Você sabe o que é uma série de antologia? É aquela série em que cada temporada conta uma história diferente. Talvez a mais famosa, apesar de hoje praticamente irrelevante, é “American Horror Story”. Séries de antologia permitem continuar um produto ou fórmula de sucesso sem estragar uma história que já foi concluída – porque existem muitos exemplos de minisséries que, ao ganharem uma segunda temporada, degringolaram. Após fazer a limpa nas premiações, “Treta” se tornou uma série de antologia. Será que sua segunda temporada ficou tão boa quanto a primeira? Vejamos.
Um belo e exclusivo clube esportivo era propriedade do casal aparentemente feliz Josh (Oscar Isaac) e Lindsay (Carey Mulligan). Eles acabam de vender a propriedade para uma senhora coreana, a sra. Park (Youn Yuh-Jung, vencedora do Oscar por “Minari”), e demissões na equipe poderão ocorrer. Quem trabalha no clube é o jovem casal aparentemente feliz Ashley (Cailee Spaeny) e Austin (Charles Melton). Numa noite, Josh esquece a carteira no clube e os jovens vão levá-la na casa dele, mas acabam testemunhando uma briga homérica entre o casal. Eles filmam boa parte da ação, mas não chamam a polícia.

Ashley descobre um cisto no ovário que está causando grandes dores e que por isso precisa ser operado imediatamente. Mas ela não tem dinheiro para a cirurgia. Com ambos encarando uma possível demissão, Ashley e Austin enfrentam as dificuldades de maneira diferente. Ele é teórico e discorre sobre os perigos do capitalismo tardio. Ela é prática e já sabe qual o próximo passo: chantagear o outro casal para que fiquem com estabilidade no emprego.
O cisto no ovário de Ashley e seu desejo de ser mãe fornecem combustível para uma crítica ao sistema de saúde norte-americano, com seus atrasos e contas astronômicas para quem é atendido fora dos convênios, ou mesmo para quem tem um convênio mas faz procedimentos que não são cobertos por seu plano. Ashley e Austin se afundam em dívidas ao ponto que ela precisa roubar garrafas de água no serviço para terem o que beber em casa.

Nessa segunda temporada há mais tretas dentro de cada casal do que entre os casais, especialmente na relação de Josh e Lindsay, que presenciamos desmoronar. Mas a crise do casal leva a desentendimentos também entre Ashley e Austin, que tomam as dores de seus patrões mesmo sem querer, quase por osmose, principalmente quando o casal mais velho se aproxima do mais novo, com segundas intenções.
Mas nem só de discutir relações vive a segunda temporada de “Treta”. Há também um crime sendo encoberto. A Sra Park, nova dona do clube, está escondendo que seu marido matou uma pessoa durante cirurgia por não estar apto para operar na ocasião. Ela não mede esforços para eliminar quem se coloca em seu caminho e a rede de intrigas que vai se alinhavando ao redor dos casais só tem seu clímax no episódio final.

Em muitas ocasiões a câmera se torna fluida, acompanhando os movimentos de um personagem ou se deslocando até chegar a um close-up. Foi publicada recentemente entrevista com o diretor de fotografia da segunda temporada, James Laxton – também diretor de fotografia do vencedor do Oscar “Moonlight” (2016) – que afirmou que escolheu uma câmera carinhosa para filmar o que no fim das contas, ou talvez bem no começo, é uma história de amor. Ademais, a trilha sonora, que nunca é muito invasiva, ficou a cargo de Finneas O’Connell, irmão da cantora Billie Eilish e com ela ganhador de dois Oscars.
A segunda temporada de “Treta” tem bons talentos em frente e atrás das câmeras, e temas que não vemos com tanta frequência – como identidade de descendentes de coreanos. A tensão vai crescendo até o clímax, lindamente filmado. Mas faltou algum ingrediente, talvez a banalidade do ato que leva à treta da primeira temporada. É um produto mais cerebral, mas não por isso menos humano.
NOTA 6 de 10












