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“No Ritmo do Coração” é um remake adorável e emocionante

É sabido que os norte-americanos não gostam de ler legendas – e nem a vitória de Parasita no Oscar parece ter mudado essa realidade. Por isso, vira e mexe surgem remakes nos EUA de filmes estrangeiros de sucesso. Uma das mais recentes “vítimas” disso foi a fofíssima produção francesa A Família Bélier. Tendo estreado em 2014 na França, o longa foi refilmado em 2021 sob o título No Ritmo do Coração… e o que poderia ser só mais um remake conquistou prêmios no Festival de Sundance e os corações de todos que o viram.

Ruby Rossi (Emilia Jones) é a caçula de uma família de pescadores e também a única ouvinte da família. Isso quer dizer que todos de sua família são surdos: o pai Frank (Troy Kotsur), a mãe Jackie (Marlee Matlin) e o irmão mais velho Leo (Daniel Durant). Ruby acorda todos os dias às três da manhã para acompanhar o pai e o irmão em alto-mar, pois é ela que opera o rádio do barco de pesca. Depois do trabalho, ela vai para a escola, onde é alvo constante de bullying.

Quando tem de escolher uma atividade extracurricular na escola, Ruby se deixa levar pelo crush que tem em Miles (Ferdia Walsh-Peelo, de Sing Street) e se junta, como o garoto, ao coral da escola. Logo o professor Bernardo Villalobos (Eugenio Derbez) descobre o talento de Ruby para o canto e a incentiva a ir estudar música na faculdade, o que a deixa dividida, já que isso significa a separação de sua família, que é bastante dependente dela.

O título original de No Ritmo do Coração é CODA, um acrônimo que no inglês significa Child of Deaf Adult, ou Filho de Adulto Surdo, termo usado para se referir a uma pessoa que foi criada por um ou mais adultos surdos. Essa é a realidade de Ruby e de milhões de outras pessoas, uma vez que se estima que 90% dos filhos de adultos surdos são ouvintes.

O grande ator do cinema mudo Lon Chaney, protagonista de O Fantasma da Ópera de 1925, era filho de adultos surdos, assim como a atriz Louise Fletcher, que fez seu discurso de aceitação do Oscar de Melhor Atriz por Um Estranho no Ninho usando língua de sinais para que seus pais a compreendessem.

CODA tem ainda outro significado na música: é uma passagem que leva ao final de uma canção. O duplo significado com certeza sinaliza mais uma vez a vida dupla de Ruby, transitando, não sem conflito, por dois mundos que, à primeira vista, parecem opostos. Sua história é um coming of age, uma história sobre crescer e amadurecer e, de certa maneira, colocar um ponto final numa parte da vida para começar a escrever outro capítulo.

Como mostrado no filme, alguns desafios dos CODAs são o isolamento social a que às vezes são submetidos e a estranha missão de viver, como uma música do filme bem descreve, entre dois mundos: o dos ouvintes e o da cultura surda.

Muitos pais e responsáveis acabam, de certa maneira, dependentes de seus filhos CODAs, pois em muitas ocasiões eles servem como intérpretes dos pais, fazendo esta ligação com o mundo ouvinte. É isso o que acontece com Ruby em No Ritmo do Coração e também o que acontece com a protagonista do filme original, A Família Bélier.

Em A Família Bélier, a família era de fazendeiros, não de pescadores. Mas a principal diferença vem no elenco: havia apenas um ator surdo no filme, que interpretava o irmão da protagonista. Seus pais eram interpretados por atores franceses sem deficiência, os já conhecidos Karin Viard e François Damiens. Essa escolha de elenco gerou várias críticas, e inclusive uma comparação com a deplorável prática do blackface. Apesar destas críticas, A Família Bélier é emocionante, contando inclusive com escolhas musicais melhores que as de No Ritmo do Coração.

Marlee Matlin, que interpreta Jackie em No Ritmo do Coração, fez história como a primeira mulher surda a ganhar o Oscar de Melhor Atriz em 1987. De lá para cá, a atriz teve uma carreira de muito sucesso, principalmente com personagens recorrentes em séries de televisão.

Outro destaque do elenco surdo é Troy Kotsur, que vem inclusive fazendo a limpa na temporada de premiações na categoria Melhor Ator Coadjuvante. Assim como Matlin, Kotsur tem uma longa carreira no teatro e na televisão. E não podemos falar do elenco de No Ritmo do Coração sem destacar o esforço da protagonista Emilia Jones, que teve aulas de canto e de língua americana de sinais (ASL) por oito meses.

No Ritmo do Coração foi escrito e dirigido por Siân Heder, que só aceitou adaptar A Família Bélier para os cinemas norte-americanos se tivesse liberdade criativa para fazer mudanças. Em contato constante com pessoas filhas de adultos surdos e com intérpretes de língua de sinais, ela também aprendeu a língua americana de sinais para se comunicar com o elenco e, de certa maneira, passou a ser mais direta em toda sua comunicação no set de filmagem, como afirma em entrevista para o site da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Logo após o triunfo de No Ritmo do Coração no Festival de Sundance – onde o filme ganhou quatro prêmios, um recorde –, Marlee Matlin foi convidada para apresentar, em língua de sinais, algumas categorias do Oscar de 2021.

O filme é muito bem-sucedido ao jogar luz sobre a cultura não ouvinte, ao mesmo tempo em que entretém e emociona. Agora, resta saber duas coisas: se o nome do professor de música de Ruby é uma homenagem ao nosso Heitor Villa-Lobos… e se este é o começo de uma nova realidade, com muito mais oportunidades, para atores e atrizes surdos em Hollywood.

Nota: Excelente 4,5 de 5 estrelas

 

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