A piada vem praticamente pronta: se o filme francês “Enzo” fosse sobre uma menina, se chamaria “Valentina”? Os nomes de bebês que se popularizaram nos últimos anos, ao ponto de virar meme, não fazem uma piada à altura do turbilhão de emoções que é acompanhar o amadurecimento de um adolescente francês privilegiado chamado Enzo.
Enzo (Eloy Pohu) parou de estudar e arranjou um emprego como aprendiz num canteiro de obras. Ele fez isso para se ocupar, não para ajudar os pais, que podem numa tarde qualquer matar o tempo tomando vinho e nadando na piscina de borda infinita na casa deles. Seu pai, professor de matemática, quer que ele volte para a escola, mas Enzo é categórico e romântico: se acontece um desastre natural, as pessoas e seus pensamentos perecem, mas seguem firmes as paredes que aqueles como Enzo erguem todos os dias.

No canteiro de obras Enzo conhece outras realidades através de seus colegas de trabalho. Dois ucranianos, que discutem entre si em sua língua materna, precisam voltar para o país para lutar na guerra, não porque são obrigados a se alistar aos 25 anos, mas porque se não forem a Ucrânia “deixará de ser nosso país”, diz Miroslav (Vladislav Holyk). Vlad (Maksym Slivinskyi) não quer ir lutar, diz que já é francês e não mais ucraniano.
O choque entre as duas realidades move o filme e faz Enzo repensar seu estilo de vida. A noite em que ele come pizza na casa dos ucranianos e depois é impedido de entrar numa boate sem documentos é descrita por ele como “a melhor noite da minha vida”. Após esta declaração, o pai o abraça, mas isso não muda o fato de o pai desaprovar o que Enzo faz.
Paralelo ao amadurecimento profissional, Enzo experimenta o despertar sexual junto da amiga Amina (Malou Khebizi). Um mergulho na piscina dele é suficiente para Enzo chamá-la de namorada e mostrá-la para seus amigos do trabalho. Mas o filme se permite criar certa ambiguidade quando, numa noite, Enzo vê Vlad com outros olhos.
“Enzo” é um filme sobre muitas coisas, entre elas a masculinidade. Isso fica patente nos belos desenhos realistas que o protagonista faz. Seu desenho mais celebrado é de um cervo, e fica pendurado na parede da sala. Ele fez diversos estudos nus, mas de estátuas e não de modelos vivos. A masculinidade tóxica, ligada à guerra, é o que incentiva Enzo a voltar a desenhar, olhando fotos de soldados na Ucrânia. A reação negativa de Vlad leva os dois a um lugar cinzento, entre a briga física, o empurrão e o abraço. Seu irmão também não responde bem ao contato físico. Descobrir seu lugar no mundo é passar por diversos tipos de masculinidade e, com sorte, escolher performar a que mais lhe convém e não faz mal aos outros.

Entre os produtores de “Enzo” estão os premiados cineastas Jacques Audiard, Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne. Sem dúvida estes nomes foram chancela para que o filme fosse escolhido para a abertura da Quinzena de Realizadores no Festival de Cannes de 2025. Mais que isso: o filme ganha importância como trabalho póstumo do roteirista Laurent Cantet, que escreveu a película e planejava dirigi-la. Com sua morte, a direção ficou a cargo do outro roteirista, Robin Campillo.
Eu aprendi na escola que todo trabalho é digno, mas obviamente ainda existe muito julgamento principalmente dentro das famílias. Talvez isso advenha do fato de que, em quase todos os ambientes de trabalho, se destaca uma figura paterna. Crescer também é isso: além de passar pela primeira desilusão amorosa, é encontrar fora de casa novos mentores. Assim, o que temos em “Enzo” é um coming of age fragmentado, cheio de camadas, imperfeito. Como é também na vida.
NOTA 8 de 10








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