No espetáculo Incondicionais, do Amok Teatro, com direção e dramaturgia de Ana Teixeira e Stephanie Brodt, vemos um elenco de cinco atrizes (Dai Ramos, Luciana Lopes, Sirlea Aleixo, Taty Aleixo e Thay Aleixo) que se revezam entre as presas protagonistas (Rayane, Ivanilde, Keren e Lorena) e as funcionárias do presídio que compõem a “equipe de cuidado”: são psicólogas e assistentes sociais, cuja função é a de atender, ouvir e, quem sabe, encaminhar algumas das demandas que surgem das mulheres presas e de seu contexto no presídio e na família.
A peça, fruto de ampla pesquisa documental e de um processo de 6 meses de ensaio, é inspirada em algumas obras: Cadeia – Relatos sobre mulheres, da antropóloga Debora Diniz; Prisioneiras, do médico Drauzio Varella; Presos que Menstruam, de Nana Queiroz; e, por fim, Prisioneiras – Vida e violência atrás das grades, de Bárbara Musumeci Soares e Iara Ilgenfritz.
Na costura dramatúrgica das cenas retratando consultas e atendimentos, vamos tendo oportunidade de conhecer as histórias trágicas das quatro mulheres e tudo o que as levou às respectivas condenações. Também nos aproximamos da impotência e de alguma realização pessoal das trabalhadoras que atuam com a população carcerária feminina, ouvindo suas dores, buscando compreender as motivações instaladas nas bases de suas histórias e tentando se aproximar de um óbvio maquinário de injustiças, privações e restrições do qual não se avista o começo e cujo resultado final é bastante previsível. Talvez um dos aspectos de grande interesse da peça seja a ênfase na relação entre prisioneiras e trabalhadoras da escuta e do cuidado e o que essa relação pode ajudar a produzir: pode ser que a escuta que as funcionárias proporcionam às detentas promova, mesmo que devagar, outras construções de si. Até que, a partir dessas relações, miúdas frestas sejam criadas e alargadas, no intuito de se alcançar algum respiro e algum horizonte de ação, para além da asfixia e da reação que qualquer instituição total (prisões, manicômios e conventos, como nos sinalizou Erving Goffman) acaba gerando.

Chama atenção a fala da primeira prisioneira cujo relato temos a oportunidade de acompanhar: foi acusada de infanticida por causa de um parto solitário, absolutamente trágico, que levou à morte de sua filha. Quando instigada a contar o que de fato ocorreu, como se tivesse silenciado sua história desde o início de tudo, Keren desesperadamente diz: “eu falo desde aquela madrugada, o que muda é quem escuta”. É absolutamente assustador constatar a lucidez da mulher condenada ao pontuar o óbvio: a história não muda, mas faz toda a diferença a forma como é ouvida e a partir de que perspectiva. Keren pariu sozinha uma filha, abandonada pelo pai da criança e cercada por certa negligência de seus próprios progenitores. O pai da criança está em qualquer outro lugar do mundo, sem tomar conhecimento do drama, ao passo que a mãe está encarcerada há dez anos por causa de certa interpretação (perigosa e míope) do que realmente aconteceu. A personagem diz: “de abortiva, foi julgada como infanticida”. Como ela mesma pontua, “quem me julgou nunca pariu sozinho”. A partir de que lugar e de que histórias pessoais os responsáveis por julgar e proferir sentenças o fazem?

Efetivamente, Incondicionais é uma peça que mobiliza muitas emoções e toca em uma realidade de violência que precisa ser vista e revista. Ao retratar um dia de expediente na vida das funcionárias da equipe de cuidado, o texto nos dá notícias da invisibilidade de seus trabalhos, a qual só pode ser fruto da continuidade lógica da invisibilidade de mulheres presas, em sua maioria pretas e mães.
A reflexão é necessária, ainda que cunhada em texto didático, apesar de o objetivo não ter sido nem didático, nem jornalístico. Mas o didatismo existe, com explicações ou conclusões, especialmente ao final do espetáculo, que não seriam necessárias, já que tudo está dito e escancarado nas fortes cenas, nos gestos e nas narrativas. Quando, ao contrário, o espetáculo pende mais para sua faceta artística, distanciando-se do “documentário”, os lampejos dramatúrgicos que costuram as explicações são muito interessantes: a cena da refeição e da conversa entre as quatro presas, a mútua entrega musical sobre suas vidas e o escrutínio das regras tácitas de funcionamento do poder do presídio feminino e de sua contraparte masculina acabam por ser o apogeu do espetáculo.
Ficha técnica
Direção e dramaturgia: Ana Teixeira e Stephane Brodt
Elenco: Dai Ramos, Luciana Lopes, Sirlea Aleixo, Taty Aleixo e Thay Aleixo
Iluminação (criação): Renato Machado
Figurinos: Stephane Brodt
Cenário: Ana Teixeira
Edição de som: Gabriel Petitdemange
Operação de luz: João Gaspary
Operação de som: Anderson Ribeiro
Cenotécnico: Beto Almeida
Produção: Gabriel Garcia
Assessoria de imprensa: Ney Motta
Fotos de divulgação: Renato Mangolin
Designer gráfico: Dila Puccini
Mídias sociais: Mariã Braga

Serviço
Local: Teatro Arena do Sesc Copacabana
Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro
Temporada: 25 de junho a 19 de julho de 2026, quintas e sextas às 20h, sábados e domingos às 18h
Data de sessão com acessibilidade: 27/06 e 11/07
Informações: (21) 3180-5226
Bilheteria: de terça a sexta das 9h às 20h, sábados, domingos e feriados das 14h às 20h.
Lotação: 155 lugares
Classificação etária: 16 anos Duração: 90 minutos








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