Há algo de profundamente mágico na atmosfera do Cinema Odeon durante a noite de gala de abertura do Festival do Rio 2026. Quando as luzes da histórica sala da Cinelândia se apagam, o público não busca apenas entretenimento; busca uma revelação. O longa espanhol A Bola Preta (La Bola Negra) chegou a essa sessão especial ostentando a chancela de Pedro Almodóvar na produção (que inclusive ganha uma astuta piscadela metalinguística em cena) e, nos seus minutos iniciais, pareceu pronto para entregar exatamente essa promessa.
Concebido como um tríptico narrativo, o filme é uma meditação profunda – inspirada no espírito de Federico García Lorca – sobre a história secreta da sexualidade gay na Espanha. Uma história historicamente apagada e negada, mas que aqui é transfigurada em uma misteriosa poesia restauradora da alma.

O filme abre com uma sequência de pura bravura visual ambientada em 1939, durante a Guerra Civil. Sebastián (Álvaro Lafuente Calvo), um jovem trompetista quase infantil em sua ignorância política, vê a aldeia pró-nacionalista onde está ser acidentalmente bombardeada por forças fascistas italianas. Em uma imagem de um simbolismo mordaz e brilhante, ele tenta escapar dos escombros de uma igreja escalando a estátua esmagada de São Sebastião, o eterno ícone da sensualidade masculina ambígua, agarrando-se às flechas cravadas na pedra como pontos de apoio.
Arrastado para o exército franquista, ele se apaixona pelo prisioneiro republicano que deveria vigiar: Rafael (Miguel Bernardeau), um ator e jogador do Atlético de Madrid. A câmera captura Rafael com uma vulnerabilidade cativante, transformando-o em um mártir impossivelmente belo, cujas ataduras vertem sangue como as lágrimas de uma estátua milagrosa. A melancolia da época é coroada por uma maravilhosa aparição de Penélope Cruz, uma das produtoras do longa, radiante como a cantora de boate madrilena Nené.
Recuando para 1932, a plástica impecável do filme nos joga em Granada, onde o jovem Carlos (Milo Quifes) vive o trauma que dá título ao longa. Sua entrada em um clube de elite é negada sob rumores de sua homossexualidade, concretizada em uma cerimônia absurdamente opressiva presidida por políticos e clérigos, onde esferas brancas e pretas rolam solenemente por uma calha. Rejeitado, ele vagueia em uma névoa alcoólica e desafiadora, hesitando entre negar a acusação ou abraçá-la como um grito de guerra.

Mas se o passado é banhado por um lirismo romântico e requintado, o salto para 2017 nos joga na brutalidade do mundo contemporâneo. Aqui, o homem gay já não é emoldurado pela estética da beleza trágica. Alberto (Carlos González) é um dramaturgo fracassado pesquisando identidades queer na música dos anos 1920.
A sequência em que ele almoça com sua mãe, Teresa – vivida por uma vulcânica Lola Dueñas, rosto inconfundível do cinema almodovariano -, é um espetáculo de dor crua. Entre brigas regadas a álcool e uma carreira de cocaína, Teresa cospe que o avô fascista do rapaz o desprezaria por sua sexualidade, escancarando como o trauma da repressão foi herdado e apodreceu as raízes familiares.
A dupla Javier Calvo e Javier Ambrossi (também conhecida como Los Javis) deixa explícita sua ambição e garra ao comandar as câmeras. São amparados pela belíssima direção de fotografia tratando a tela não como uma moldura, mas como uma pintura viva. As bordas arredondadas nas pontas no interessante aspecto evidenciam isso. Os enquadramentos e praticamente reproduções de quadros e esculturas sacras, porém inseridas em uma temática LGBTQIA+, evidenciam coragem, ainda que a sutileza predomine.
O próprio Lorca surge como uma espécie de coro grego incidental, uma figura espectral que parece intuir todos os triunfos e desastres futuros do amor e da guerra. Mas é em uma constatação do próprio poeta andaluz que o filme encontra seu paradoxo fatal: “só o mistério nos mantém vivos”. E é exatamente o mistério que os diretores acabam sufocando na sala de edição.
O longa peca gravemente pela falta de concisão e pela armadilha da sua própria estrutura não linear. À medida que o terceiro ato se aproxima, o roteiro sente uma necessidade didática de explicar e conectar milimetricamente as três narrativas. Quando as peças desse belo quebra-cabeças são forçadas a se encaixar para dar sentido ao todo, aquela poesia lorquiana evapora. Tramas que começam magnéticas passam a competir entre si por tempo de tela, resultando num anticlímax. A emoção não explode; ela se dilui no cansaço de um filme que não confiou plenamente na capacidade de seu público de abraçar a abstração.

A Bola Preta é uma obra rica, gratificante e produzida com um nível de detalhe amoroso. A dupla de cineastas exerce o ofício com uma garra inegável e muito talento. Contudo, fica a amarga sensação de que, dentro dessa monumental tapeçaria, havia um filme infinitamente mais poderoso esperando por uma reverência maior ao silêncio. É uma jornada que nos deslumbra os olhos de forma irrefutável, mas que, ao fazer questão de amarrar todas as suas pontas soltas, lamentavelmente deixa a alma à deriva.












