A Sobrevivência e a Amizade Indie: Os Bastidores de Ratboys e The Beths na Estrada

Por trás dos pedais de efeito e das vans quebradas, Julia Steiner e Liz Stokes revelam a realidade das turnês, equipamentos roubados e a verdadeira essência do rock alternativo. Para alguém lidando com o sistema de resfriamento de uma van de turnê quebrado, Julia Steiner soa surpreendentemente calma. A guitarrista e compositora da banda Ratboys…


Por trás dos pedais de efeito e das vans quebradas, Julia Steiner e Liz Stokes revelam a realidade das turnês, equipamentos roubados e a verdadeira essência do rock alternativo.

Para alguém lidando com o sistema de resfriamento de uma van de turnê quebrado, Julia Steiner soa surpreendentemente calma. A guitarrista e compositora da banda Ratboys atendeu a ligação diretamente da estrada, enquanto o quarteto de Chicago — formado também por Dave Sagan, Sean Neumann e Marcus Nuccio — viajava para promover seu sexto álbum de estúdio, Singin’ to an Empty Chair. Do outro lado do mundo, Liz Stokes, líder do The Beths, conectou-se de seu estúdio caseiro em Auckland, na Nova Zelândia, logo após concluir uma maratona de quatro meses de turnê do disco Straight Line Was A Lie.

Em uma conversa franca e descontraída originalmente conduzida pela Guitar World, essas amigas de longa data e parceiras de turnês transatlânticas abriram o jogo sobre a dura realidade de viver de música, a evolução de seus equipamentos e as histórias inusitadas que acumularam na última década.

Um Encontro Marcado pelo Improviso

A amizade entre as duas frontwomen começou no verdadeiro espírito do “faça você mesmo” (DIY). Elas se conheceram em uma noite de segunda-feira de 2018, no tradicional The Louisiana, na cidade de Bristol, no Reino Unido. Na época, o The Beths estava viajando sem equipamento e pediu para usar os amplificadores do Ratboys.

Liz Stokes/The Beths

O impacto foi imediato. “O show de vocês me impressionou tanto que mandei um e-mail para o nosso agente dizendo: ‘Você precisa assinar com essa banda!’”, relembrou Steiner. Três meses depois, o álbum de estreia do The Beths foi lançado e o mundo descobriu o talento dos neozelandeses.

A admiração mútua transparece na análise de seus trabalhos recentes. Stokes rasgou elogios à sonoridade do quarteto americano, afirmando que é possível ouvir a presença de todos os integrantes no disco. Segundo ela, as composições do Ratboys possuem uma base honesta e direta. Em contrapartida, Steiner exaltou a consistência de Stokes: “O álbum do The Beths continua a tendência de composições fantásticas e escolhas sonoras interessantes. Nunca há um momento de tédio”.

Guitarras Roubadas, McCartney e Tretas com a Gibson

Quando o assunto migrou para o arsenal guitarrístico, o tom alternou entre a nostalgia dolorosa e a indignação roqueira. Stokes revelou o trauma de ter sua guitarra principal, uma G&L Fallout, roubada durante uma turnê. Para piorar, a banda viu todo o equipamento furtado sendo anunciado para venda anos depois no Leste Europeu. Bem-humorada, a neozelandesa ainda nutre a esperança de um milagre. A vocalista citou o exemplo de Paul McCartney para manter o otimismo, e brincou com o fato de o ex-Beatle ter acabado de recuperar o seu famoso e lendário baixo Höfner perdido há décadas.

Já Julia Steiner não economizou nas palavras ao defender sua guitarra atual — uma V-shape inspirada na Danelectro e fabricada pelo luthier Ian Williams, da Nepco. A guitarrista elogiou o peso e a facilidade de manuseio do instrumento, mas aproveitou a oportunidade para criticar abertamente a gigante Gibson, que havia emitido uma notificação extrajudicial contra a Nepco pelo uso do design “V”. “Um enorme f***-se para a Gibson! O Ian faz essas guitarras por amor, e qualquer um deveria poder tocar uma guitarra em formato V”, disparou a artista.

A Realidade da Estrada e a Dança dos Pedais

Julia Steiner/Ratboys

A jornada desde os primeiros acordes acústicos até o domínio dos palcos elétricos exigiu adaptações. Steiner confessou que nunca havia tido uma guitarra elétrica até duas semanas antes de gravar o primeiro disco do Ratboys. Hoje, ela não vive sem o pedal de overdrive Timmy (da Paul Cochrane) e tem se divertido com um fuzz de botão único da Acapulco Gold. Stokes também teve que abandonar a antiga sacola de pano onde carregava seus pedais; a neozelandesa agora utiliza um resistente Pelican case para acomodar duas pedaleiras conectadas a um switcher, mesclando efeitos complexos para guitarra elétrica e acústica no meio das canções.

Ao refletirem sobre como a indústria mudou desde que começaram, Steiner destacou o difícil clima político e o impacto do preço da gasolina nas turnês americanas. Além disso, ela deixou um conselho valioso sobre a “era dos algoritmos”. Steiner afirmou sentir pena das bandas mais jovens, que enfrentam uma pressão esmagadora em torno de métricas de streaming e contagem de seguidores.

Ela lembrou que, no início de sua banda, essas métricas públicas simplesmente não existiam. A artista espera que as pessoas se deem a liberdade de criar música sem a obrigação de viralizar, pois “esse não é o objetivo”.

No fim, é a conexão real que mantém bandas como The Beths e Ratboys superando vans quebradas e voos exaustivos. Como Liz Stokes bem resumiu: “Você tem que começar com uma experiência presencial, e a partir daí se transforma em uma sala com alguns de seus amigos. Esse é o atrativo da música com guitarra — ela perdura”.