribuídos à retratação da vida carioca.
Sem dúvidas este lançamento da editora Desiderata é o melhor trabalho nacional neste ano, recomendo para todos.









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