Ah, os remakes. Ame-os ou os odeie, a verdade é que eles existem e não podem ser ignorados. Surgidos ainda no Primeiro Cinema, com Alice Guy regravando os irmãos Lumière, eles podem mudar alguma coisa na história – como o gênero dos personagens – ou serem refilmagens quase perfeitas. Muitas vezes eles também chamam a curiosidade para os filmes originais, o que é um ponto positivo. Recentemente tivemos o ganhador do Oscar de Melhor Filme “No Ritmo do Coração”, um remake do filme francês “A Família Bélier” e que por sua vez já foi refilmado na Itália como “Ouça Minha Voz”. Também sobre deficiência, “Olhe o Mar”, remake do mexicano “Ya Veremos” (2018) chega agora aos cinemas para engrossar a lista de remakes interessantes.
Quando o adolescente Milo (Ewan Bourdelles) precisa chegar perto demais de um mapa no metrô para enxergá-lo, um sinal de alerta se acende na cabeça de sua mãe, Chris (Audrey Fleurot). Ela o leva imediatamente ao oftalmologista e o diagnóstico é preciso e fatal: uma degeneração nas células da retina em estado avançada que o deixará cego em pouco tempo. Ela liga para o pai do menino, Antoine (Dany Boon) para ouvirem a sentença juntos, e ela cai como uma bomba. Em vez de agirem levando-o numa entidade para pessoas com deficiência visual, decidem seguir os planos iniciais e tirar férias.
Milo escolhe como lugar das férias a casa de praia do avô Alain (Nicolas Marié), pai de Chris, um viúvo que não aceitou sua viuvez. Por estar perdido, ele encontra algo em comum com o neto, também navegando águas novas e turbulentas. E Milo vem com uma ideia original para estreitar os laços: ele quer que o avô o ajude a ir surfar longe da vigilância dos pais.

A nova namorada do pai, Isabelle (Camille Solal), tenta ser inspiradora e convida a todos de seu trabalho para mandar boas energias para Milo, complementando que “há muitas coisas feias na vida que você não vai ver mais”. Ela é o caso clássico de positividade tóxica e pode evoluir para o comum porém malvisto “pornô de superação”, que acontece quando se espera tão pouco de uma pessoa com deficiência que qualquer coisa que ela faça é visto como uma vitória. Para Milo, Chris e Antoine, pensamento positivo não adianta nada – a eles lhes resta gritar para externar a frustração e a raiva.
Falando em raiva, na situação apresentada em “Olhe o Mar” cabem os cinco estágios do luto elencados por Elizabeth Kübler-Ross: negação / isolamento, raiva, barganha, decepção e aceitação. Não somente a jornada de Milo interessa, mas também de seus pais e vale destacar que conhecemos ainda a reação de seus amigos, jovens que como ele precisam lidar com um tipo de luto incomum para a idade.
O cinema já brincou com a visão e os pontos de vista em várias ocasiões. Para citar só uma: por boa parte da primeira metade de “Prisioneiro do Passado” (1947) dividimos da visão do protagonista, que depois nos é revelado ser Humphrey Bogart após uma cirurgia plástica. Em “Olhe o Mar”, o túnel que Milo vê por vezes é compartilhado com a câmera, e é angustiante.
O médico fala e Antoine comprova numa busca online que Milo tem retinite pigmentar, uma doença irreversível que em 55% dos casos tem causas hereditárias. Genes recessivos que sozinhos não fazem nada, mas que juntos podem causar um grande estrago – como aprendemos nas aulas de biologia. Como vimos no filme, isso adiciona uma camada de culpa nos pais da pessoa afetada, que na loteria genética lhe passaram sem querer o gene.

O diretor Emmanuel Poullain-Arnaud tem muito a dizer sobre sua história pessoal com o filme:
“Eu sempre parto da premissa de que há luz na tragédia. Quando passei por um câncer cercado pelos meus pais, foi obviamente uma grande reviravolta familiar, mas também criou situações cômicas através do constrangimento e da falta de jeito gerados pelo choque (…) Conforme faço meus filmes, percebo que é isso que busco, vindo de uma família um tanto quanto fragilizada: a ideia de reencontrar o amor diante das provações da vida”.
Como crítica de cinema e ainda por cima apaixonada por filmes mudos, a ideia de ficar cega me apavora. Já uso óculos desde os 21 anos, não tenho visão perfeita, mas nada que seja da magnitude do que Milo está para passar em “Olhe o Mar”. Talvez por isso tenha escolhido ser, além de crítica de cinema, audiodescritora: para ajudar os outros a ver. Mas assistindo a esse filme percebi um medo infundado. Uma pessoa não deixa de ser quem é caso se torne uma pessoa com deficiência. Cada um é único e importante. Por isso o lema que devemos ter sempre em mente: “nada sobre nós sem nós”. Ele vale também para o cinema.








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