Há de se celebrar, sempre, um artista como Gonzaguinha e sua obra, o que ora muito justamente está acontecendo. O teatro musical brasileiro frequentemente padece de um mal crônico: a armadilha da idolatria linear. Biografias de palco costumam domesticar a complexidade de nossos gênios para transformá-los em um desfile previsível de sucessos comerciais, costurados por um roteiro didático e condescendente. É com um suspiro de alívio, portanto, que este resenhista acompanhou de perto, na noite de 25 de setembro de 2026, o espetáculo “Gonzaguinha é” no histórico palco do Teatro Sesc Ginástico, situado no Centro do Rio de Janeiro.
A ocasião teve um sabor ainda mais especial por marcar a primeira vez que este cronista visitou a tradicional casa da Avenida Graça Aranha após a grande reforma de retrofit e modernização acústica entregue pelo Sesc em dezembro de 2025. Encontrar a plateia pulsante e o teatro inteiramente renovado e confortável reforça o vigor da cena cultural carioca. A escolha do nome de Inez Viana para assumir a direção artística revelou-se um acerto da produção.
Convidada para dirigir o espetáculo encenado pela premiada Barca dos Corações Partidos, ela imprimiu um ritmo ágil à montagem, que é visceralmente comprado pelos atores em cena. A trupe estraçalha o protagonismo absoluto ao pulverizar a figura de Luiz Gonzaga Jr. por todo o elenco – não há um Gonzaguinha; há um revezamento onde o papel passa de ator para ator conforme a cena e o momento. Essa estratégia dá uma excelente não linearidade à peça.

O texto de Braulio Tavares e Ana Carbatti é muito feliz ao destacar a obra de Gonzaguinha como cronista musical, além de equilibrar com maestria a sua veia política e romântica. Grande parte desse vigor documental se deve ao apoio fundamental da família do compositor, que cedeu para a produção textos e materiais inéditos escritos e falados por ele.
Para este jornalista, o momento na plateia engrenou um filme particular na memória: foi em 1996 que recebi em minha casa o quarteto recém-formado Las Chicas – composto justamente pelas filhas do mestre, Nanan Gonzaga e Amora Pêra, ao lado de Isadora Medella e Paula Leal. Tive o privilégio de ser um dos primeiros a ouvi-las cantar ali e de trabalhar diretamente com o grupo para lançá-lo na mídia, testemunhando o florescer daquele DNA musical poderoso.
Ver o legado de Gonzaguinha expandido no palco evoca aquela mesma força artística. A costura dessas memórias familiares atinge o ápice da sensibilidade quando evoca o complexo e itinerante relacionamento com seu pai, o mestre Luiz Gonzaga, em uma fala que ecoa no palco de forma avassaladora: “Conheci o Brasil viajando com meu pai. Conheci meu pai viajando com o Brasil.”
Além do lirismo familiar, a força política também se faz presente quando a montagem recupera a voz e o relato de Gonzaguinha anunciando o histórico atentado à bomba no Riocentro, durante o show do Dia do Trabalho em 1981, evento no qual ele próprio se apresentava. O espetáculo ganha contornos ainda mais provocativos e imediatos quando, em cena, um dos atores pontua de forma ácida que nos arredores daquele mesmo Teatro Ginástico não houve registro de nenhuma bomba naquela noite. A frase ecoa como um relatório burocrático e frio, mas joga uma ironia pesada sobre o espectador ao contrastar a aparente normalidade do Centro com o atentado na Zona Oeste. Fica no ar o mistério se a fala trata-se de um caco improvisado ou de um texto rigidamente estruturado, mas o efeito é imediato: uma incômoda e cirúrgica ironia que reverbera com força diante do tenso momento político brasileiro atual.
Outro grande acerto da montagem foi a escolha do repertório: a estratégia de colocar músicas famosas entremeadas com músicas de “lado B” funciona perfeitamente, transformando-se em uma grande oportunidade de descoberta para as pessoas do público que não conhecem profundamente a obra do poeta. O espetáculo extrai frescor do trágico acidente que calou o artista precocemente em Pato Branco.
Nascido em 22 de setembro de 1945 e falecido em 29 de abril de 1991, Gonzaguinha partiu muito cedo, aos 45 anos, deixando no ar a inevitável provocação sobre o que ele teria criado nesses últimos 35 anos, já que a sua música continua atual. Essa universalidade ganha ainda mais sentido quando lembramos de sua conexão internacional — a exemplo da conversa póstuma promovida pelo renomado cantautor uruguaio Jorge Drexler, que regravou o clássico “O Que É, O Que É” em espanhol no álbum Taracá, indicado ao Grammy Latino 2026.
Ao não suavizar a rebeldia do compositor para transformá-la em nostalgia confortável, “Gonzaguinha é” se consolida como teatro vivo, urgente e que grita na cara da plateia: quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda!












