Subversão Kafka
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Humor contra o Absurdo: Peça ‘Subversão Kafka’ Desbanca Atmosfera Densa do Escritor com Ironia Fina

Entrar no espaço cênico de Subversão Kafka — espetáculo em cartaz em curtíssima temporada no Teatro PRIO, na Gávea, no Rio de Janeiro, até o próximo domingo, dia 27 de setembro — é ser imediatamente arremessado para dentro de um universo em ruínas. A peça, dirigida por Caio Blat, com texto de Rogério Blat e estrelada por Caio ao lado de Pedro Henrique Müller, serve de moldura para uma obra que faz exatamente o que promete no título: subverte.

Em vez de se apoiar na paralisia cinzenta, burocrática e desesperançosa tradicionalmente associada ao universo de Franz Kafka (1883–1924), a montagem escolhe o caminho do humor sarcástico, do escracho e da irônica acidez. O texto costura os três últimos contos do escritor tcheco – “Primeira Dor”, “O Artista da Fome” e “Josefina, a Cantora ou O Povo dos Camundongos”, escritos em seu leito de morte, quando a tuberculose já lhe tirava a voz – e os transforma em um espelho do ridículo e das dores da nossa própria necessidade contemporânea de superexposição e aplausos.

É nessa atmosfera de decadência que desabrocha o poderoso dispositivo do metateatro. A peça fala o tempo todo sobre o próprio fazer teatral e sobre os elementos cênicos que a constroem. Ao colocar os artistas remanescentes tentando encenar um espetáculo improvisado enquanto esperam por uma estrela que nunca chega, a dramaturgia expõe as tripas do teatro.

Subversão Kafka peça

A cenografia, concebida por ninguém menos do que o lendário cenógrafo José Dias, não é apenas um pano de fundo, mas uma instalação viva: um ambiente de circo e de cabaré decadente onde os intérpretes comentam os figurinos, discutem a própria representação e escancaram a fragilidade do artista. Esse jogo de espelhos metalinguístico se torna ainda mais fascinante com a presença do pianista e tecladista Fernando Moura.

O consagrado músico, com uma carreira consistente na MPB e conhecido por sua notória parceria com o percussionista Ary Dias (do grupo A Cor do Som), revela-se um verdadeiro animal de palco. Moura, que originalmente não se via como ator, acaba se tornando o terceiro vértice dramático da peça. Suas intervenções ao piano e teclado não funcionam como mera sonoplastia de fundo; elas ditam o ritmo do improviso, tensionam as piadas e reagem em tempo real às loucuras do elenco, fazendo da trilha sonora uma engrenagem ativa na cena.

Os atores em cena apresentam ao público um trabalho corporal e vocal digno de nota, mostrando que houve uma preparação prévia impecável. O acesso ao esforço físico é tamanho que induz este resenhista a cogitar se o ator Caio Blat chegou a emagrecer, dadas as suas “aparentes costelas”, para viver as personagens franzinas e agonizantes dos contos adaptados. Esse vigor em cena ganha sustentação técnica precisa graças ao minucioso trabalho de Dani Visco na preparação de corpo e de Agnes Moço na preparação de voz, cujos comandos artísticos blindam o fôlego e a performance visceral da trupe.

Aliás, a enriquecedora química entre os intérpretes se estabelece a partir da montagem de Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski, e do nítido gosto de todos os artistas envolvidos em estabelecer um diálogo potente entre o palco contemporâneo e os grandes clássicos da literatura universal. Essa expressividade corporal se expande ainda mais na subversiva interação com os intérpretes de Libras.

Quebrando a barreira tradicional que isola a acessibilidade no canto do proscênio, a direção os integra organicamente ao jogo teatral. Os intérpretes de sinais dialogam com as piadas e participam ativamente da coreografia caótica do espetáculo, transformando sua inclusão em pura linguagem estética.

Toda essa engrenagem culmina na transmutação do espírito de A Metamorfose. A icônica figura do inseto no qual Gregor Samsa acorda transformado deixa de ser um horror biológico literal para virar uma metáfora escrachada do homem moderno.

Subversao Kafka Foto Guilherme de Sousa

Sob o manto do humor cortante, a metamorfose em barata ou o canto desafinado da ratazana Josefina passam a ilustrar o maior pânico contemporâneo: o isolamento social, a inadequação e o pavor de “flopar” — termo que as redes virtuais usam para definir o fracasso absoluto de engajamento, o conteúdo ignorado pelos algoritmos e deixado no vácuo de uma plateia vazia. O pesadelo burocrático de Kafka ganha contornos de isolamento digital e convoca o espectador a testemunhar essa catarse cênica de perto.

Corram para assistir a esta imperdível montagem no Teatro PRIO antes que o circo desmonte suas lonas! Aproveitem as últimas sessões de encerramento desta temporada até este domingo, dia 27 de setembro, de onde a peça segue em viagem para levar sua visceral provocação a outras paragens brasileiras.

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