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“Homem-Aranha: Um Novo Dia” e a árdua tarefa de recomeço

Novo longa abraça a essência clássica do herói, longe das muletas do MCU

O final de “Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa” não deixava dúvidas de que a vida de Peter Parker sofreria uma dura reviravolta. “Homem-Aranha: Um Novo Dia” não é um recomeço tímido. Inclusive, é a prova de que era possível trocar de diretor sem perder o fôlego. O apenas correto Destin Daniel Cretton assume o posto que era do quase burocrático Jon Watts e dá um passo à frente daquilo que a trilogia anterior construiu, sobretudo nas cenas de luta — algo que ele já havia mostrado dominar em “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis” e que aqui ganha ainda mais precisão. Não é exagero dizer que as sequências de combate remetem diretamente ao jogo da Sony estrelado pelo herói: a coreografia, o ritmo, até a atmosfera geral do filme parecem ter saído direto do controle para a tela. E isso de forma alguma é demérito.

Mais do que uma aula de ação, porém, o filme aposta em algo mais raro: abraçar o absurdo dos quadrinhos sem pedir desculpas por isso. Faz tempo que uma adaptação não trazia tantos elementos non-sense do universo dos super-heróis de forma tão natural, tão orgânica. Aqui não há medo de ser, de fato, um filme sobre um cara de pijama azul e vermelho (agora costurado por ele mesmo, desprovido do aparato das indústrias Stark) balançando pela cidade — e é justamente essa entrega sem reservas que dá liberdade para o roteiro respirar. Ao mesmo tempo, “Um Novo Dia” é surpreendentemente delicado. Por trás do espetáculo, existe uma história pessoal, quase íntima, sobre quem é Peter Parker quando tira a máscara. Para quem sentia falta do Homem-Aranha clássico, que passa os maiores perrengues na vida pessoal, além das dificuldades para salvar o dia e, mesmo assim, nunca desiste, aqui vai um prato cheio.

Não temos mais um Peter Parker estagiário de algum herói da Marvel. Agora é ele por si próprio, entendendo o sentido da frase “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”, que neste universo foi dito pela tia May. E Tom Holland, mais uma vez no papel do aracnídeo, acerta justamente em nos transmitir sutilmente o quão penoso é para Parker carregar este fardo, fazendo praticamente tão bem quanto Tobey Maguire, o que deixa “Sem Volta Para Casa” ainda com mais aspecto de passagem de bastão. Seus fiéis amigos Ned (Jacob Batalon) e MJ (Zendaya), também seu grande amor, são coadjuvantes, mas essenciais para o andamento da história e desenvolvimento do protagonista.

Vale registrar: os vazamentos que circularam por mais de um ano na internet acertaram pouco. Os chamados insiders não sabiam tudo. O filme engana o espectador com reviravoltas genuínas, e mesmo quem acompanhou cada rumor sai da sala surpreendido — o que é, por si só, uma pequena vitória num cenário de spoiler fácil. Daí é importante conferir o longa neste primeiro final de semana sob risco de aí sim receber um indesejado spoiler real.

Outro acerto é que o longa não depende de conexões forçadas com o restante do universo Marvel para se sustentar. Não há necessidade de ficar remoendo o que veio antes; as referências existem, mas funcionam como reforço de pertencimento, não como muleta. É um mundo já confortável com super-heróis e vigilantes andando por aí, e o filme sabe exatamente onde pisa dentro dele.

As participações especiais são um capítulo à parte — surpreendentes, bem dosadas, e os efeitos visuais acompanham esse nível de ambição, sem passar o vexame de deixá-los inacabados, como aconteceu no anterior. Há humor na medida certa, sem que ele atropele o tom mais humano da trama. É a combinação rara de ser, ao mesmo tempo, um filme amplo sobre o mito do herói do bairro e um retrato pessoal sobre um garoto tentando entender quem ele é.

E aí está talvez a maior virtude de “Homem-Aranha: Um Novo Dia”: ele não é um filme só para quem decora cada arco dos quadrinhos ou assistiu tudo o que a Marvel já fez. É acessível a quem está começando agora, a quem nunca se apegou ao personagem, a quem só conhece o essencial. Não exige senha de entrada. A tradicional cena pós-créditos cumpre seu papel, plantando dúvidas e expectativas para o que vem a seguir — um gancho que promete, e que deixa claro que o estúdio ainda sabe exatamente onde está e para onde quer ir, algo que já vinha sendo questionado. Tudo isso soma a favor de um sucesso que tem tudo para seguir a tradição do Amigo da Vizinhança e ultrapassar a bolha dos fãs mais fiéis. Apesar de não ser perfeito (esse título ainda é do filme 2, de 2004), é satisfatório e hábil até em trazer o Justiceiro (Jon Bernthal) para o PG-13. Um filme para desarmar os mais descrentes na versão MCU do Cabeça de Teia.

Homem-Aranha: Um Novo Dia

Homem-Aranha: Um Novo Dia
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