Longa resgata a nostalgia dos desenhos clássicos em uma sátira inteligente que provou merecer a tela grande
Imagine se o Coyote, cansado de ver seus planos para capturar o Papa-Léguas darem errado, resolvesse processar a Acme? A fabricante das traquitanas que ele usa para alcançar a ave sempre causa um acidente por mau funcionamento, deixando o pobre coitado do vilão no meio da estrada enquanto sua presa segue serelepe em alta velocidade. É justamente desse ponto que parte Coyote vs. Acme, animação misturada com atores de verdade sobre essa inusitada disputa judicial.
Exasperado por explodir com dinamites defeituosas, despencar de penhascos por causa de patins a jato desregulados e ser esmagado por bigornas com falhas de fabricação, o indignado e obstinado canídeo decide que já chega. Convencido de que sua ruína constante não se deve à falta de habilidade, mas sim à falta de segurança da corporação, Wile E. contrata um advogado de pouca sorte para levar o império industrial aos tribunais. A partir daí, a narrativa transforma o ambiente sóbrio de um julgamento em uma verdadeira arena de caos, unindo a nostalgia das trapalhadas clássicas dos Looney Tunes ao absurdo de uma batalha jurídica entre um consumidor injustiçado e um gigante corporativo.

O maior trunfo de Coyote vs. Acme é o seu mote, cujo excelente desenvolvimento torna o longa um dos melhores a unir desenho animado a atores reais. Nesse hall, incluem-se o hors-concours Uma Cilada Para Roger Rabbit, o relativamente recente Tico & Teco: Defensores da Lei (que, infelizmente, em decorrência da pandemia foi direto para o Disney+) e o cult Mundo Proibido. Sem dúvida, este é o confronto mais esperado por quem acompanhou o cartoon na infância e sentia certa pena do coiote (este que vos escreve tinha raiva do Papa-Léguas), fazendo deste um título com grande apelo para o público maduro — não que os mais novos não possam desfrutar, mas o teor da maioria das piadas é voltado aos adultos.

Dave Green (As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras) conduz a produção com o timing certo da comédia, valorizando o humor (em boa parte do tempo sarcástico) e explorando a comicidade na dinâmica entre o personagem animado e seu advogado. Este é um dos pontos em comum com Roger Rabbit, que também mostrava um animal antropomórfico em desenho precisando da ajuda de um profissional humano — no caso, o detetive Valiant. Mesmo exercendo a função de diretor contratado, Green imprime muita personalidade, além de brincar com as paletas de cores de forma bastante marota. O roteiro de Samy Burch (Segredos de um Escândalo), desenvolvido a partir do argumento criado por ela junto com Jeremy Slater e o chefão da DC, James Gunn, tem como base um artigo da revista New Yorker. Mesmo abusando da caricatura, o script se sai bem na condução de situações absurdas, com direito a todo o exagero cartunesco.
Will Forte, no papel do advogado desafortunado Kevin Avery (uma clara referência ao clássico animador da era de ouro, Tex Avery), é um ótimo “escada”, gera empatia com o espectador e demonstra excelente timing cômico. John Cena também se sai bem no papel do antagonista Buddy Crane. As participações de outros personagens de Looney Tunes são divertidíssimas, com vários acenos não só às animações clássicas, mas também ao cinema — como ocorre com um personagem pivô da trama.

A qualidade da animação é bastante satisfatória, sobretudo por se tratar de uma produção de orçamento não tão vultoso. As interações entre humanos e desenhos não são tão físicas como em casos anteriores — a exemplo de Roger Rabbit e Space Jam —, talvez por o filme não buscar espetacularizar o uso da tecnologia. Até mesmo técnicas de sombras e texturas são usadas com parcimônia, preservando a estética dos cartoons clássicos sem modernizá-los em excesso.

Coyote vs. Acme quase teve o destino injusto de ir direto para o streaming. Felizmente, a produção (concluída em 2023) conseguiu ganhar as telonas após um imbróglio de distribuição, e fica claro que o cinema é o local correto para desfrutar do filme. A tela grande sente falta de boas ideias que não venham cercadas de excesso de hype — foi assim que nasceram diversos clássicos do passado. Ainda que não se equipare em nível de excelência a Uma Cilada Para Roger Rabbit, seu inevitável parâmetro, o longa é uma ótima novidade e tem tudo para figurar entre as supresas do ano.












